Maria de Salete

As aparições da Virgem Maria, principalmente as consideradas como as mais importantes, são vistas pelos que acreditam nelas como uma promessa de salvação e também como um prelúdio do Apocalipse. Entretanto, a maioria desconhece que os relatos das visitas da Virgem remontam no mínimo ao século III, quando Gregório, o Taumaturgo, atestou que Maria lhe aparecera uma noite, acompanhada de João Batista, para introduzi-lo no “Mistério da Piedade”. Mas talvez a mais impactante das aparições de Nossa Senhora tenha ocorrido em 1531, num morro nos arredores da cidade do México. Ali, um camponês asteca chamado Juan Diego alegou ter encontrado uma bela e jovem mulher que se identificou como a “eterna Virgem, a santa Mãe do Verdadeiro Deus”. Essa visão o orientou a ir diretamente ao bispo do México e lhe dizer que o desejo dela era que exatamente naquele lugar se construísse um templo, relatou Juan Diego. O bispo exigiu um sinal e Juan Diego recebeu um ramo de rosas que floresciam no inverno. A Virgem havia lhe dito que as rosas deviam ser levadas atadas dentro do poncho, disse Juan Diego, e disse também que ele não deveria abrir o agasalho até chegar à presença do bispo. Quando Juan Diego abriu o poncho, porém, ele e o bispo viram uma belíssima imagem da Virgem entranhado no tecido. O poncho é feito de fibra de cacto, material que em geral se decompõe depois de vinte ou trinta anos. Mas acontece que o poncho de Juan Diego e a imagem de Nossa Senhora estampada nele duram quase cinco séculos. Mais de 10 milhões de pessoas vão à igreja de Guadalupe todo ano para ver a imagem no poncho de Juan Diego, objeto que talvez seja o maior motivo do sucesso da Igreja Católica na América Latina.

Popularmente, considera-se que as modernas aparições marianas tiveram início com as visões da camponesa Bernardete Soubirous, em Lourdes, na França, no decorrer do ano de 1858; visões que até hoje inspiram o interesse de religiosos e pesquisadores de fenômenos sobrenaturais do mundo inteiro. Mas na realidade, elas começaram 28 anos antes, no convento das irmãs de caridade da rue du Bac, em Paris. Ali, uma freira chamada Catarina Labouré afirmou que a Virgem lhe aparecera como uma figura cercada de luz, parada, com um com um pé sobre um globo branco e o outro pisando a cabeça de uma serpente de manchas amarelas. Nas mãos, disse Catarina, a Virgem levava uma esfera dourada que representava o mundo. Acreditava-se que essas imagens estariam relacionadas ao Livro das Revelações, no qual se lê que uma “Mulher vestida de sol” luta contra Satanás pelo destino das almas humanas. Catarina Labouré nada fez para desestimular essa idéia, e contou que a Virgem lhe prevenira de que o mundo estava prestes a ser dominado por “males de toda espécie”, e também relatou que Maria a encarregara de mandar cunhar uma medalha que reproduzisse a forma com que ela se apresentara.

A estes assuntos, destas aparições em especial, voltarei numa próxima oportunidade (já que existem ainda muitos detalhes a serem explorados). Por hora serviram apenas como introdução para um tema muito vasto.




A primeira aparição mariana em que “segredos” proféticos foram revelados a videntes ocorreu em 1846, no pequeno povoado de Salete, nos Alpes franceses. Os videntes de Salete eram dois jovens pastores, Melanie (ou Melânia) Calvat, de 14 anos, e Maximim Giraud (ou Maximino), de 11. Os dois contaram que a Virgem lhes aparecera enquanto eles estavam dando de beber ao gado numa fonte, e que ela chorava enquanto lhes dizia que estava sofrendo por causa da humanidade, e depois lhes avisou que coisas terríveis ocorreriam. Depois disso começaram a acontecer curas milagrosas nesta fonte, que logo chamaram a atenção das autoridades da Igreja. Estas não tardaram a afastar Melanie e Maximim dos seus pais, e os levaram a freqüentar a escola das Irmãs da Providência em Corps. Os padres franceses que examinaram os dois ficaram muito mal impressionados com os jovens, descrevendo-os como “mal-educados”. Mesmo os clérigos mais céticos admitiram, porém, que quando os dois falavam de suas experiências com a “Senhora”, eles pareciam se transformar, já que falavam desses fatos com uma eloqüência e sobriedade que nenhum deles demonstrava em nenhum outro momento, e era exatamente isso o que mais impressionava neste caso. Alguém que se dispõe a inventar uma "visão" ou encenar uma mentira com certeza tentaria passar a impressão de seriedade e virtuosidade; como fazem todos os charlatões, desde que o mundo é mundo. Ninguém parece mais educado e sóbrio do que um falso místico.

