Alegra-te Maria!


Atendendo a pedidos, uma série de postagens vão tratar de um assunto muito importante não só para o Cristianismo como também para qualquer pessoa que busque respostas na Espiritualidade: a importância do papel da virgem Maria, nossa senhora, a mãe de Jesus.

Mas para falar desse assunto, sinto que é necessário tratar, antes, de um aspecto que considero de fundamental importância, para que não pairem as mesmas velhas dúvidas de sempre a respeito do tema 'devoção aos santos': Eu sei muito bem que hoje, por conta do avanço das linhas evangélicas no Brasil, muitas pessoas não aceitam e criticam a devoção aos santos, dentre os quais Maria é considerada a “rainha”. E por que isso ocorre?

Principalmente por puro desconhecimento. E para lançar alguma luz sobre a questão, nada melhor do que, primeiramente, definir o significado da palavra ‘santo’:

Dentro das páginas do Velho Testamento, três diferentes palavras hebraicas são traduzidas como 'santo': 'qadosh', 'qodesh' e 'qaddiysh'. Essas palavras são variações da mesma raiz e geralmente se referem ao que é sagrado e bondoso, devoto, piedoso. Em diversas passagens, dirigem-se a anjos ou pessoas 'justas' que já haviam morrido. - A mesma palavra hebraica é usada para convidar o povo consagrado a louvar a Deus.

No Novo Testamento, é a palavra grega 'hagios', que se traduz como santo ou santos. Ela define o sagrado, o puro, sem culpa, religioso e, principalmente, consagrado. Santo é aquele ou aquilo que está separado do mundo ou do pecado e, portanto, consagrado a Deus: é sagrado. Da mesma maneira, é correto dizer, por exemplo: 'A hora do almoço, para mim, é sagrada'. – Significa que aquele horário está 'separado', 'reservado' para a alimentação. Os autores originais dos textos bíblicos usaram a palavra santo para descrever pessoas santificadas (fiéis) que deviam e devem orar umas pelas outras (como se vê, por exemplo, em Tiago 5:16 e 1 Timóteo 2:1). Essa palavra, portanto, nada mais significa do que estar ‘separado ou reservado para Deus’.

Até aí, nenhum conflito com o texto bíblico. Continuemos então o nosso raciocínio. - Ocorre que os que criticam a devoção à virgem Maria são os mesmos que acreditam que os santos, ao morrer, vão para um plano espiritual de bem-aventurança e perfeita alegria mais próximo de Deus (que se convencionou chamar ‘Céu’). Também acreditam plenamente na afirmação bíblica de que “a oração de um justo pode muito” (Tiago 5:16). Mas essas mesmas pessoas não aceitam (ou não entendem) a idéia de que alguém que já passou para este outro plano superior possa fazer pedidos a Deus em nossa intenção, e que justamente por se tratarem de 'justos', as possibilidades de esses pedidos serem atendidos seja maior.

Resumindo: Se eu acredito que orar a Deus traz resultados, e se eu acredito que devemos orar uns pelos outros... Se eu acredito que as pessoas que já morreram santificadas estão agora mais próximas de Deus... Então qual o problema em pedir auxílio a esses homens e mulheres que foram verdadeiros exemplos de fé e fidelidade?

É curioso observar que, nesse momento, católicos e espíritas se aproximam, pois ambos acreditam que é possível a comunicação entre vivos e mortos. Também acho curioso observar a atitude de negação dos protestantes/evangélicos com relação a esse assunto, sendo que a própria Bíblia, base absoluta da sua fé, declare abertamente que sim, isso é possível e acontece. Eu os considero (os protestantes e evangélicos) como verdadeiros irmãos em Cristo, como já falei em outras oportunidades, mas parece que eles 'pulam' essa parte da Bíblia! O texto bíblico não nega a possibilidade da comunicação com os mortos, por meio de 'médiuns' ou 'videntes'. Senão vejamos...

Aqui, o rei Saul manda evocar 'a sombra' de Samuel:

“Vendo Saul o arraial dos filisteus, temeu e estremeceu muito o seu coração. Pelo que consultou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.

Então disse Saul aos seus servos: 'Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte'. Disseram-lhe os seus servos: 'Eis que em En-Dor há uma mulher que é necromante'.

Então Saul se disfarçou, vestindo outros trajes; e foi ele com dois homens, e chegaram de noite à casa da mulher.

