O Fim e o Princípio - conclusão




Nota prévia: Nas vezes em que uso o termo “formas” no texto, estou me referindo aos modelos prontos para se vivenciar a espiritualidade, ou seja, religiões e/ou grupos constituídos. Por ser o post muito longo, foi dividido em três partes, com a intenção de facilitar a leitura. Você pode ler hoje a primeira, amanhã a segunda...


Primeira parte

Minha mente se abriu naquela noite, de um modo inteiramente novo. Meu entendimento despertou para um novo Universo de possibilidades. De algum modo, aquela pedra voltava a ser uma pedra, aquela nuvem voltava a ser apenas uma nuvem. A Paz que eu um dia conhecera, voltava a se fazer presente, suavemente.

Inacreditável como é absoluta a diferença entre saber e entender. Será que eu já não sabia, afinal, que o mais importante de tudo é o Amor? Será que todos aqueles princípios básicos que tinha acabado de ouvir da boca de Laurence Freeman eram novidades para mim? Claro que não! Eu já sabia de tudo aquilo, de cor e salteado. São fundamentos básicos, presentes em quase todas as principais religiões do mundo... Sim, eu já sabia. Mas não entendia. Até aquela noite. Agora me sentia como se o meu entendimento tivesse sido “aberto”, para a inserção de uma série de verdades essenciais. Uma vez ouvi falar que a distância entre o céu e o inferno é de apenas 2 palmos: A distância entre a cabeça e o coração. Em todas as decisões que precisamos tomar, a cada novo instante de nossas vidas, optamos sempre entre duas “forças” básicas: razão e emoção. Enquanto não aprendermos a usar essas capacidades com harmonia, uma vida feliz não vai passar de um projeto a ser realizado num futuro que nunca chega.

Quem voltou para minha casa, naquela noite, foi um outro homem. O “eu” que tinha saído, horas antes, havia morrido; para sempre. Tudo estava mudado na minha vida, a começar pela minha disposição. Depois daquela experiência, eu vivi dois dias belos, plenos e felizes... Dois dias de pura bem aventurança; de alegria perfeita, alternada com picos de euforia e fases prolongadas de suave serenidade. Por incríveis dois dias, eu dominei a capacidade de me manter calmo, de compreender as falhas no meu próximo e ver as coisas que eu acho insuportáveis de um jeito muito mais... Suportável. Hana chamou de “Efeito Iluminação”... gostei. Mas aquele estado de ser não era brincadeira. Ao contrário, era a coisa mais importante e mais desejável que eu jamais experimentara em toda minha vida. Era como chegar o mais próximo que eu podia da perfeição humana! Ia dormir rindo e despertava como se estivesse voltando do próprio “Paraíso”!..

Só um problema: durou dois dias. E agora, esse estado de completitude começava a se "esvair"... apenas dois dias depois da experiência transformadora, tudo estava se dissipando. Tudo acabando, as “peças psíquicas” todas querendo voltar aos seus lugares de origem; minhas velhas falhas reassumindo seus “postos” dentro de mim. E eu comecei a me sentir desesperado. Desesperado é a melhor palavra, porque eu não queria o “velho homem” de volta. Eu não queria mais sentir medo, não queria mais dúvidas, não queria mais olhar no espelho e ver um fraco... Eu experimentara a sensação de voar, uma vez, e agora voltar a rastejar me parecia simplesmente insuportável.

Todas as grandes experiências que eu tive na minha vida, que me fizeram crer perfeitamente, que me fizeram sentir um pouco mais "perto de Deus", trouxeram junto um turbilhão de sentimentos maravilhosos. Que me acompanharam por não mais que um dia ou dois. E depois voltavam os velhos e indesejáveis “companheiros”: Egoísmo, medo, dúvidas, “neuras”... O que eu mais desejei sempre foi encontrar um modo de me manter nesse estado elevado. Se não para sempre, ao menos na maior parte do meu tempo. Mas nunca consegui. Por mais que eu tenha experimentado e vivido maravilhas, minha mente sempre voltava ao estado "comum', logo em seguida. Num dia eu passeava pelo céu azul, dando voltas em torno do sol e brincado entre nuvens. No outro eu acordava duvidando da possibilidade de ter sido tudo real, desconfiando de Deus, da própria Vida e de mim mesmo... Por quê?? Nunca pude entender. Até aquele momento.

