Há o Mal? - parte 2


Na ânsia de compartilhar conhecimento, ultimamente tenho me atrevido demais a falar de coisas que são muito maiores do que a minha capacidade de compreensão, e mesmo que eu tenha encontrado as minhas respostas, não posso esperar que o leitor a tudo compreenda do mesmo modo. Por isso, o título desse post mudou de “A natureza do Mal” para “Há o Mal?” – assim mesmo, no interrogativo, que é a maneira que mais me agrada e que me parece a mais correta. O objetivo do blog é muito mais o de fazer perguntas que o de apresentar respostas, prontas, bonitas e reconfortantes (o que seria o caminho mais fácil, diga-se de passagem). Mais proveitoso é questionar, indagar, fazer pensar; tentar fazer com que os braços se descruzem, derrubar por terra todas as certezas que não venham da experimentação profunda. Eu confesso aqui, publicamente, que a minha intenção não é agradar o leitor nem incentivá-lo a permanecer “tranqüilo” como está. Minha intenção é mais a de tirar (expulsar, se me for possível) o leitor da sua (falsa?) zona de conforto. Então, ao trabalho...

Não devemos pensar no Mal. Não temos que ficar remoendo sobre o Mal; principalmente porque isso nos levaria a um nível mental prejudicial, para nós mesmos e para todos. Mas devemos ter muito claro em nossas mentes que, neste plano de existência, neste mundo fenomênico, ele existe. E nós vivemos no mundo fenomênico! Simples, portanto, entender a importância de se falar neste assunto, ainda que seja desagradável.

Mas será que o Mal não é um meio para o nosso crescimento, espiritual e humano, em todos os sentidos? Será que Deus, sendo o Sumo Poder da Existência, não seria capaz de subordinar esse Mal à sua Vontade, e assim, livrar-nos desse obstáculo de uma vez por todas? Ou será que o Mal na verdade seria mais um instrumento do próprio Deus neste mundo, com finalidades e propósitos específicos? Tomemos como base argumentativa a história de Lúcifer – se ele era um anjo que optou pelo Mal, isso implica que, de algum modo, o Mal já existia, certo? Só podemos optar por algo que já exista. Vale ainda lembrar que o texto bíblico nos conta, no livro de Jó, que Satanás se apresenta diante de Deus, para pedir autorização para tentar os homens. E Deus o permite, como uma prova de fidelidade. Histórias extremamente semelhantes constam no "Mahabharata", o mais antigo livro sagrado hindu; e em outras escrituras ancestrais. Então, se o Mal é apenas um instrumento de Deus, na Verdade não existiria essa “Batalha Cósmica” entre Bem e Mal, como entendem muitos, já que tudo é regido por um Poder que é Maior e Ilimitado. Tudo faria parte de um Plano muito maior do que tudo aquilo que poderíamos imaginar ou conceber.

Bem, esta é uma linha de pensamento válida, eu diria. Mas digo com muito mais veemência que essas questões estão muito além do nosso alcance, e assim é por Vontade de Deus. Então, será que a Inteligência Suprema não tem o melhor dos motivos para que assim seja? Não nos compete julgar essas coisas. Querer compreendê-las é caminho certo para a insanidade. Deixo meu testemunho pessoal que cheguei muito perto da loucura (não é só força de expressão) por pretender colocar a imensidão do oceano dentro da minha pequena xícara.

Mas um fato fácil de se constatar é que a existência do Mal é um fator essencial para o cumprimento da nossa missão neste mundo. Aprendemos através das dificuldades. “A espada que mais 'apanha' do mestre espadeiro se torna a mais resistente, a mais afiada e a mais perfeita” - diz um antigo provérbio samurai. Se nós estivéssemos aqui para viver como que num “mar de rosas”, imersos eternamente num oceano de bem-aventurança, sem enfrentarmos problemas e provas, teríamos ficado no lugar de onde viemos. Ou seja, não teríamos deixado a Fonte (Deus), nem perdido conexão com a Energia divina, para viver neste mundo duro e cruel, cheio de dificuldades e injustiças. Se eu creio e confio na Justiça, então eu creio que estamos aqui por um bom motivo, e esse motivo só pode ser o aprendizado. Assim, ao estudar um pouco a vida dos grandes espiritualistas e santos, descobrimos que muitas vezes as almas mais desenvolvidas foram justamente as que mais enfrentaram sofrimentos e tropeços em suas vidas. Permanecer no Caminho é custoso, dá trabalho. Por isso Jesus diz: “Entrem pela porta apertada e sigam o caminho estreito”. Mas os “mestres” do mundo dizem: “Entrem pela porta larga, sigam o caminho mais fácil e espaçoso! Deus aceita tudo! ” Se você citar Buda, Jesus ou qualquer buscador espiritual autêntico (já que todos, sem exceção, pregavam um trabalho de auto-aperfeiçoamento constante), esse falso mestre com toda certeza responderá algo do tipo: “Jesus também vale! Buda também vale! Tudo é bom, tudo é divino!” – “Faça o que tu queres pois é tudo da lei!” – É a filosofia do “oba-oba espiritual” em sua plenitude...

