O Fim e o Princípio - parte 3

Post dedicado à minha amiga Neide.

O monge me olhou de um jeito estranho, antes de responder. Eu perguntei sobre algo que, desde a minha infância, tinha sido a minha maior dificuldade com relação ao Cristianismo, . Não quero parecer romanesco, mas tive a impressão de que ele “lia” a minha alma, naquele instante:

“Meu querido, eu sou um monge peregrino, que percorre o mundo para partilhar meus parcos conhecimentos com todos os meus irmãos: irmãos de fé e irmãos humanos. Você nem imagina quantas vezes tive que responder a essa mesma pergunta! Isso me leva a pensar em duas hipóteses: Ou nós estamos fazendo tudo errado, ou Deus quer que tenhamos um pouco de trabalho antes de encontrá-Lo. (risos) Vou responder à pergunta com algumas outras perguntas: Querido colega peregrino, você acredita nas explicações bíblicas para a origem do mundo e da humanidade? Você acredita, literalmente, na narrativa bíblica sobre uma serpente oferecendo o fruto proibido para Eva? Você acredita realmente que os descendentes de Noé, séculos antes de nossa Era, começaram a construir uma torre tão alta que já estava quase tocando o Céu, e que foi por isso que Deus resolveu confundir as línguas? Você acredita que o profeta Jonas tenha sido engolido por um peixe, e que tenha permanecido no ventre desse peixe por três dias e três noites, até que, de lá de dentro, ele orou a Deus e então o peixe o vomitou, vivo, em terra?.. Devo continuar ou posso parar por aqui?”

Risos confusos na platéia. Surpreso, respondo: “Não, eu não acredito em nada disso, literalmente. Vejo mensagens simbólicas em todas essas narrativas”. O monge continuava me olhando fixamente, muito sério. Mal terminei de falar e ele abriu um enorme sorriso, que tornava ainda mais redondas suas bochechas rosadas de inglês “da gema”.

”Você já sabe tudo! Por que precisa que eu ou qualquer pessoa, desde que não seja você mesmo, confirme o que já sabe? Simbologia!! O Antigo Testamento está repleto de simbolismos, analogias e metáforas. Esta sempre foi a maneira do povo judeu se expressar, e todo teólogo sabe disso. Me diga: Se você tem discernimento suficiente para entender que todas essas coisas são simbolismos, por que razão fica sofrendo por causa das histórias que leu sobre um Deus repressor? Qual a diferença entre uma serpente oferecendo frutas para uma mulher e um Deus que é Todo-Poderoso mas que demonstra possuir características humanas, como raiva, ira, desejo de vingança, arrependimento e outras?"

Silêncio...

"Cada religião sofre as influências do meio em que surgiu. As histórias do Antigo Testamento foram escritas séculos depois dos fatos históricos que as originaram, e tudo que pretendiam era encorajar um povo extremamente sofrido; convencer os 'filhos de Israel' de que um Deus invencível estava do seu lado, pronto para defendê-los de todos os muitos perigos que enfrentavam.

Eu tenho visto muitos adesivos nos vidros dos carros, aqui no Brasil, com uma certa passagem bíblica. Sei que nossos irmãos protestantes, em especial, gostam dessa passagem. Estou falando de Provérbios, 9:10 ‘O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria...’ Não entendo porque sempre suprimem o complemento da frase: '...e o conhecimento do Santo é a verdadeira inteligência'. Por que a ênfase sempre no ‘temor’?? Vou confiar um segredo a vocês: esta é uma das últimas passagens que eu colocaria no vidro do meu carro, se tivesse um.
(risos) Por que falar em temor, se os Evangelhos do nosso Mestre estão repletos de exortações à alegria e exaltações à liberdade? 'Alegrem-se sempre... Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo ...''Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com eqüidade''Cantem e alegrem-se os que amam a minha justiça''Exultem os santos na glória; alegrem-se nas suas camas'". - Ele falava dando ênfase especial às palavras 'alegrem-se', 'cantem', 'exultem'... os olhos claros brilhavam mais a cada nova citação - "A Bíblia fala em 'temor do Senhor' cerca de 25 vezes, e fala para ‘nos alegrarmos’ mais de 80 vezes! Mas mesmo as passagens bíblicas que falam em 'temor' pertencem a uma outra era, um tempo em que os homens eram muito duros e brutos, e freqüentemente era preciso recorrer ao medo para que se mantivessem ‘na linha’. Mesmo assim, a palavra ‘temor’, muitas vezes, poderia ser mais fielmente traduzida usando-se a palavra ‘respeito’. ´Respeitar ao Senhor...' - O tipo de 'temor' a que o texto se refere não significa necessariamente medo. E preste atenção ao fato de que mesmo naquela época, toda a ênfase da mensagem central é o Amor e o perdão. ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. - Esta é a mensagem explícita".


