Comentando a Meditação

Comentar certas questões é muito complexo. Por isso, resolvi usar um post para fazer isso.


Afinal, o que é "Meditação"? Para ser fiel à História, tenho que dizer que, apesar do que comumente se imagina, a Meditação Cristã talvez esteja entra as linhas mais tradicionais de meditação, ao lado da Zen-Budista. As meditações de linha oriental que deram origem à chamada Meditação Transcendental (MT) surgiram como uma prática yogue, há muitos milênios, e sua origem se perde na História. Na antiguidade, a Meditação era parte de um sistema extremamente elaborado e um pouco complicado, mas era composta basicamente por três estágios distintos: "Pratyáhára", "Dháraná" e "Dhyána". Esses estágios são integrantes do sistema "Ashtanga", considerado pela maioria dos especialistas como o principal da tradição hindu, constituído de oito partes complementares entre si. São elas: “Yamas”, “Niyamas”, “Ásanas”, “Pranayama”, “Pratyáhára”, “Dháraná”, “Dhyána” e “Samadhi” (Estado beatífico da mente, objetivo final do yogue). Para resumir, e focando a atenção apenas no quesito “Meditação”, podemos dizer que:

Pratyáhára é a “retração dos sentidos”, a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das “imagens” e influências exteriores. Ele serviria para desvincular-nos da invasão das preocupações do mundo exterior. Sem esse estágio, seria impossível alcançar a Meditação.

Dháraná é a “concentração em um único ponto”. Era feita para limitar a atividade da consciência, tornando-a unidirecional. Muitas vezes, para auxiliar nesse intento usava-se algum objeto, ou a visualização de uma imagem real, como a chama de uma vela, por exemplo.

Dhyána é, finalmente, a meditação em si, e era entendida como simplesmente o “cessar do fluxo do pensamento”. Mas, além de tudo isso, também eram consideradas essenciais as práticas dos Yamas e Nyamas (preceitos morais e éticos), Ásanas (posturas corporais), Pranayama (técnicas respiratórias), além dos "Bandhas" (contração e compressão de órgãos), "Krya" (purificação física / espiritual) etc, etc, etc... Tudo isso é pra dizer que a Meditação fazia parte de um conjunto muito complexo de coisas, que na prática só era possível a monges, “sadhus” e religiosos - que entregavam suas vidas completamente à busca espiritual; simplesmente porque praticar tudo isso levava muitas e muitas horas de dedicação constante.

Foi somente na década de 1960 que Maharishi Mahesh Yogi “inventou” a chamada “MT” (Meditação Transcendental), que se popularizou no mundo inteiro por ter adquirido seguidores notáveis, como os Beatles, Mia Farrow e esportistas famosos da época. E somente em 1972 foi que Maharishi fez uma revisão na Meditação Transcendental para que se encaixasse no seu “Plano Mundial”. A partir de então, Maharishi passou a promover a MT como uma ciência, e não uma religião, usando uma linguagem mais psicológica do que espiritual. Ele tinha por objetivo evitar o tipo de conflito “Estado-Igreja”. O que ele fez, na verdade, foi uma espécie de resumo-muito-resumido(;-)) das técnicas ancestrais originárias da Índia. Em todo caso, como diz o professor Pedro Kupfer, uma das maiores autoridades sobre o assunto em nosso país, no livro “Yoga Prático”:

“A rigor, as instruções sobre como meditar terminam na concentração. Depois, o praticante deve continuar sozinho. Não há palavras para descrever a meditação. Se você não experimentou esse estado, as palavras só irão provocar confusão e intelectualização. Ou seja, você vai ficar de fora de experiência real. Se você tiver a experiência, saberá que as palavras sobram, e que não podem ser usadas para descrevê-la”

Em outras palavras: A Meditação é uma experiência pessoal, interior, que só pode ser sentida pelo indivíduo. Não existe dúvida de que cada ser humano sobre a Terra (mesmo os que pertencem à uma mesma tradição) medita do seu jeito único. Ainda que a MT ensine o ser humano a simplesmente anular os pensamentos, tornando-se como um "bambu oco", por onde o vento do Universo possa "soprar e produzir música", deixando o conceito de Deus completamente de lado, quem pode afirmar com certeza que o praticante que tem fé em Deus não possa experimentar uma sensação de interação com o seu “Bem Amado” nesse momento de pausa? Meditação Cristã foca o vazio. Para encontrar Deus. Meditação Transcendental, assim como todas as meditações da tradição oriental, focam o vazio pelo vazio. O que, como eu já disse, pode ser extremamente benéfico.

Uma observação: Meditação de "linha oriental" é só um modo de chamar, já que o Cristianismo também surgiu e se difundiu, primeiramente, no Oriente.

Observação importante: Eu não estou me propondo a falar, aqui, qual é a melhor prática. Estou apenas me entregando à uma inútil tentativa de explicar alguma coisa que só pode ser experimentada.

Outra observação: O post "O Fim e o Princípio - parte 2", como foi muito bem observado no espaço dos comentários, não é sobre meditação. É sobre um modo de vida, uma maneira de ser.

Última observação(socorro!): Esta não é a continuação do post anterior.