Na noite do quarto dia após o meu encontro com Dom Laurence Freeman, eu estava me sentindo arrasado, justamente por conta da prerrogativa de ter que voltar a regredir, voltar ao "buraco escuro" depois de ter contemplado o sol mais uma vez. E eu voltei a orar pedindo por orientação. Eu queria seguir meu Caminho do meu jeito, mas como sempre acontecia, quando tentava fazer isso, acabava me frustrando... Nessa mesma noite, percebendo meu estado de desânimo, Hana, ao chegar do trabalho, me convidou para jantar fora. Eu estava com meus pensamentos firmemente concentrados em receber a resposta para a pergunta que não queria calar: “Seria possível atingir a perfeita realização mesmo sem pertencer a nenhuma religião? Seria eu capaz de encontrar, e principalmente, me manter no meu caminho, estando completamente desapegado das formas (religiões e/ou grupos estabelecidos)?” A resposta viria tão rápido, e de forma tão clara, que me deixaria literalmente tonto...

Topei o convite para o jantar. Estava mesmo muito abatido, dentro de casa o dia inteiro, só pensando, naquele dia. Enquanto tomava um banho, e depois, me vestindo para sair, eu permanecia intensamente concentrado nessa questão: ”Seguir sozinho ou procurar apoio nas formas prontas?" Saímos de casa. Estávamos indo a um restaurantezinho muito simples, porém agradável, que fica duas ruas acima da de nossa casa. Andar um pouco e respirar o ar noturno me faria bem, pensávamos. Mas a “implicação” deste pequeno passeio seria muitíssimo mais importante do que o simples efeito do ar fresco...

Bem diante da minha casa, logo ao sair do portão; bem à minha frente... havia um pedaço de papel. Havia um pedaço de papel no meio do caminho... Um pequeno pedaço de papel dobrado, caído na calçada. E eu serei completamente incapaz de explicar, aqui, o porque de aquele pequeno retângulo de papel ter me chamado tanto a minha atenção. Foi como se, por um curto espaço de tempo, não superior a um ou dois segundos, aquele papelzinho tivesse brilhado no escuro, ali na calçada. Ou como se ele tivesse adquirido uma coloração muito viva, às minhas vistas, enquanto todo o ambiente ao redor se apagava num oceano sem cor. Gesto inevitável, apanhei o pequeno papel. Quero dizer que não o fiz por curiosidade. Eu não estava curioso pra saber o que era. Não pensei em nada, não raciocinei, absolutamente, sobre o que estava fazendo. Apenas apanhei o papel, e haviam coisas escritas. Desdobrei-o e li. Era um folheto com uma série de 6 máximas bíblicas, contidas em passagens do Antigo e do Novo Testamento, que diziam uma só coisa. O que estava escrito era o seguinte:


Este era o papel - clique para ampliar


DEUS DIZ QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE CHEGAR SOZINHO (Romanos 3:23).

DEUS DIZ QUE VOCÊ NÃO PODE CONSTRUIR SEU PRÓPRIO CAMINHO (Efésios 2:8-9).

DEUS DIZ QUE ALGUNS CAMINHOS TERMINAM EM MORTE (Provérbios 16:25).

DEUS DIZ QUE PRECISAMOS FAZER MEIA VOLTA (Atos 3:19).

DEUS DIZ QUE SÓ EXISTE UM CAMINHO (João 14:6).

DEUS DIZ QUE VOCÊ PRECISA ENTREGAR A DIREÇÃO DA SUA VIDA A JESUS (João 1:12).