Ele se acomodou na cadeira, enquanto despejava a água de uma garrafa plástica para um copinho descartável. Continuou falando:

“Você conhece a Lei de Talião, presente na Bíblia?” – Eu assenti com a cabeça – “Pois bem: ‘Olho por olho, e dente por dente’... Muita gente se choca, tentando imaginar como o Deus do Amor poderia consentir uma com uma lógica dessas . Mas essas pessoas não compreendem o sentido real da Lei de Talião. O objetivo não era ratificar a violência, mas sim fazê-la cessar. Naqueles tempos rudes, se um homem dissesse a outro homem que ele era um tolo, o outro não chamaria também o primeiro de tolo, apenas. Ele muito provavelmente lhe daria um soco! E se um homem desse um soco em outro homem, lhe arrancando um dente, a reação comum do agredido seria a de sacar da espada para matar o agressor. A lei do ‘olho por olho e dente por dente’ visava a justiça, pura e simples. Se o teu irmão arrancou um dente seu, o máximo que você pode fazer, em troca, é lhe arrancar também um dente. Não matá-lo. Não matar alguém da sua família, como muitas vezes acabava acontecendo. Alguém aqui sabia disso? Observem como agora, dentro do contexto correto, essa lei parece completamente diferente. Muitas outras afirmações chocantes dos textos antigos se explicam de maneira semelhante. Precisamos fazer um esforço em compreender que o Antigo Testamento trata de uma outra época, um outro mundo, habitado por uma raça de seres humanos completamente diferente da nossa. A humanidade estava no ‘Jardim da Infância’, então. Hoje já estamos no ‘Pré-primário’. (risos) Ainda somos fracos e dependentes, mas já não precisamos mais usar fraldas. Alguns costumes e leis que hoje parecem absurdos eram as ‘fraldas’ que a humanidade precisava usar, naquele tempo. Não comparem o nosso mundo com aquele mundo. Não tem cabimento querer adaptar certas prescrições feitas a um povo semi-bárbaro, há quase quatro milênios, para a sociedade de hoje".

Silêncio. Paz. Algo fundamental está sendo compreendido, naquele exato momento. A palestra continua:

"Milhares e milhares de teorias e incontáveis interpretações foram feitas, dos livros que compõem o Antigo Testamento, o que os judeus chamavam de ‘Livros da Lei’ e ‘Livros dos Profetas’. Até que Jesus, divinamente, resolveu o problema para sempre, em uma única frase: ‘Amem a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmos. Isto resume toda a Lei e tudo que disseram os Profetas’. Por que achamos que precisamos de mais?”

Eu estava em choque. Sentia que, de algum modo, meu verdadeiro “Eu” nascia naquele momento. Sentia o fim da busca chegando, agora definitivamente. Finalmente. De um certo ponto de vista, o Caminho do buscador só acaba quando ele morre, porque a própria vida é uma Busca constante; por aprendizado, por entendimento, pelo auto-aprimoramento... Mas no sentido de uma procura insana, entre instituições e filosofias, que pressupõe que seja possível encontrar uma resposta pronta e acabada em alguma delas, sim, a busca para mim acabava de perder sua razão de ser.

Hana chegou. Me olhou, fez uma cara de espanto, depois de curiosidade, e afinal sorriu: “Eu já vi essa sua expressão, uma vez! Foi tão bom assim?” Eu só olhei para ela e também sorri. O incrível monge já encerrava a palestra, e agora sua forma me parecia diferente, quase luminosa:


”Não entendam as coisas que eu digo como uma ‘liberação geral’, como se tudo fosse permitido, como se a vida fosse só festa. Nós não estamos aqui a passeio, e quem quiser encontrar Deus precisa combater contra si mesmo, 'tomar a sua própria cruz' e seguir o Mestre. O 'jugo é suave e a carga é leve', mas é preciso saber tomar o 'Caminho estreito', e andar nele 'sem se desviar nem para a direita e nem para a esquerda'. Vigiem-se a si mesmos, e orem. Como dizia o amado fundador de nossa Ordem, São Bento de Núrsia: ‘Ora et labora’: Oração e trabalho. Boa noite a todos, e a Paz os acompanhe”.

Eu me levantei do chão, me sentindo meio entorpecido. Em parte pelo tempo que fiquei sentado numa posição desconfortável, em parte por ter compreendido muitas coisas essenciais, de uma só vez. A maioria das pessoas já se dirigia, apressada, para a mesa do palestrante, com livros na mão, para pedir uma assinatura do autor. Foi só então que eu me lembrei de perguntar, para um rapaz de óculos que também trazia um livro debaixo do braço: "Quem é este homem, afinal?" - O rapaz me olhou, parecendo incrédulo por eu não saber, e respondeu: "Ora, ele é Dom Laurence Freeman! 'Chegado' do Thomas Merton, amigo pessoal do Dalai Lama!.."

Sim. Laurence Freeman O autor de "Jesus, o Mestre Interior", o livro que apenas alguns dias antes eu tinha "devorado" no sofá da book store do Shopping Ibirapuera.



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