Aposta errada!

O Sr. Silva era um homem muito piedoso e temente a Deus. Veio a falecer. Chegando lá do "outro lado", viu-se num lugar muito bonito, azul, cheio de luz e nuvens brancas em volta. Diante de si, viu um grande portão dourado, reluzente, trancado com um magnífico cadeado também dourado, e por detrás um ancião trajando uma longa toga branca, com um grande molho de chaves pendurado no cordão que lhe servia de cinto.

"São Pedro! Discípulo do Senhor!!" – Gritou o falecido, enquanto corria para o portão. Chegou bem diante do ancião, que o olhava com uma expressão curiosa: "Quem és?", perguntou ele; ao que o homem respondeu, desapontado: "Sou o Silva, ora essa! O seu Deus é o meu Deus! Ele me conhece! Por anos a fio freqüentei as Missas, todos os domingos. Deixei de assistir até aos jogos do meu time em final de campeonato, só para ir à igreja! Dízimo nunca paguei, mas sempre contribuí da melhor maneira que pude, ajudei em obras assistenciais... Sempre tentei ser um bom cristão, e, modéstia à parte, acho que consegui... Tenho certeza que mereço um cantinho aí dentro!"

O ancião continuava só encarando o recém chegado, parecendo cada vez mais curioso. Depois de um tempo, finalmente observou: "Não entendo o que dizes...". – Mas o falecido prontamente retrucou: - "Como não??! Então me chame aí o Francisco! Aquele, que veio de Assis, na Itália, amigo dos animais. Eu fui seu devoto a vida inteira!" - O ancião agora coçava a careca, confuso: "Não conheço essa pessoa...". O outro insistiu: "O quê?? Ele não está aqui?? Eu não posso acreditar! Onde poderia estar? Ele fez tudo e mais um pouco! Se ele não pôde entrar... então... coitadinho de mim!..”. – Ficou mudo, e, depois de um tempo, começou a chorar baixo. Logo depois estava soluçando copiosamente.

O ancião, vendo aquilo, sentiu-se penalizado e disse ao homem: "Olha, eu vou chamar aqui o meu Senhor, ele normalmente está muito ocupado ajudando seu Pai a governar o mundo, mas ele é um deus muito bom, eu vou ver o que posso fazer, está bem?”... – O Sr. Silva se animou num segundo: "Vou ver Jesus! Vou ver Jesus! Tenho certeza que vai me perdoar! Vai me deixar entrar!! Ele perdoou até o ladrão na cruz! E eu nunca roubei nada a minha vida inteira!.."...

O ancião desapareceu, portões adentro. Passou um tempo. Sr. Silva estava exultante: "Vou conhecer Jesus, em pessoa! Oh, esperei por isso a vida inteira!"... - Por fim, com um alto clamor, os portões dourados se abrem! Diante dele aparece uma figura imensa e majestosa. Sr. Silva se põe de joelhos, emocionado. A figura imponente se aproxima, fazendo sombra sobre ele... É um homem alto e forte, de longos cabelos dourados. Os olhos de um azul profundo fitam o pobre homem, ajoelhado diante dele: "Ele se parece mesmo com a imagem clássica renascentista!", pensa o Sr. Silva. Depois de um instante de silêncio, finalmente se ouve uma forte e retumbante voz, que pergunta: "O que queres, mortal?"; - Sr. Silva, gaguejando, mal consegue responder: "Senhor, eu tentei servi-lo o melhor que pude, a minha vida inteira. Sempre segui os seus ensinamentos e procurei ser bom e piedoso. Tudo que peço é permissão para entrar no seu reino!”. – Mas a resposta não poderia ser mais desconcertante: "Eu não te conheço! Quem és?!"... Ao ouvir isso, o pobre coitado se pôs novamente a chorar, enquanto balbuciava, entre soluços: "Por teu Pai, meu Senhor Jesus, não me digas isso!"

Mas ele nunca poderia imaginar, nem nos seus sonhos mais desvairados, o que ouviria como resposta. E não pôde acreditar nela, mesmo depois que a ouviu:

"Mortal, tu estás louco!! Quem é Jesus? Não o conheço! Meu nome é Thor, meu pai é Odin, e tu não te pareces com nenhum dos meus guerreiros!"


Foi só então que o Sr. Silva percebeu que aquela figura grandiosa trazia um enorme martelo preso ao cinturão...


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Piadinha, só pra relaxar? Sim e não. Essa anedota tem um sentido muito profundo, por trás do tom irreverente e descontraído. Fala de um homem que fez uma escolha errada. Muito errada... ;-) Bem, ajudaria se ele tivesse nascido alguns séculos antes. Hehehe... Afinal, a antiga religião viking está extinta, então hoje ele não teria a menor chance de ir para o Céu. Ou melhor dizendo, para Valhalla... Mas a história fala de algo em que eu sempre acreditei: que o nosso caminho de vida não deveria ser escolhido sem que tivéssemos a certeza do que estamos fazendo. Afinal, até aonde poderia nos levar uma fé cega e que se limita apenas aos rituais?

Qual o verdadeiro Deus? Quero dizer, se há um Deus, como Ele é? Como chegar até Ele? Se esse Deus quer mesmo nos salvar, nos dar a salvação ou a liberação deste mundo caótico e desta vida curta e sem sentido, agora ou no futuro, então por que ele não nos mostra claramente o que quer?

"Por que esse 'não saber' é parte da Busca, faz parte de algo que nos tornará aptos a integrar algo melhor, quando estivermos prontos". - Essa é uma excelente resposta (e eu acredito nela)... Mas... Será que DEUS ou o Universo não nos daria nenhuma "dica", para que soubéssemos o que devemos fazer, qual o caminho certo a seguir? Se há mesmo essa coisa que chamamos "espiritualidade"; se há uma continuidade desta vida e se há certos princípios que devemos adotar, neste aqui-agora, para que essa "passagem" inevitável seja mais fácil ou mais feliz... Então porque não somos guiados de uma maneira mais objetiva?

Bem, estou convencido de que tive alguns Sinais... Mas será que os interpretei direito? Vocês poderão tirar as suas próprias conclusões, em breve. Isso tudo era só uma preparação para o próximo post.