Segunda parte

O objetivo do passeio era relaxar e clarear a mente... Mas agora minha mente pegava fogo mesmo, mais do que antes! Mais um Sinal?! E dos mais óbvios. Fiquei abaladíssimo. Hana, vendo meu estado, se desesperava também... Durante o jantar, pouco conversamos. À noite, não conseguia dormir, olhos arregalados, olhando pro teto do meu quarto. Na TV, violências, como sempre... Mas eu não ouvia nem via nada. Apenas as palavras naquele folheto amarrotado ecoavam no meu pensamento...

Esse foi o exato instante em que entendi: Eu precisava das formas! Há uma razão de ser para que as formas existam!.. Dom Laurence tinha dito isso... mas eu sempre desprezara as formas. Desde que iniciei a minha busca, eu sempre recusei coisas prontas, me neguei a obedecer fórmulas preestabelecidas e a seguir sistemas acabados. Mas as fórmulas são necessárias, agora eu entendia! Talvez não para todos, mas são necessárias para a imensa maioria, e eram necessárias para mim! As formas servem para nos ajudar a nos mantermos no Caminho. Servem como guias, para que não nos desviemos de nossos propósitos... ou para que não nos esqueçamos de quem somos nem da opção que fizemos, para começar. As formas servem para que não nos esqueçamos. Porque o mal do ser humano é esquecer.

Todos os Sinais, todos os avisos e orientações que eu recebi, todos os acontecimentos que pareciam me guiar, tudo serviu para me mostrar essa Realidade irrefutável! Ingenuamente, procurei por tanto tempo um caminho certo para seguir, porque eu sabia que simplesmente parar não era uma opção - Se bem que eu tenha tentado, muitas e muitas vezes, apenas “parar” e passar o resto da minha vida sentado à beira do caminho, vendo a vida passar. Mas isso também seria uma ação, uma escolha, um outro “caminho” a se optar!.. Que não foi o meu. Meu destino seria muito mais bonito.

Assim, quando percebi que novamente começava a mergulhar no meu “abismo particular” de trevas e confusão, como sempre fazia e tinha feito, por toda minha vida; quando percebi que em breve estaria novamente engajado numa busca eterna e sem sentido, porque sempre precisaria saciar o meu desejo por Deus e pela Verdade... afinal... Eu tomei uma atitude, por mim mesmo. E mais uma vez, pela última vez, dentro desta narrativa, eu precisei me afastar do mundo.

Eu tinha que sair da minha casa. Tinha que me afastar de tudo, eu não queria olhar para as mesmas de sempre. Eu precisava de uma mudança radical na minha vida, precisava me aplicar uma espécie de “autochoque”. Além disso eu tinha decidido que a minha vida seria mudada naquele exato momento, não amanhã, não depois de cumprir alguma pequena tarefa qualquer... e para isso eu não deveria ser importunado por uma chamada de telefone, alguma visita indesejável, ou mesmo a tentação de ligar a TV ou o aparelho de som para relaxar um pouquinho... Avisei no trabalho que teria que me ausentar por alguns dias. Avisei Hana que eu precisava ficar só por um tempo. Ela já estava acostumada com minhas “esquisitices”, por isso nem tentou me dissuadir muito... Apenas me pediu, pelo telefone, umas duas dúzias de vezes, que eu tomasse cuidado...

Só queria e precisava ficar sozinho, por um tempo. O tempo que fosse preciso, uma hora ou um ano. Eu estava decidido que, dessa vez, a minha conexão com o “Eu Sou” não seria perdida. Ao menos não por falta de esforço da minha parte. Eu iria a luta, com todas as minhas forças e com todas as "armas" que conseguira conquistar em toda a história da minha vida. Eu não permitiria a volta do meu “velho eu”, ainda que tivesse que expulsa-lo a pontapés. Todas as portas seriam fechadas, trancadas a ferro. E se isso não adiantasse, eu demoliria a própria casa. Mas eu não voltaria a ser o velho frustrado / fracassado de sempre...

