Livre arbítrio e Verdade

Toda e qualquer verdade "pronta" faz mal para o homem. Ele tem que se valer do seu próprio esforço, usar a sua inteligência e a sua consciência para saber o que é verdadeiro e o que não é.

Tensão religiosa. A Religião sem a “tensão religiosa” só serve para corromper o indivíduo; é usada apenas para trazer "alívio". Uma falsa sensação de alívio. Chamo de “tensão religiosa” um certo desconforto e uma certa inquietação que não nos permitem “descansar”, e que se localiza exatamente no ponto entre a fé e a dúvida.

Onde não existe dúvida, a fé é um “analgésico” da consciência. Mas a maioria busca a fé para não ter dúvidas, então ela é um analgésico na quase totalidade dos casos.

Entre o homem que busca a Verdade (consciente de sua natureza racional) e o que não a busca (o homem pragmático, seguro e que segue a vida mecanicamente, sem se importar), a diferença é a mesma que existe entre um ser humano e um animal. Hoje em dia, a racionalidade, inclusive a científica, tem servido apenas como mais um instrumento da animalidade, com finalidades apenas pragmáticas. "Fazer ciência", curar doenças, etc... essas coisas passaram a ser atividades meramente instrumentais, que se esgotam no atendimento das necessidades puramente animais. Além da racionalidade científica, a razão em si mesma é uma finalidade do homem. E a espécie humana é particularmente infeliz porque não vive segundo sua finalidade.

O homem é o animal que pode, e, portanto deve, conhecer a Verdade. Ele é como um tigre: deve “caçar” a Verdade por si mesmo, sem esperar que alguém lha traga (como disseram Buda, a Bíblia e todos os sábios e santos). Acho eu que isto resume o “pecado original”:

O que significa a “Árvore do Bem e do Mal” (a do ‘fruto proibido’)? O gostoso e o desagradável. O que é a “Árvore do Conhecimento”? É a da Busca pela verdade. A primeira é a das necessidades meramente animais, a segunda a das necessidades humanas. Da segunda o homem pode e deve “comer”. Da primeira não.

A escolha entre a razão ou a animalidade é uma escolha livre. Nada no horóscopo do sujeito ou mesmo no caráter dele permite a você antecipar se ele fará uma escolha ou outra. A liberdade humana existe. Livre-arbítrio. E liberdade também quer dizer imprevisibilidade, não dá para saber que lado o indivíduo vai escolher; e o fato é que a maioria sempre escolhe a animalidade: prazer e dor, que ele chama de "bem" e "mal".

Entre a busca do prazer e a fuga da dor e o que os indivíduos hoje já chamam de moral eu não vejo distância alguma! Estão se tornando uma só e a mesma coisa. Só pode saber o que é moral o homem que busca a Verdade. Aí sim, ele sai do plano do prazer e dor, e portanto, sai do plano dos falsos bem e mal. E somente então, do ponto de vista da Verdade, ele pode enxergar o verdadeiro Bem e o verdadeiro Mal.

Se não houvesse esta dificuldade, este limite à intuição humana, nós estaríamos seguros como bebês: aquilo que a nossa intuição nos mostrasse seria a Verdade Universal, e nós nunca erraríamos, teríamos sempre a segurança de um bebê no colinho da sua mãe.




Adaptação de uma aula sobre Astro-caracterologia ministrada por Olavo de Carvalho - jornalista, escritor e filósofo, em 1991.