A Verdade onde menos se espera - conclusão

“É... Paz... Boa tarde... paz, quer dizer, boa tarde pra você!..”


Diante da minha atrapalhação, a voz do outro lado parecia tentar esconder um riso incontido, quando respondeu: “Aqui é o Irmão Marcos, posso ajudar o senhor?”

“Bom, eu acho que sim. Eu vim visitar você, digo, a organização de vocês, se é assim que chamam... Mas não consigo encontrá-los...”

“Onde o senhor está?”

“No Butantã, na rua tal..."
- me desculpem, mas eu não me lembro o nome daquela ruazinha escondida naquele fim de mundo.

“Ah, nós nos mudamos daí, já tem um tempo. Agora estamos na avenida Eliseu de Almeida, número 898... Não é muito longe. O senhor está de carro?”

“Não. Estou a pé.”

“Hm. Mesmo assim, dá pra vir fácil. O senhor conhece aqui a região?”

“Não muito, na verdade...”

“Olha, se o senhor quiser nós vamos até aí busca-lo!”
- Serzinho prestativo, aquele...

“Não, não é preciso... Me diz como eu faço pra chegar aí...”



E assim foi que ele me passou uma série de pontos de referência, me explicando detalhadamente como chegar ao local certo, e avisou que a pé eu levaria mais uns vinte minutos para chegar até lá (ufa...). Mas pelo menos agora o caminho seria bem mais fácil, porque esse novo endereço ficava numa avenida principal, de fácil acesso. Irmão Marcos ainda me avisou que não poderia me receber, porque ele estava, naquele momento, “entrando para a adoração” (Hã??). Mas salientou que bastaria eu dizer, ao chegar, que gostaria de fazer uma visita, e qualquer dos irmãos teria grande prazer em me receber.

Mais uns vinte minutos andando sob a chuva de verão e... finalmente alcancei meu destino!


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Não sei porque, estava emocionado. Uma sensação muito agradável tomava conta de mim, ao chegar. A casa era velha, a pintura toda descascando. Um sobrado com uma espaçosa garagem (para uns quatro carros), que estava com as portas abertas, e lá dentro eu podia ver uma grande mesa montada na parte externa, em torno da qual alguns homens conversavam, animadamente. Eu os identifiquei como sendo ex-moradores de rua acolhidos pelos toqueiros. Um deles, um ancião de longos bigodes prateados, foi o único que me viu parado ali, diante do portão, procurando por uma campainha. Veio até mim e perguntou o que eu desejava. “Eu vim para conhecer a casa. Já falei com o irmão Marcos...”. Ele me olhou de cima abaixo (acho que não estavam muito acostumados a receber visitas), puxou um molho de chaves do bolso, e, abrindo o portão, me convidou a entrar, com um semi-sorriso debaixo do bigodão.

Quando eu entrava, meio sem jeito e completamente encharcado, no alto da escada em 'L' que ficava à direita da área da entrada da casa, apareceu um rapaz, alto e louro, de olhos claros, com um sorriso aberto na face rosada. Com um gesto, ele me convidou a ir ao seu encontro. Subi e saí de debaixo da chuva (finalmente!). Esse rapaz vestia uma velha calça marrom, um par de chinelos velhos e uma camiseta largona, com alguns dizeres bíblicos estampados, tão cheia de furos que mais parecia uma peneira. Logo que cheguei perto dele, me sentindo um pouco acanhado, sem saber direito o que falar e estendendo a minha mão para um tímido “prazer, Henrique”, fui surpreendido por um caloroso abraço, acompanhado de um efusivo “Paz de Cristo! Meu nome é João Paulo”... Fiquei um pouco surpreso com um gesto tão carinhoso partindo de um homenzarrão daqueles (devia ter quase dois metros de altura), apesar de que não aparentava ter mais que 22 ou 23 anos de idade. Um sorriso era franco, e os olhos azuis me olhavam bem dentro dos olhos, como que tentando entender o que um cara como eu, com meu jeito meio meio estranho (eu não tenho a cara de uma pessoa religiosa) estaria fazendo numa casa de fraternidade como aquela... Logo, ao me observar melhor, exclamou: “Rapaz, você está ensopado!”.

