Guia prático do buscador

Começo hoje a falar de alguns princípios essenciais que eu descobri há muito tempo, quando ainda era um buscador desesperado, querendo encontrar a Verdade hoje, agora JÁ!.. É que uma das primeiras coisas que eu entendi, quando comecei a me importar com espiritualidade, foi que o único dia real é hoje, e o único momento que existe é o agora. Isso muito antes do Eckhart Tolle lançar o seu livro “O Poder do Agora”, no se propôs explicar didaticamente esse princípio básico dos verdadeiros buscadores. Lembro-me que quando descobri a Meditação, a primeira “modalidade” que eu pratiquei foi a “MT” (Meditação Transcendental). E me encantei.

O que será que faz a diferença, numa prática espiritual (assim como em qualquer outro tipo de prática): as técnicas e métodos ou as capacidades naturais do indivíduo e, principalmente, as suas reais intenções? O que é primordial para nos levar ao sucesso ou ao fracasso, a encontrar ou não aquilo que estamos procurando? O método ou o indivíduo? Não estou falando da forma, aqui (ou de religião, em se tratando de espiritualidade), mas sim das técnicas; tais como a meditação, contemplação, oração, uso dos mantras, a prática das virtudes, etc...

Lembro-me de um bom exemplo, que eu conheci através de um livro de filosofia, há muitos anos, de cujo autor não me lembro mais: “Se o mais importante fosse o método, todos os colegas de classe do Albert Einstein teriam se tornado 'gênios', já que todos passaram pela mesma metodologia e aprenderam dos mesmos mestres. Mas só existiu um Einstein. O indivíduo Albert Einstein é que era um dos maiores 'gênios' da Ciência em todos os tempos, muito mais por suas capacidades inatas e devido aos seus esforços pessoais, do que por conta da sua formação acadêmica. Este exemplo demonstra que o método deve ser necessariamente considerado menos importante do que a capacidade individual e os esforços pessoais”.

Ou seja, a diferença estava mais nele, Albert Einstein, do que nas técnicas que "foram usadas" nele. Isso não deve ser entendido como um menosprezo às técnicas ou às formas - o praticante certo, usando a técnica certa, poderá atingir a perfeição muito melhor e mais rápido do que se tivesse escolhido uma via equivocada. Mas é um fato que as capacidades inatas do indivíduo, aliadas à sua real disposição em progredir, valem mais do que o formalismo puro e simples.

Estou falando nisso porque eu comecei a praticar Meditação muito mais para encontrar as respostas que eu buscava do que só para relaxar, diminuir o stress ou para me sentir “diferente”, orientalizado... Também não me interessava o lado puramente místico e os simbolismos que normalmente acompanham o “pacote” que nos é oferecido, quando procuramos meditação. O que eu queria era usar essa técnica como uma ferramenta para me ajudar na Busca. E também não queria ficar a mercê de qualquer energia. Não achava prudente simplesmente anular o meu ego, assim, “ir embora” sem mais nem menos e deixar minha mente “à deriva” no tempo e no espaço, para quem quisesse abarcar. Por isso, instintivamente, sempre fazia uma oração, entregando meu espírito a Deus, antes de iniciar a sessão. Acho isso importante, e acho que fez mesmo toda a diferença para mim. Anos depois, vim a descobrir que Meditação Cristã é exatamente isto, e os resultados me foram muito mais perceptíveis do que os de apenas anular o ego. Quando nos entregamos para alguma “força”; seja ela o Amor ou o ódio, seja um vício ou uma virtude, essa força toma conta de nós. Por isso, eu me entregava sempre ao Criador, ao Autor e à Fonte de toda a Vida e de todo Amor.

E descobri, ainda um pós-adolescente, que eu podia acalmar meus pensamentos conturbados; e principalmente descobri o maravilhoso efeito que esse processo me trazia, clareando a minha mente e abrindo o meu discernimento. Isso me foi de uma ajuda enorme.


Após as sessões de meditação, eu sempre me colocava a refletir, então com a mente calma e desanuviada, sobre as questões que me afligiam ou que eu considerava importantes. E naqueles preciosos minutos, eu fazia anotações num caderno que já deixava ao meu lado pra isso. Comecei a fazê-lo porque percebi que, pouco tempo depois que eu voltava ao meu “estado mental normal”, aquela imensa serenidade já começava a “desaparecer”, e, com ela, desapareciam as respostas que eu então tinha podido enxergar muito claramente. O efeito que o contato com essa “mente superior” me provocava, era rapidamente perdido, ao retornar para o chamado “mundo fenomênico” (o 'mundo dos fenômenos' esse nosso dia-a-dia corrido, nossa trivial rotina de acordar-trabalhar-dormir). E desse modo aprendi muitas coisas importantes. Às vezes, eu pegava o caderninho no dia seguinte e lia o que tinha anotado, e me pegava surpreso com o que estava escrito ali! Parecia ter sido anotado por uma outra pessoa! Certos princípios que eu nem sabia exatamente como tinham surgido na minha cabeça estavam lá, descritos em detalhes... Isso demonstrava a grande diferença entre a mente preocupada e estressada e essa mesma mente quando perfeitamente calma e serena, numa comunhão harmônica com o Universo, muito mais plena e desimpedida.