Saí de casa a pé, carregando apenas uma mochila com o meu velho companheiro caderno, uma lapiseira, uma borracha e uma garrafa de água. Tomei uma condução para o Parque Estadual do Pico do Jaraguá, oeste da Serra da Cantareira, uma imensa reserva florestal de 4.888.400 metros quadrados de área (!), onde se localiza o pico mais alto de São Paulo, com 1127 metros, de cima dos quais se pode observar toda a minha colossal cidade, em sua completa imensidão. Logo à entrada do parque, sentado numa pedra, fiz aquela que seria a minha única refeição nos próximos dias: Um pacote de 50 gramas de amendoim sem pele, comprado de um vendedor ambulante, dentro do ônibus. Bebi pouco mais da metade dos 500 ml da água da garrafa, e iniciei o longo percurso de subida até o alto do pico. Depois de mais de uma hora de subida esfalfante, entre pedras e mato alto (escolhi o percurso mais difícil), cheguei no topo. Ali me sentei e orei: “Guia-me, meu DEUS, mostra-me o meu caminho. E dai-me coragem e força para segui-lo. E que assim eu possa alcançar a Felicidade e a Paz, conforme a Tua Vontade. Amem”.

Permaneci no mesmo lugar, das 10:30 AM até as 17 horas, somente sentado, observando ora o céu, ora a linha do horizonte, e em outros momentos com meus olhos fechados. Eu meditei, orei, jejuei e chorei por todo o dia, até finalmente me sentir cansado de ficar ali, imóvel e inerte. Levantei-me, sentindo fome e vontade de voltar para conforto da minha casa. Mas eu tinha tomado uma decisão muito séria, comigo mesmo: Não voltaria para casa enquanto não tivesse resolvido a minha busca. E depois que entrei no parque, decidi, também comigo mesmo, que não voltaria a me alimentar enquanto não tivesse compreendido o que DEUS queria que eu compreendesse; enquanto não pudesse ver, claramente, e sem nenhuma dúvida, o meu caminho diante de mim, o que eu tinha que fazer para realizar a minha missão neste mundo.

Minhas intenções eram as de permanecer no alto do pico até que julgasse necessário. Passar a noite ali, se preciso fosse. Mas, pouco antes das 17 horas, descobri, através de um guarda, que as regras do parque tinham mudado, e que agora ele era fechado antes do anoitecer. Então precisei ir embora, mas ainda não podia voltar pra casa. Não sabia para onde ir, então resolvi tomar o metrô até a estação rodoviária do Tietê.


Terceira parte (final)

Por algum tempo passeei diante das bilheterias, procurando algum lugar interessante e distante pra onde pudesse comprar uma passagem. A idéia era passar a noite dentro de um ônibus, viajando pra algum lugar desconhecido, o que ajudaria minha mente a trabalhar melhor. Mas acabei desistindo. Encontrei um bebedouro, bebi um pouco de água e enchi a minha garrafa. Então passei a procurar, entre os muitos bancos de plástico do imenso saguão de espera, algum que me agradasse. Já era noite, e eu podia ver as estrelas pelas grandes janelas laterais. Às vinte e três horas, tudo estava muito quieto, eu estava praticamente sozinho naquele enorme ambiente cheio de cadeiras plásticas. Saquei meu caderno da mochila, rascunhei algumas palavras. Pensava em Hana... À uma da manhã, questionava a validade da minha intenção de encontrar a minha resposta por meio de completo afastamento do mundo. Por alguns segundos, pensei em desistir de tudo, sair correndo dali, tomar um táxi até minha casa e minha caminha, que agora me parecia tão distante, e me atirar sob os lençóis macios e nos braços quentes de minha amada Hana. Mas não fiz isso. Eu senti, naquele momento, algo que imagino como muito similar ao que teria sentido o personagem “Neo”, no filme “The Matrix”, quando Trinity, habitante de Sion (Sião) e conhecedora da verdade por trás das ilusões da Matrix o está levando até Morpheus, o que iria lhe possibilitar também ver essa verdade. No meio do caminho ele sente medo, quer desistir, mas quando abre a porta do carro em que o levavam, para desistir e ir embora, Trinity diz: “Você já esteve lá. Você conhece esse caminho. Você sabe onde ele vai dar, e não é onde deseja estar” . Eu também sabia o que aconteceria se eu voltasse, então fiquei. Passei a noite ali mesmo, no banco duro e laranja da rodoviária.




