O Fim e o Princípio - parte 2

Meados de 2004. Para Hana, que trabalhava no centro da cidade, era muito prático freqüentar as aulas de canto, todas as quartas feiras às 19 horas. Ela saía do trabalho, dava uma paradinha no “Boulevard São Bento” para um lanche rápido, e logo ali ao lado já estava o Mosteiro/Universidade de São Bento (sim, o mesmo que vai hospedar o Papa Bento XVI), onde aconteciam as aulas.

Vista aérea do complexo de São Bento, que inclui a Basílica(à direita), o Mosteiro(ao centro e ao fundo), o Colégio e a Faculdade(à esquerda e ao fundo). Clique na imagem para ampliar.

Mas eu vinha de longe para as aulas. E naquela noite cheguei atrasado uns quinze minutos. Não gosto de me atrasar (embora, como bom brasileiro, às vezes me atrase). Costumo perder o ânimo quando isso acontece, e ainda mais no caso de um curso de canto. Tem o aquecimento vocal, os exercícios de afinação em grupo... se você perde esse “fio da meada”, depois fica se sentindo meio perdido...

Lembro-me de ter percebido um buburinho estranho, logo ao chegar. Um movimento acima do normal, um trânsito excessivo de pessoas na entrada, que eu ainda não tinha visto por ali. Mas não prestei muita atenção e fui direto para a sala do curso de canto. Subi as escadas, percorri apressadamente os longos e seculares corredores. Quando cheguei à sala onde era ministrado o curso, me senti como que “obrigado” a diminuir o ritmo, e simplesmente parar um pouco, em pé diante da porta. É que toda a sala, já bem ensaiada, entoava o canto gregoriano “Kirye”. A melodia maravilhosa, interpretada por um coral misto de vozes, é um espetáculo para os ouvidos em qualquer situação. Inebriante... Fiquei parado ali, não querendo interromper aquele momento tão belo com a minha entrada. E enquanto estava ali, parado junto à porta entreaberta, apreciando aquela maravilha de música, duas meninas passaram pelo corredor, andando rápido, quase correndo; mas eu pude ouvir um trecho da sua conversa: “Que palestra é essa?” - “É um monge inglês. Ele é maravilhoso, fala coisas lindas, sobre meditação e coisas assim...”

A seguir, dentro da sala, a música foi interrompida pelo professor, que corrigia alguma voz dissonante no meio do grupo. Entrei rápido para a sala, mas só para encontrar Hana, sentada no fundo da sala e avisá-la que não se preocupasse comigo, eu não participaria da aula daquela noite, porque estava indo assistir uma palestra sobre meditação ali naquele edifício mesmo. Ela me olhou e perguntou: “É a que está acontecendo no terceiro andar?” – Eu respondi: “Então é no terceiro andar?” – E ela: “Acho que sim, parece que é um monge peregrino...” – Fiquei ainda mais animado, e a convidei para ir comigo, mas ela preferiu ficar para terminar a aula. Então eu pedi a ela que, na saída, fosse ao meu encontro. Saí da sala e fui correndo para o terceiro andar, sem saber exatamente o que estava indo ver. Mas, por alguma razão, sabendo que era isso exatamente o que eu devia fazer naquele momento. Isso já aconteceu com vocês, alguma vez? Fazer alguma coisa sem pensar muito nos porquês, sentindo uma certeza íntima de que aquilo é simplesmente o que deve ser feito?

Cada um dos andares da faculdade é muito grande, mas não foi difícil achar a sala onde estava acontecendo a palestra. Algumas pessoas ainda se dirigiam para o local da palestra (que devia ter se iniciado às 19 horas, então já deveria estar bem adiantada), a passos rápidos. Então, foi só “seguir o fluxo”. Logo cheguei numa sala ampla, abarrotada de gente. Além do auditório completamente lotado, havia pessoas sentadas no chão e encostadas nas paredes. À frente da sala, sentado atrás de uma mesa e com um intérprete ao seu lado esquerdo, um senhor sorridente, usando um hábito branco amarrotado. Era rechonchudo, usava óculos de lentes finas, era calvo e tinha uma rala barba grisalha. Homem de gestos simples, fala tranqüila e um sorriso permanente no rosto. Não sei porque, gostei dele logo de cara.

Um aviso para os que acompanham a minha história, aqui no blog, desde o começo, e que estão curiosos para saber onde a Busca finalmente me levou: Prestem atenção, porque a resposta começa agora.