Disse-lhe Saul: Peço-te que me adivinhes pela necromancia, e me faças subir aquele que eu te disser. A mulher lhe respondeu: Tu bem sabes o que Saul fez, como exterminou da terra os necromantes e os adivinhos; por que, então, me armas um laço à minha vida, para me fazeres morrer? Saul, porém, lhe jurou pelo Senhor, dizendo: 'Como vive o Senhor, nenhum castigo te sobrevirá por isso'. A mulher então lhe perguntou: 'Quem te farei subir?' Respondeu ele: 'Faze-me subir Samuel'.

Vendo, pois, a mulher a Samuel, gritou em alta voz, e falou a Saul, dizendo: 'Por que me enganaste? pois tu mesmo és Saul'. Ao que o rei lhe disse: 'Não temas; que é que vês?' Então a mulher respondeu a Saul: 'Vejo um deus que vem subindo de dentro da terra'. Perguntou-lhe ele: 'Como é a sua figura?' E disse ela: 'Vem subindo um ancião, e está envolto numa capa'.

Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e lhe fez reverência. Samuel disse a Saul: 'Por que me inquietaste, fazendo-me subir?' Então disse Saul: 'Estou muito angustiado, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus se tem desviado de mim, e já não me responde, nem por intermédio dos profetas nem por sonhos; por isso te chamei, para que me faças saber o que hei de fazer'. Então disse Samuel: 'Por que, pois, me perguntas a mim, visto que o Senhor se tem desviado de ti, e se tem feito teu inimigo? O Senhor te fez como por meu intermédio te disse; pois o Senhor rasgou o reino da tua mão, e o deu ao teu próximo, a Davi. Porquanto não deste ouvidos à voz do Senhor, e não executaste e furor da sua ira contra Amaleque, por isso o Senhor te fez hoje isto. E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará o arraial de Israel na mão dos filisteus'.

Imediatamente Saul caiu estendido por terra, tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel; e não houve força nele, porque nada havia comido todo aquele dia e toda aquela noite"
(I Samuel, 28:5-20)


A tradução para o português é a 'Almeida Revisada Imprensa Bíblica', uma das mais precisas. Mas este é só um exemplo; existem outros. A Bíblia diversas vezes se refere a 'mediadores' entre os vivos e os mortos, normalmente chamando-os de 'necromantes' (= pessoa que invoca o espírito dos mortos) ou 'adivinhos'... A Bíblia não nega a realidade dessas práticas, apenas as condena, e com veemência:

"Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque eles tornariam vocês impuros." (Levíticos, 19:31).

"Quem recorrer aos necromantes e adivinhos, para se prostituir com eles, eu me voltarei contra esse homem..." (Levíticos, 20:6).

"Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não apreenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tais coisas é abominação ao Senhor; e por tais abominações o Senhor teu Deus os lança de diante de ti. Perfeito serás para com o Senhor teu Deus. Porque estas nações, que hás de possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém a ti o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa." (Deuteronômio, 18:9-14).


Mas condenar alguma coisa, ou desaconselhar a sua prática, é diferente de negar que exista. E é exatamente aí que está a raiz do problema. Porque baseados nesse mesmo princípio, os que negam a possibilidade da comunicação com os mortos negam também a possibilidade da intercessão dos santos, que são simplesmente nossos irmãos que estão mais próximos do Eterno.

Mas é importante que se diga que não faz parte da tradição do Cristianismo “invocar” estes santos para perguntar coisas, para que nos digam o futuro ou saber como é o lugar onde estão; e sim pedir orações a eles, para que intercedam junto ao Pai em nosso favor. - São coisas bem diferentes. - E pedir a algum santo não deve excluir a importância da oração feita diretamente a Deus, em nenhuma hipótese.

Da mesma forma ocorre com a questão da virgem Maria. Como já deixei transparecer em outros posts, eu nunca nutri pela figura de Maria qualquer devoção especial. Nunca tive por hábito orar à Maria, nem senti por ela algum tipo de carinho diferenciado. Muito provavelmente por conta da minha fase como evangélico, eu sempre vi esse amor e essa devoção dos católicos pela mãe de Jesus como algo equivocado e/ou pecaminoso. Lembro-me de ter assistido a centenas de sermões de pastores sobre esse tema. Diziam que chamar Maria de “mãe de Deus” era uma inominável blasfêmia, e que pedir qualquer coisa a Maria seria um pecado terrível. No dia 12 de Outubro, muitas pessoas da congregação batista que eu freqüentava reclamavam do feriado, chegando a dizer frases como: “Hoje é feriado em honra de ‘nossa senhora apodrecida’”...