Akhenaton, Zoroastro (ou Zaratustra), Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, Sidarta (Buda), Bodhidharma, Nagarjuna (fundador da Escola do Caminho do Meio), Maomé, Rumi, Ramakrishna, Yogananda, Jesus... Todos estes (só para citar alguns) ensinaram que precisamos escolher entre Bem ou Mal, e anular nossos próprios egos para atingir a perfeita realização humana. “Há dois pássaros pousados no galho da árvore do meu eu. Ambos habitam o meu corpo. Um me chama a comer os frutos amargos, outro os deliciosos. Mas os amargos levarão minh’alma às delícias, e os deliciosos a levarão à amargura”provérbio hitita. Quem tem entendimento para entender...

Quero deixar uma conclusão importante: é exatemente quando estamos no bom Caminho, caminhando na direção certa, que as vibrações negativas tendem a se intensificar em nossas vidas. E muitas vezes acabamos nos desviando. Isso já foi observado muitas e muitas vezes ao longo da história (e inclusive por participantes deste blog). Para encerrar o assunto, deixo a história do famoso caso de uma bióloga ex-cética que foi curada em Medjugorje, um dos principais centros de aparições de Nossa Senhora no mundo (assunto que eu pretendo abordar em breve). Seu nome é Rita Klaus. Eu tenho a história em detalhes, contada com todas as minúcias pelo seu amigo pessoal, o repórter cético da revista Rolling Stone americana, Randall Sullivan, no seu livro “Detetive de Milagres”:

Essa cura, a da americana chamada Rita Klaus, foi a mais divulgada de todas as relacionadas às aparições de Nossa Senhora em Medjugorje. A atenção que a mídia internacional deu ao caso talvez tivesse muito a ver com o fato de ela ser uma ex-freira, que à época da sua cura, tinha perdido a fé havia quase três décadas. Ela abandonou a religião pela ciência e saiu do convento para fazer uma especialização universitária em biologia. Seu nome então era Rita McLaughlin. Pouco depois de se formar, foi diagnosticada uma esclerose múltipla nela, e, por causa da doença ela não conseguiu encontrar lugar como professora. A jovem chegou a encontrar trabalho no oeste da Pensilvânia, mas só pôde passar no exame médico ao inventar uma história de que tinha sido vítima de pólio na adolescência, e assim explicar a fraqueza muscular que sofria. Casou-se com um colega ateu e teve o primeiro de seus três filhos. Este tinha apenas alguns meses de idade quando sua mãe perdeu a capacidade de apreensão e o deixou cair no chão. A doença de Rita progredia. O grau de sua debilidade física era o que tornava o caso tão intrigante: Em 1986, ela estava já com a visão turva e sofria de incontinência urinária periódica, passando quase todas as horas do dia numa cadeira de rodas. Ela não era uma mulher pequena, e três pessoas levavam cerca de vinte minutos para levá-la para a cama, no andar de cima da sua residência, à noite. Com a degeneração dos músculos, as pernas começavam a apresentar deformações – para dentro, no joelho, e para fora, no tornozelo. Ela não podia nem sequer sentar na cadeira de rodas sem prender suas pernas em braçadeiras de aço.