Achei um cantinho para me acomodar, no chão. Lembro-me como se fosse ontem, logo que entrei ele estava falando sobre as dificuldades do ser humano para encontrar e se relacionar com essa Energia Absoluta que permeia o Universo, que comumente chamamos DEUS. Segundo ele,

“Imaginamos Deus como perfeito. Mas nossa concepção de Perfeito é inatingível para nós mesmos; porque, conforme já sabemos, nós não somos perfeitos. Então, por isso mesmo, nós, enquanto seres humanos imperfeitos, nunca poderemos compreender Deus! Em outras palavras: Como pode o imperfeito entender a perfeição? Se ele pudesse compreender a perfeição, então seria também perfeito! Isto é simples, não?

Então, não podemos entender Deus. Podemos apenas aceitá-lo. Ou não. E, se o próprio Deus nos dá esse direito e essa Liberdade de escolher se queremos ou não aceitá-Lo, que direito temos nós de querer forçar quem quer que seja a crer do nosso jeito? Muitos sofrem intensamente, no seu íntimo. Monges de diversas religiões se submetem a jejuns prolongados, pesadas penitências, querendo se sentir mais puros ou mais elevados; para que assim possam se sentir dignos de se relacionar com esse Deus. Mas uma criança apenas junta as mãozinhas e fecha os olhos, e diz tudo que precisa ao seu ‘Papai do céu’. E o nosso Mestre não nos diz que se não formos como crianças não entraremos no Reino do Céu?

Somos o que somos, todos nós, seres humanos falhos e imperfeitos. Então, obviamente, não podemos nos comunicar e interagir com Deus perfeitamente! Eu sou o que sou, e a maneira como me comunico é a minha maneira. Eu devo tentar fazer o meu melhor, sim, o tempo todo, mas isso não deve e não pode significar sofrimento. Eu só posso dar daquilo que eu tenho. Se Deus nos fez como fez, é assim que ele espera que nos relacionemos com Ele. Jesus nos deu o direito de entrarmos em contato com a Força das forças, a própria Fonte da Vida, simplesmente chamando por Pai! A maioria de vocês não tem idéia do tamanho da revolução que esse gesto representou, levando-se em consideração o contexto histórico e cultural daquela época. Jesus mudou o mundo para sempre, de uma maneira tão real e completa que a maioria de nós nem de longe pode compreender! Então não tenham medo, nem queiram complicar aquilo que é simples. Encontrem Deus no meio de vocês, ele está bem diante dos seus narizes; encontrem Deus no seu cotidiano, nas coisas simples da vida, no trabalho e no descanso sagrados. Não O procurem nas coisas complicadas, nas elucubrações elaboradas dos eruditos. Este não é o Caminho.”


Uma pequena pausa. O monge olhou para os rostos deslumbrados das pessoas que o cercavam, sedentas por uma luz no fim do túnel escuro de suas vidas. Eu estava maravilhado. Claro que as palavras me tocaram profundamente, elas pareciam ter sido endereçadas exclusivamente a mim! Olhei para um rapaz que estava sentado no chão, ao meu lado, e perguntei: “Ele é mesmo um monge católico??” – O rapaz fechou o semblante, como que ofendido com a minha pergunta, e respondeu: “Lógico que é!”. Voltei a olhar para o palestrante. Ele ainda encarava a todos, sorrindo.

“Isto não é simples? Por que vocês complicam tudo? Sejam felizes, simplesmente... Mas este é um fenômeno humano recorrente. Todas as religiões do mundo experimentam esse tipo de desvio. Algumas vezes por medo, outras por pura incompetência. Muitas formas e conceitos humanos são criados em volta do princípio essencial da religião/religare. Esses ‘enfeites’ todos acabam por desviar a atenção daquele que deveria ser o alvo verdadeiro do verdadeiro seguidor. Por essa razão é que meditação é tão importante. Ela serve como um instrumento para dissipar a confusão mental, e facilitar a visualização da Verdade por trás das formas. Mas não se enganem: Nem todos precisam de meditação. Ao longo da minha vida tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas que me pareceram já ter nascido com a ‘habilidade’ natural de viver uma vida meditativa. Mas o que é meditar, afinal? Meditar é simplesmente parar a agitação ordinária dos pensamentos comuns, para prestar atenção no que mais importa. Prestar atenção em si mesmo, prestar atenção à maneira como nos relacionamos com a Vida. Por isso, meditação não é apenas uma prática, mas deve ser uma modo de vida. Começamos com esta prática, de nos colocarmos quietos e em silêncio. Podemos usar aromas, música suave... Tudo isso pode ajudar, no começo. Mas o objetivo deve ser o de que, algum dia, todas as 24 horas dos nossos dia sejam meditação”.