Mesmo que naquela época eu fizesse parte daquela egrégora e concordasse que a veneração à Maria fosse um erro, eu nunca gostei desse tipo de radicalismo. “Se Deus a escolheu para ser a mãe do Cristo, o Deus encarnado, ela com toda certeza foi a mulher mais santa que já existiu”, eu pensava comigo.

Mesmo assim, a "propaganda negativa" feita na minha cabeça, intermitente e por anos a fio, me trouxe o hábito de manter sempre um 'pé atrás' quando o assunto era 'nossa senhora'. Somente depois que encontrei o meu caminho e vi que dentro dele havia um espaço importante reservado à figura da “mãe de Deus”, foi que voltei a me debruçar sobre esse assunto com real atenção e seriedade. Minha alma curiosa de buscador sempre está presente, e é útil nos momentos em que preciso compreender alguma coisa. - Nunca tomo decisões a respeito das coisas que eu não entendo a fundo (o que não é um hábito comum em nosso país, infelizmente).

Então, lá me fui a estudar e procurar conhecer o assunto em detalhes, usando não só da pesquisa pessoal, dos livros e do aconselhamento dos especialistas como também (e principalmente) procurando ouvir a minha própria consciência.

Seguem as minhas conclusões, que servirão como pano de fundo para o assunto da próxima postagem:


Ocorre que após a ressurreição de Jesus, as comunidades dos seguidores de Cristo começaram a se agrupar para garantir o crescimento da sua fé naquele que mudara a vida e todos os conceitos que até então existiam. No centro dessas comunidades estava a Palavra, que juntamente com o Pão partilhado, nutria-lhes e confirmava-lhes a opção de vida que tinham feito, de entrega a Cristo Jesus. A primeira referência a Maria, mulher simples do seu povo, está na Carta aos Gálatas em que Paulo ensina que, na plenitude dos tempos, Deus se fez homem, nascido de uma mulher.


Maria inaugura a plenitude desses tempos

Maria é a mulher que oferece seu corpo e sua vida para realizar o Grande Plano. Assim como seu Filho, sua missão também é estar a serviço da humanidade, para que também nós pudéssemos ser filhos do Deus do Amor. Ela é a mulher que, livremente, vive um itinerário humano de total abertura ao Senhor. Esposa e mãe, acompanhou Jesus do berço ao calvário, aprendendo com Ele a ser também discípula. No Evangelho de Marcos, a primeira síntese a ser escrita após a morte de Jesus, temos uma clara noção do que significa ser discípulo - O discípulo é alguém a quem o Senhor olha profundamente e a quem escolhe e chama, no cotidiano da própria vida, na rotina do trabalho: "Deute opiso mou!" (Vinde após mim!). Esse é o convite para acolher o Caminho e o estilo de vida de Jesus, e trabalhar em comunidade, a serviço do seu Reino.


Maria está entre os discípulos

Ao chamar os primeiros discípulos, Jesus lhes fala junto ao lago, lugar de seu trabalho. Quando aceitam o convite, o Mestre os leva para a montanha, para os constituir como tais. Para subir ao monte é preciso um esforço, uma mudança, um “sair do chão raso”: O monte é o lugar da revelação, da escolha e do envio. O destino dos discípulos será o de acompanhar e seguir sempre a Jesus, e a missão de pregar a Boa Notícia libertadora. A experiência do discipulado começa com a resposta pessoal, consciente e livre a um Convite. E isso significa mudar totalmente de vida, porque nos tornamos mensageiros de algo que em muito nos ultrapassa: a Boa Nova da salvação e da libertação. Quem quiser viver essa experiência passa ser a família de Jesus. Cumprir sua missão é a nova realidade dos que aceitam, como Maria, a "peregrina da fé", seguir Jesus incondicionalmente.

Todos buscam Jesus, cada qual por um motivo, mas, no contexto daquela multidão, podemos identificar três grupos: os adversários, sua família e seus discípulos. Transparece, da narrativa de Marcos, que nem todos de sua família estivessem compreendendo a real missão de Jesus e acham que ele está "exagerando". Não é o que pensa sua mãe. Todavia, quando seus familiares o procuram novamente, Jesus pergunta ao povo que o escuta: "Quem é minha mãe e meus irmãos?" A nova família do Senhor é formada por aqueles que fazem a vontade de Deus.