Foi uma noite de meditação, oração, jejum e lágrimas. Estava acostumado a jejuar. Mas naquela situação, acho que pela angústia, eu sentia desconforto e fome.

Amanheceu o dia. Talvez eu tenha cochilado naquele banco, por não mais do que 30 ou 40 minutos. Levantei-me. Eram 5:05. Fui ao banheiro, lavei o meu rosto com água fria, e saí da rodoviária com destino certo. Eu estivera sentindo falta do elemento água, que sempre me acalma e ajuda a colocar as idéias em ordem. Precisava da natureza, de preferência algum lugar onde houvesse água, um lago ou um rio. A escolha mais óbvia seria o Parque do Ibirapuera, mas ali eu enfrentaria um grande inconveniente: O parque é sempre muito cheio, há muita gente pra todo lado, principalmente em volta do lago. E eu queria solidão. Tomei novamente o metrô, até a estação Liberdade. Dali, caminhei por mais alguns quilômetros, em ruas que começavam a despertar, por uns quarenta minutos, até chegar ao meu destino: Parque da Aclimação. 118.787 metros quadrados de verde, tranqüilidade (poucos freqüentadores)... e um grande e bonito lago. Afinal cheguei. A caminhada tinha servido para me deixar mais desperto, centrado. Entrei e logo encontrei um bom lugar para me acomodar, bem diante do lago e debaixo de uma árvore frondosa.

Olhei em volta: eu ali sentado, árvores e natureza em volta, diante de um lago calmo. A cena me lembrou meu sonho. Os últimos acontecimentos da minha vida, ou melhor, a sucessão de acontecimentos da minha história recente, que me levaram a estar ali, naquele momento, de uma hora para outra começaram a desfilar, em seqüência, na minha “tela mental”: A Experiência na Toca de Assis, o fenômeno envolvendo os quadros, a natureza me dando um “recado” claro para desistir de procurar a tal “Igreja Essênia”, a descoberta tardia da Meditação Cristã, depois encontrar os livros de Dom Laurence Freeman e de minha amiga Dhyana, o encontro com o próprio Dom Laurence...

A resposta veio às três da tarde; clara e cristalina como água pura, inegável como qualquer realidade palpável. Imagino que o que eu senti naquele momento deve ter sido parecido com o que sentiu Arquimedes de Siracusa, que ao entrar para o banho, descobriu o princípio científico que leva seu nome, e saiu correndo nu pelas ruas da sua cidade, gritando “Eureka!” , ou então o que sentiu Newton quando aquela inocente maçã caiu em sua cabeça...

Porque tinha compreendido, finalmente, qual deveria ser o meu caminho. E assim, sabia também qual deveria ser o meu próximo passo. Procurei os sanitários, lavei meu rosto, demoradamente. O jejum prolongado, àquela altura, não me incomodava mais, nem um pouco (Jejum é uma prática curiosa: chega um estágio em que o desconforto desaparece por completo. Segundo ascetas que conheci pessoalmente, depois de uma semana você começa a crer que comer não é realmente necessário). E saí dali direto para a paróquia do meu bairro.