O boato de que a Virgem revelara um “segredo” a cada um dos videntes de Salete começou a se espalhar pela França no decorrer de 1847. Além de dizer que esses segredos existiam, os dois jovens negaram-se a revelá-los e explicaram que a “Senhora” lhes pedira que não os divulgassem. Ofertas de recompensas, ameaças de prisão e morte, trapaças e armadilhas de todo tipo não conseguiram convencê-los a revelar os segredos. Os investigadores admitiram estar impressionados com a determinação dos jovens. Maximim era considerado um tanto aparvalhado, mas, ao se recusar a revelar os segredos, mostrou “uma correção, uma discrição e uma firmeza inteiramente estranhas à sua idade e situação”, observou um padre. Quando informado de que tinha a obrigação de contar o que sabia ao confessor, Max pensou um instante e depois respondeu que o segredo não era nenhum pecado, e por isso ele não precisava revelá-lo.

Em 1848, os segredos de Salete tornaram-se objeto de enorme interesse para os que esperavam restaurar a monarquia francesa. Profecias falsificadas circulavam por toda parte. Ao mesmo tempo, os dignitários da Igreja redobravam seus esforços para convencer Melanie e Maximim a revelar o que lhes tinha sido dito. Uma grande pressão foi feita sobre Max, insistiram com o jovem durante todo o ano, tanto em 1849 como em 1850, chagando até a tentar extrair o segredo pelo medo, defrontando-o com um homem de quem se dizia estar possuído pelo demônio. Foi o arcebispo de Lyon que afinal persuadiu Max, em 1851, a confiar o segredo ao papa Pio IX. Depois de escrever a carta ao papa contando o que ele afirmava ser o que a Virgem lhe revelara, Max demonstrou grande alívio, jogando o papel para o alto e gritando: “Estou livre! Não tenho mais segredos! Sou como os outros!”

Com Melanie foi mais difícil, mas ela também acabou concordando em escrever uma carta ao papa contando-lhe o segredo, desde que apenas ela pudesse, pessoalmente, selar e endereçar o envelope. Enquanto escrevia a carta, Melanie perguntou aos padres ali presentes o que significava “infalibilidade” e também com se escreviam as palavras “maculada” e “anticristo”. O papa Pio IX leu as cartas diante de dois padres. ”Aqui temos toda a candura e simplicidade de uma criança”, comentou o papa após a leitura da carta de Max, a que ele pareceu reagir com pouco entusiasmo. Entretanto, ao ler a carta de Melanie, o papa chorou abertamente. Um amigo e confidente do papa diria apenas que a carta de Max anunciava “misericórdia e recuperações” enquanto o texto mais longo de Melanie prevenia o mundo de grande sofrimento.

Em três anos, alguns panfletos que supostamente revelavam os segredos de Salete começaram a circular na Europa. Quase todos eram atribuídos, pelos autores, a Max. Apenas um desses foi considerado autêntico, um folheto publicado em 1871 que tratava principalmente dos temas Conversão e Paz, embora terminasse com a advertência de um “monstro” que apareceria na Terra no início do século XX.

É quase certo que Melanie tenha sido a autora de um panfleto intitulado “O Segredo de Salete”, publicado em 1879. O texto era um relato extenso dos males que assolariam o mundo em seus últimos dias, notável pela condenação aos padres infiéis e por descrever como os justos seriam vingados no período de paz em que os anjos, comandados por Jesus, eliminariam todos os homens ligados ao pecado. A obra de Melanie terminava com uma nota de triunfo extraída diretamente das Revelações, na qual se lia sobre a derrota da Besta pelo arcanjo Miguel, a purificação da Terra, a extinção das obras do orgulho e a restauração de tudo que é bom. Depois da publicação do panfleto, Melanie passou o resto da sua vida tentando fundar o que ela chamava de “Ordem da Mãe de Deus”, mas entrou em choque com as autoridades eclesiásticas, conflito que não se resolveu até a morte dela, em 1904.