Segundo o artigo do jornal "Pittsburgh Press", Rita, quando soube de Medjugorje no início de 1986, começou a rezar para a Virgem Maria. Na noite de 18 de Junho daquele ano, ela ouviu uma voz que acreditou ser da Virgem. E então uma oração emanou de dentro dela e um choque elétrico percorreu seu corpo. Na manhã do dia seguinte, quando acordou, Rita sentiu, pela primeira vez em anos, suas pernas; uma sensação que foi se firmando no decorrer do dia. À tarde, Rita desafivelou a braçadeira que prendia a perna direita e viu que a perna torta estava perfeitamente alinhada. Logo depois, ela soltou a perna esquerda e se levantou. Naquela noite, sem ajuda, ela subiu a escada que ia dar no seu quarto. Na manhã seguinte, Rita desceu e tornou a subir a escada correndo! Mais tarde, naquele mesmo dia, caminhou mais de 1,5 quilômetro para chegar à casa da amiga que tinha disso a primeira pessoa a lhe falar de Medjugorje.

Rita Klaus foi examinada por muitos médicos e esteve em muitas clínicas durante os anos em que esteve doente, e por isso tinha uma vasta documentação médica da sua doença. O que espantou a sucessão de médicos que a examinou, tanto antes como depois da sua cura, não foi o fato de sua recuperação ter sido total, mas principalmente de ter sido imediata. Uma melhora espontânea da esclerose múltipla seria inconcebível, mas o estrago nos músculos das pernas de Rita tinha sido tão grande que seriam necessários meses de fisioterapia para ela conseguir dar alguns passos sozinha. Subir e descer escadas correndo não poderia ser classificado de outro modo que não “completamente impossível”.

Abaixo, a transcrição do seu relato pessoal, dado diretamente a Randall Sullivan. Segundo ele, Rita Klaus hoje é uma mulher "grande e bonita, de bem cuidados cabelos brancos", muito equilibrada e segura. Esse relato fala do Mal e das experiências que ela viveu antes e depois da sua cura miraculosa. Os grifos são meus:

“Satanás existe, e o mal dentro de nós vem da tentação. Temos de tomar uma decisão, para o Bem ou para o Mal. Então, o Mal está dentro de nós, sim, como você acredita, mas está também fora de nós. E acredite, é real e difuso, muito. O melhor que o Diabo pode fazer é nos convencer de que ele não existe, porque se não existe, não temos nenhuma responsabilidade. Onde quer que Deus esteja presente, o Bem está presente. E onde quer que o Bem esteja presente, o Mal está presente. Isto procede da própria Base da Existência. Mesmo nas ciências, há a carga positiva e a negativa. Deus criou o Diabo como um anjo de luz. E também criou a liberdade de escolha, e o Diabo fez uma escolha muito ruim; originada do orgulho. O orgulho é a raiz de todos os pecados. É a sua própria essência. Sabemos um bocado sobre o orgulho. Mas todos temos o pecado do orgulho. É por isso que precisamos do Salvador. Erramos porque nos parece bom. Vou lhe contar a minha história. Não quero apavorá-lo, mas acho que você precisa ouvir.

A minha história começa realmente depois da minha cura. Mas vou retroceder no tempo, de todo modo, porque quero que você compreenda que o que ocorreu primeiro foi a minha cura espiritual, uns cinco anos antes, e foi muito mais importante. Uma amiga me chamou e perguntou se eu gostaria de assistir a uma cerimônia para cura na paróquia vizinha. Eu não queria ir, e disse: ‘Não acredito nisso’. Aquilo tudo me parecia tão medieval e distante... ‘não existem essas curas. Sou cientista, bióloga experimentada, não acredito em religião nenhuma.’ Ela me ligou muitas vezes, e a cada ligação eu ficava mais zangada. Ela é uma mulher instruída, e eu queria saber como era possível minha amiga acreditar naquela bobagem. Ela perguntou: ‘Você já o viu na TV?’ Ela se referia ao padre que estava ministrando a cerimônia. E eu lhe contei que o meu irmão, que é um repórter investigativo que trabalha na televisão, desmascarava esses charlatões o tempo todo. Ele mostrava como essas pessoas eram introduzidas no meio do público e como tudo não passava de armação. Por acaso, o meu marido estava presente e ouviu essa conversa. E me perguntou: ‘Por quê você está se comportando assim? Eu acho bom você ir’. Ora, meu marido não é religioso e muito menos católico. Eu disse: ‘Você está falando sério?’ E ele me disse que eu estava me tornando uma pessoa chata, irascível. ‘Até os nossos filhos estão com medo de falar com você, porque você parece sempre tão irritada com o que lhe aconteceu’. Eu respondi: ‘E como você acha que eu me sinto?’ - E muito desconfiada, perguntei à minha amiga: ‘Quando vai ser a tal cerimônia para cura?’ Ela respondeu: ‘Depois da missa.’ E eu: ‘Tudo bem, mas não vou me exibir, subindo no palco com as minhas muletas’.