Passavam das quatro horas de uma terça feira, quando cheguei diante do templo católico. Entrei na secretaria, do lado externo da igreja, sem saber direito o que viria agora. Uma senhora idosa me recebeu com um seco “boa tarde”. Falei que queria ver o sacerdote. Ela me respondeu: “O Padre Aldo não faz aconselhamento às terças, ele tem outros afazeres nesse dia”. Eu não me movi nem falei palavra. Depois de alguns longos segundos de um silêncio constrangedor, ela me olhou de cima abaixo, e avisou: “Mas o senhor espera um pouquinho aí, que eu verifico se ele está...” e saiu por uma porta lateral. Não demorou cinco minutos, ela voltou e me orientou a entrar no templo e me dirigir até uma sala no final do corredor, à direita do altar, que o padre estaria me esperando. Entrei. A pequena igreja do meu bairro era toda revestida, internamente, de cacos de granito preto, cinza e amarelo. Na porta da sala ao fundo, um homem moreno e atarracado, de costas largas e vestido simplesmente, me aguardava. Me aproximei. Ele me recebeu, estendendo sua grande mão e dizendo: “A Paz... pois não?”

Eu, naquele momento, esperava para ver o que aconteceria. Estava muito decidido e acho que minha expressão estava, de algum modo, diferente, porque tanto a secretária quanto o padre demonstraram certa curiosidade ao me encarar. Olhando fixamente para o padre, falei: “Não sou católico. Não tenho religião, mas acredito plenamente em Deus. E tenho ótimos motivos para crer que Deus quer que eu prossiga com a minha busca dentro do catolicismo...”

Imaginava que o padre ficaria surpreso, coisas assim não devem acontecer todos os dias... Mas ele não demonstrou surpresa. Apenas me convidou a entrar em sua sala e me mostrou uma cadeira para sentar. Era um homem muito sério, de semblante duro, mas eu gostei dele logo de cara. Eu tenho uma facilidade enorme para, só de olhar, “ler a alma” das pessoas (METAFORICAMENTE FALANDO), e raramente me engano. E eu vi seriedade e verdade naquele homem. Soube rapidamente que estava diante de alguém sério, dono de uma fé autêntica. Seu olhar era expressivo, como se também ele estivesse, por sua vez, “lendo” a minha alma. Como é o Deus em que você crê? – perguntou. “Tudo e Nada”, respondi, de pronto. “Muito bom. Por que você está aqui?” Então contei para ele, longamente, a minha busca e os fatos recentes que tinham me levado àquela sala, naquele momento. Minha fala foi uma espécie de “resumão” de tudo que escrevi no Arte das artes até aqui. Pelo fato de estar diante de um sacerdote, sentia-me como se estivesse fazendo uma confissão, e isso me fazia muito bem... Ele ficou em silêncio, o tempo todo, analisando profundamente tudo que eu falava, me olhando nos olhos com aquela expressão circunspecta. Por fim concluí, e começamos a conversar.

Falamos sobre Universalismo, Amor, Vazio, ecumenismo, humanismo, erros da Igreja, Beleza, meditação, autoconhecimento, Contemplação, ascetismo, busca interior, Santo Antão, São João da Cruz, John Main, Thomas Merton (foi a segunda vez em que ouvi falar dele, mas até então não sabia nada a seu respeito), Budismo, orientalismo, reencarnação, ressurreição, medo, Consciência, espírito e espiritualidade, devoção, traumas, simbolismo, Teologia, idolatria, paganismo, dogmas, Nossa Senhora, a Arca da Aliança, Liberdade, verdadeiro Caminho de Cristo, Buda, esoterismo, gnosticismo, papado, Judaísmo, Pompeu e o Império Romano, a Bíblia, a capacidade do ser humano alcançar o que procura... e mais!

Enquanto conversávamos, eu analisava cada palavra sua, avaliava o sentido de tudo que estava sendo dito, meticulosamente. Cada afirmação, cada conclusão dele, era por mim "dissecada", fazendo uso do meu discernimento e da minha consciência, com a máxima seriedade. Estava ali, na prática, "pondo à prova" tudo que era dito, e ficando apenas com o que me parecia bom... E eu não pude discordar de nada, absolutamente nada daquilo que ouvi. Todas as suas afirmações já tinham sido comprovadas por mim, em minhas experiências pregressas. Todos os lugares por onde passei, todas as coisas que eu vi e vivi; toda a "pesquisa de campo" que fiz, finalmente me foi útil. Eu não era um ouvinte passivo. Minha “bagagem” me servia como instrumento para entender e separar trigo do joio.