Maria fez sempre a vontade de Deus

Num terceiro texto de Marcos, vemos que aqueles que ouviam maravilhados o que Jesus dizia, perguntavam-se: "Não é este o carpinteiro, o filho de Maria...?" Essa pergunta e todas as outras a respeito de quem era ele são importantes para estabelecer a identidade messiânica de Jesus. É que o povo ainda não sabia quem era Jesus verdadeiramente, e o título "filho de Maria", que poderia colocar em dúvida seu caráter divino, acabou por tornar-se a própria identidade humana do Salvador. Como mulher de seu povo, Maria é presença silenciosa. Ao mesmo tempo que não ouvimos sua voz, vemos sua presença ativa e serviçal, sempre atenta e próxima, sempre a serviço do Evangelho. No livro de Mateus, Jesus é o cumprimento pleno das esperanças do povo de Israel, e Maria participa do "cumprimento das Escrituras" tendo uma missão especial. Mateus insiste em frisar que Jesus descende de Davi. Destaca também a figura de José, que sendo pai adotivo, não é por isso menos importante e responsável. Há de se notar ainda que Mateus traça um paralelismo entre o livro do Gênesis e a genealogia de Jesus, como a indicar que, com Ele, começa a nova criação. O "novo povo, o novo Israel”, brota de Jesus, o Cristo, através de Maria. A concepção do Cristo, por obra do Espírito Santo, é um acontecimento excepcional, e a partir dele Mateus ensina sobre o mistério de Jesus. Ele é o Filho de Deus e seu nascimento de uma virgem confirma o que os profetas haviam predito. Maria é, pois, a Mãe do Emanuel e tem papel importante "no Mistério da Salvação".

Três são as exigências que Mateus destaca para quem quer ser discípulo de Jesus: 1) Amor incondicional; 2) Tomar a cruz e seguir Jesus; 3) Perder a vida por Jesus (a 'antiga' vida). - Não se trata de uma passividade mórbida, mas de uma escolha radical, de uma ação consciente de tomar posição a favor dele, deixando para trás o mal e a morte. É isso que prova se somos ou não dele.


Maria cumpre as três exigências: ama-o acima de tudo, segue-o e sofre com Ele, e nada teme. Por seu Amor, Maria é modelo no seguimento de Jesus

Lucas, o terceiro evangelista, era provavelmente grego, homem de muita cultura, estudioso da exegese judaica. O seu evangelho nos apresenta uma outra face de Maria: uma mulher ativa, comprometida, livre, disponível a colaborar com o Grande Plano, a serva que se entrega sem reservas. Fica claro que Maria não tem uma identidade e uma vocação próprias, mas dentro e a serviço do Cristianismo. Ela se enriquece plenamente por / para Jesus. Na anunciação, o Senhor chama Maria a entregar sua vida toda a serviço da missão de Jesus, centro e plenitude da História. E o “sim” de Maria é uma tarefa salvífica.

Quando o Anjo saúda Maria diz: “Alegra-te!”, fazendo uso de uma saudação dirigida a ela como Filha de Sião. Maria é, pois, convidada a transbordar de alegria, a exultar com a libertação que chega, com a presença de Deus que será, a partir de seu consentimento, total e definitiva. Se para Zacarias falar com Deus foi preciso entrar no santuário, no centro do templo, no caso de Maria é o próprio Deus que desce e entra em sua casa, o lugar da presença salvadora do Senhor nos novos tempos!

Se Deus realiza em Maria o ato mais extraordinário de presença e de revelação, é porque Maria é, em algum nível, o templo, o santuário, a morada de Deus; onde o Senhor pode ser encontrado, celebrado e amado. Mesmo assim, ela a si mesma só atribui um título: “a serva do Senhor”.

A fé de Maria é um ato de oferenda, pois ela está totalmente disponível ao plano divino; é um ato de obediência, pois ela aceita sua vocação não como honra, mas como serviço; um ato de confiança, pois ela acolhe o desígnio de Deus, apesar de tudo mostrar-lhe o contrário.


“Alegra-te, Maria, cheia de graça!”