O fato é que, desse modo, aprendi muitas coisas comigo mesmo, como se eu fosse meu próprio “mestre”. Era como se, durante as sessões de meditação, a minha consciência aflorasse de modo especial, extremamente vívido, de lá do fundo do meu “eu” irrequieto, e assim eu pudesse me dar dicas e “toques” preciosos, a mim mesmo (soa meio maluco, eu sei). O que posso dizer é que comecei a seguir essas orientações, e assim obtive muito proveito, na minha busca. Eu guardo um grande coleção desses velhos cadernos até hoje. Quando fui morar com Hana, ela descobriu esse material, e todos os dias passava horas lendo minhas antigas anotações naquelas páginas amareladas, e quase sempre, depois vinha me abraçar, dizendo-se maravilhada... Bem, mas esses cadernos me acompanharam (e tem me acompanhado) por toda minha vida, e contém um farto material pra ser divulgado aqui no blog, entre aforismos, princípios básicos de vida e dicas práticas para o buscador.

Com o passar do tempo, eu acabei desenvolvendo um sistema próprio para buscar a Verdade, uma espécie de código de regras pessoal, que eu chamava de “Guia Prático Pessoal Para a Grande Arte” ou "Guia do Buscador". Ia sendo escrito baseado nas coisas que eu eu fui descobrindo aos poucos, através de testes, na prática, sempre fazendo uso da minha consciência. "Façam prova de todas as coisas e fiquem com o que é bom..." - pois é. Assim eu percebia o que que funcionava, para minha vida, e o que não funcionava. Foi vivenciando a espiritualidade dessa maneira, por meio de exercícios constantes, que eu comecei a abraçar certos princípios e certos autores, os que me foram úteis, e a descartar outros. As idéias de muitos autores considerados por muitos como “grandes mestres” (e que escrevem lindamente), se mostraram inúteis, e muitas vezes nocivas, na prática, enquanto outras se revelaram verdadeiramente produtivas. E é assim que a Busca funciona; há o que deve ser usado e o que deve ser descartado, embora todas as coisas cumpram seu papel específico no grande aprendizado que é a vida. Num belo dia, eu abri aquele meu primeiro caderno de anotações e lá estava escrito:

“Ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada em busca da Verdade, enquanto não for capaz de praticar a sinceridade consigo mesmo. Absoluta sinceridade é necessária, para que a Busca se torne possível. Enganar-se a si mesmo é o primeiro e o maior dos pecados. Não se permita o autoengano, por motivo nenhum. Não engane a si próprio, mesmo que isso pareça lhe trazer bem-estar ou uma felicidade aparentemente sublime, no momento. O erro é quase sempre muito agradável, e os descaminhos são muito atrativos; por vezes parecem mesmo elevados. Se assim não fosse, tantos não se entregariam à esses maus caminhos, e o mundo não seria o que é hoje...”


A partir desse dia, ainda muito jovem, eu comecei a observar sempre uma profunda sinceridade e transparência para comigo mesmo; e praticando constantemente essa auto-observação, acabei me surpreendendo muitas vezes, pela freqüência com que eu mesmo me sabotava, em diversas situações do dia-a-dia; como me permitia enganar, ou pior, como eu mesmo me iludia, como que propositalmente, em troca de um conforto passageiro ou uma pequeno alívio das minhas dificuldades. E quanto mais fazia isso, pior a vida ia ficando, e mais longe estava da minha "Casa" e da minha proposta primeira, a de ser feliz. Porque não existe felicidade longe da Verdade. Essa prática me tornou um buscador mais apto.

Observe-se a si mesmo, e veja o quanto você se prejudica, por fazer escolhas ilusórias, apenas por um alívio temporário ou por comodidade. Vigie-se, e veja o quanto você anda se sabotando, e tente entender o porquê disso. Esta é a dica que eu queria dividir com você hoje.

“...quando você for capaz de viver assim, normalmente e sem esforço; quando a sinceridade for um hábito profundamente enraizado dentro de você; e quando ser sincero consigo mesmo for a sua realidade e a sua rotina, você estará apto a partir para o próximo estágio da via do buscador."

"Porque ninguém pode se considerar apto para iniciar a Jornada, enquanto não for capaz de responder, de modo definitivo e com absoluta sinceridade, para si mesmo, a três perguntas fundamentais. Estas perguntas são o início de tudo.”



Essas perguntas são o tema do próximo post. Por enquanto, pense na questão da sinceridade...