Eu tinha ido até aquele lugar para fazer um teste. E levava dentro de mim uma espécie de senha, como uma seqüência de “palavras mágicas”, que precisariam ser ditas, para me convencer, fazer abrir meu coração. Aquele homem falou a senha, letra por letra, número por número. Aquele homem disse tudo.

Voltei pra casa. Já era noite. Depois de um longo banho, tomei um iogurte natural (depois de muito tempo sem comer, não é aconselhável ir com muita sede aos potes, ou com muita fome aos pratos). Quando Hana chegou e me viu, ficou muito feliz em me ver, e chocada com a minha aparência. Minha barba tinha crescido muito, nesses dois dias, de um modo anormalmente rápido (olhando no espelho, percebi que parecia que eu estava há duas semanas sem me barbear...).

Depois de me abraçar, a primeira coisa que fez, obviamente, foi perguntar como tinha sido o meu “retiro”, se eu tinha conseguido atingir meus objetivos. Eu respondi apenas: “Encontrei o que eu buscava desde a minha infância. Aquela sensação de agonia, de algo por fazer, passou. Mesmo não sabendo se será para sempre, sinto que encontrei o meu caminho. A partir de hoje, prosseguirei, em minha jornada pessoal, como um cristão católico".


***


Hoje estou cursando Teologia e participando de diversas atividades promovidas pela Igreja. Só recentemente descobri, de um jeito maravilhoso, qual será a concretização da minha missão nesta Terra. E por favor não se espantem. A minha religião continua sendo a Verdade, sob qualquer forma em que se manifeste. Não pensem que eu algum dia vou me limitar sob qualquer rótulo, e muito menos me enquadrar no estereótipo do católico tradicional que a maioria logo imagina. Na verdade, eu brigo contra isso. Posso entrar em qualquer tipo de lugar e me sinto em casa, senão em todos, na maioria deles. Mas encontrei a minha casa. Todas as "formas" que eu precisava, toda a coerência que eu esperava da religião, acabei encontrando (por incrível que possa parecer) no catolicismo. Essa realidade já gritava dentro de mim há muito tempo, como acho que dá pra perceber nos meus últimos posts. Mas eu me negava. A última coisa que eu esperava e queria era me converter ao catolicismo. Isso me parecia tão improvável e sem sentido quanto está parecendo para muitos de vocês, agora. Mas todas as provas vieram, uma atrás da outra, e depois as confirmações de que eu estava fazendo a coisa certa (ainda falarei sobre isso). Nenhum buscador sincero é capaz de resistir ao Chamado, quando ele acontece. "Quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver"... quem tem entendimento para entender, que entenda.

Encontrei a Verdade, enfim, dentro da minha própria verdade. Não tenho como deixar de citar aquela velha lenda árabe (que virou livro do Paulo Coelho), do rapaz que se lançou numa grande Jornada ao redor do mundo, em busca de um tesouro, sem saber que esse tesouro estava dentro da sua própria "casa", bem debaixo do lugar onde ele dormia todas as noites. Comigo também foi assim. Todas as respostas que eu tanto busquei, em tantos lugares, que fui procurar nas mais distantes e exóticas tradições, crenças e filosofias, estava o tempo todo bem diante de mim, na religião dos meus pais; na qual eu fui batizado ao nascer... Mas a Busca era necessária, para mim. Ela tembém tinha uma razão de ser, e foi através das coisas que aprendi na estrada, que pude compreender o que antes não podia.

Façam suas próprias buscas. Não aceitem nada pronto. Não permitam nem queiram que outros pensem por vocês. Só assim vocês também poderão ver aquilo que está diante dos seus olhos.




Este foi o Fim e o Princípio da minha vida de buscador.