Uau! A melhor definição de meditação que eu já ouvi na minha vida! Mas quem era aquele sujeito, afinal? Só sei que eu estava gostando cada vez mais dele... Logo alguém ergueu a mão e mandou uma pergunta: “Qual a diferença entre rezar e meditar? Como católica, estou mais acostumada com a oração do que com a meditação. Quando ouço falar em meditação sempre imagino um japonês sentado numa posição esquisita, em cima de uma cama de pregos!..” – Risadas gerais... Sempre tem alguém assim, no meio de uma platéia de qualquer palestra, sobre qualquer assunto sério. O que é bom pra descontrair, e a pergunta, no fundo, foi muito boa. O monge respondeu:

“Rezar não é nada além do que o nome já diz: Rezar ou orar significa simplesmente ‘falar’, ‘recitar’. Mas você pode falar com emoção, com verdade na voz, ou você pode apenas recitar fórmulas prontas. As fórmulas existem por um bom motivo, elas tem uma boa razão de ser. E você também pode recitar fórmulas prontas usando o coração, quer dizer, concentrando os seus melhores sentimentos enquanto recita, meditando profundamente no significado daquilo que você está dizendo. Isso também é oração. E é muito bom. Mas a meditação é algo inteiramente diferente. Ao mesmo tempo que é exatamente a mesma coisa...”

Novas risadas gerais, e o monge sorri também. O tradutor se atrapalhou um pouco nesse momento, com o paradoxo que o palestrante usou, propositalmente. Ele continuou:

“Se orar pode ser entendido como ‘comunicação com Deus’, então a meditação é uma das mais perfeitas formas de oração. Não é a toa que meditação também é conhecida como ‘Oração Centrante’.

Sobre a idéia que você faz de meditação, relacionando essa palavra sempre a uma prática das religiões orientais, esse é um erro comum. Meditação faz parte do Cristianismo desde a sua origem. Os rabinos hebreus com certeza já a praticavam, muitos milênios antes do nascimento de Cristo. Existem relatos dos grandes profetas bíblicos se retirando para meditação, no Antigo Testamento da Bíblia. Mas infelizmente, o público leigo, no decorrer da história do Cristianismo, não se interessou tanto quanto deveria por essa prática. Quanto à vida meditativa, a que eu me referi, que significa viver a vida atentamente, em todos os seus pequenos detalhes, esta pode ser facilmente observada na vida de todos os santos da Igreja. Meditar é concedermo-nos tempo a nós mesmos para o que é mais essencial: nós mesmos!

Normalmente fugimos de nós mesmos e não sabemos “habitar conosco”. Encontramos tempo para a TV, o futebol, pra conversar sobre bobagens, passamos horas malhando o corpo, comprando roupas... Tudo isso pode fazer parte, mas nada disso é o essencial! A Meditação nos devolve ao essencial e a nós mesmos. Todas as tradições espirituais tiveram mestres ao longo dos séculos. Lamas, monges, santos... Muitos seguidores viajaram e viajam por continentes à procura do essencial. Mas a verdadeira e mais importante viagem é aquela que se faz para dentro de si”.

Outra mensagem que me servia como uma luva; tudo que eu precisava ouvir. Não que ele estivesse falando alguma novidade, ao menos para mim. Eu já tinha ouvido esses mesmos princípios diversas vezes antes, em muitos dos templos que eu cheguei a freqüentar. Mas aquele homem não falava essas coisas como alguém que fala de algo que estudou num livro. Não se comportava como um professor que ensina uma matéria interessante. Ele obviamente falava de coisas que conhecia intimamente, coisas que vivenciava na prática, no seu dia-a-dia, provavelmente ao longo de anos. Podia-se observar o seu amor por todos que estavam ali, naquele momento, ao seu redor. O seu empenho em nos fazer entender exatamente do que estava falando estava claro, no brilho dos seus olhos, nos seus gestos, no carinho com que respondia às perguntas (algumas absurdas)... Em dado momento, eu também fiz uma pergunta:

“Percebo que o senhor se refere a Deus sempre como o Deus do Amor, o Pai Celestial, o Deus da Paz inefável. Segundo as suas palavras, viver em comunhão com esse Deus é sinônimo de uma vida de Amor, Paz e Harmonia. Obviamente o Sr. não é o primeiro cristão que eu conheci a defender idéias como essas. Mas eu gostaria muito de entender como isso se encaixa nos textos do Antigo Testamento, por exemplo, onde Deus é visto como um Guerreiro; como o Vingador, o Punidor, aquele que castigava os inimigos do povo de Israel com morte violenta. Pra falar a verdade, o Deus de que o senhor nos fala se parece com um outro Deus”.

Todas as atenções se voltaram para mim. Acho que naquele momento eu dei a impressão de estar, de alguma maneira, desafiando o palestrante. Mas essa não era, de modo algum, a minha intenção. Tudo que eu queria, de verdade, era entender.



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