Naquele dia a igreja estava entupida; qualquer um que tivesse uma pinta no nariz estava ali para ser curado e eu estava me divertindo com tudo aquilo. Eles me empurraram para um banco junto com os outros, e eu pus as muletas no chão. Os padres todos vieram pela nave central, e todo mundo se levantou para recitar o Pai-nosso. Então eu tentei me levantar. Eu estava com aquelas peças nas pernas que, quando eu me levantasse, prenderiam minhas pernas, mantendo-as firmes. Eu não tinha outro jeito de andar, senão com as muletas. Então eu tentei me levantar e as peças se fecharam. Agarrei nas costas do banco à minha frente e então escorreguei para baixo desse banco. As pessoas me agarraram, me puxaram para cima, tentando fazer com que eu voltasse a ficar de pé. Aquilo é que era exibição!”

Eu só queria sair dali, mas o padre me agarrava por trás e me empurrava para que eu me aproximasse do altar. Eu não podia fugir, porque ele me abraçava como um urso. Fiquei furiosa. ‘Como o senhor ousa me tocar sem a minha permissão?’ Eu estava vermelha, mas o padre já estava rezando e todos os outros padres também, e chegavam mais perto e punham suas mãos sobre mim. Eu me sentia simplesmente humilhada.

Então, de repente, algo aconteceu. Era como se eu não estivesse ali. Todo mundo tinha sumido. Havia só uma luz branca à minha volta. E eu me sentia extraordinariamente amada. Não dá para descrever o que se passava. Eu sentia uma paz e um amor intensos e era como se nada mais importasse. De repente me vi rezando... dizendo que estava bem, que Deus estava certo, fosse lá da maneira que fosse. Não houve nenhuma mudança no meu físico, mas eu estava curada por dentro. Quando fui para casa, eu era literalmente uma pessoa diferente. Eu tinha sido freira, mas nunca fui uma pessoa realmente religiosa. Mas naquele momento eu era.

Fisicamente, piorei muito nos cinco anos seguintes. Eu não podia mais andar nem de muletas. Mas nunca pedi a Deus que me curasse. Um dia, porém, eu estava tão cansada de tudo aquilo, que pensei: ‘Quando é que tudo isso vai terminar?’ e então ouvi uma voz que me disse: ‘É só pedir.’ Assim que a ouvi, me dei conta que era a voz da Mãe Santíssima. Então pedi, e em 24 horas eu estava curada, completamente curada, como se nada errado jamais tivesse acontecido comigo.

As pessoas acham que depois de ter havido uma cura, tudo se torna uma maravilha para a pessoa curada. E é uma maravilha. Mas quando Deus permite que algo muito bom nos aconteça, há uma razão para isso, e sempre há uma responsabilidade acompanhando essa dádiva. Então a minha vida não ficou mais fácil depois da cura, ficou até mais difícil. E depois, reparavam tanto em mim que eu não podia mais ir a lugar nenhum. O tempo todo tinha gente ao meu redor, nem que eu fosse só ao supermercado. Teve uma moça que chegou a desmaiar quando me viu andando pela primeira vez, ela simplesmente desabou no chão. Eles me conheciam e sabiam o que tinha acontecido. Era esse tipo de reação que eu causava nas pessoas.

Meu marido, então, ficou apavorado. Ele não sabia por que, não sabia como lidar com aquilo. Ele se perguntava se a melhora duraria: ‘Será que ela vai acordar doente amanhã? Se nossas ações não forem perfeitas, será que Deus vai voltar atrás nessa cura?’

Então, é aí que começa a história que eu quero lhe contar, e que ocorreu mais ou menos um ano depois da cura dos meus males físicos.



A continuação dessa história fica pra amanhã. Até lá!