Assim, meu anfitrião me fez entrar para a espaçosa cozinha, onde havia um velho fogão industrial num canto, uma geladeira também muito velha (doações) e ao lado oposto uma grande bancada de madeira com utensílios diversos em cima: porta-talheres, panelas, copos, canecas... “Você quer tomar um banho quente?” – perguntou. Eu disse que não, e ele: "Me segue”. Entramos então num corredor não muito bem iluminado, que ia dar num quarto amplo, com um grande armário que tomava toda a parede do fundo. Abriu algumas gavetas, remexeu dentro delas por um instante, depois puxou de dentro uma grossa e felpuda toalha de banho, que me estendeu. Agradeci, enquanto ele, como se fosse um irmão mais velho, insistia para que eu tirasse meus tênis, enquanto revirava dentro de uma outra gaveta. Enquanto eu terminava de me enxugar, ele achou o que estava procurando, e era algo de que eu realmente precisava muito naquele momento: um par de meias secas! Resisti um pouco em aceitar, dizendo que não queria. Imaginava que não deveria aceitar as roupas que eles recebiam de doações, afinal eram para os pobres necessitados. Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele disse: “Nesse momento, você é a pessoa que mais está precisando de um par de meias secas, aqui!” Não pude deixar de sorrir, e diante daquela lógica inapelável, aceitei...

Então voltamos para a cozinha, e enquanto ele colocava um bule de café e uma leiteira no fogo, me perguntou qual a razão da minha visita. “Eu tenho buscado a Deus...” – respondi. Ele me olhou com uma expressão curiosa, como quem diz “Que diferente!”, mas acabou dizendo, apenas: ”Ah, é!?”...

Eu confesso que não gosto de café, mas diante do extremo carinho e atenção com que aquele rapaz preparava a bebida para me dar, não tive coragem de recusar. O pior é que ele me serviu um copázio em que devia caber pelo menos uns 500 ml de café com leite, cheio até a boca... Mas reconheço que aquele copo de café quentinho e cremoso, depois de ter passado tanto tempo debaixo de chuva, foi revigorante, e até que estava gostoso. Logo, Irmão João Paulo me perguntou: “Você é católico?” Eu respondi que não, que ainda estava procurando pelo Caminho...”Hmmm... E você tem devoção por Nossa Senhora?” - Ele parecia uma criança quanto pergunta aos pais se vai ganhar aquela bicicleta de Natal... - Seguiu-se um breve momento de silêncio constrangedor. Na verdade, um dos meus principais pontos de divergência com o catolicismo sempre tinha sido o culto à Virgem Maria. Uma herança dos meus tempos em igrejas evangélicas. Mas, bem... ali, diante daquele olhar que me parecia tão puro e sincero quanto o de uma criança esperando por aprovação, só consegui responder um “Acho que sim...” A expressão no rosto dele mudou, de uma criança carente para novamente a de um irmão mais velho (acho que entendeu a resposta verdadeira, nas ‘entrelinhas’ do ‘sim’ que eu falei). Mas ele apenas sorriu, e perguntou: “E como anda a sua busca?” Respondi: “Ela me trouxe até aqui...” Mais um instante de silêncio, mas agora um silêncio agradável, um 'clima' de amor fraterno no ar, como se nos conhecêssemos há tempos (o silêncio entre duas pessoas só não é constrangedor quando existe grande cumplicidade entre ambos).

De repente, um jovenzinho magro entrou na cozinha, andando devagar, aparentando ser portador de algum tipo de deficiência mental. Ele parecia meio envergonhado, talvez pela minha presença. “A gente tem visita, irmão Paulo?” Perguntou. “Cumprimente o Henrique, Carlito!” Respondeu Irmão João Paulo . O rapazinho se aproximou, com um sorriso meio torto, e me estendeu a mão pequena e trêmula, timidamente. João Paulo me explicou que aquele era Carlito, um dos “irmãozinhos acolhidos” de quem os toqueiros cuidavam naquela casa. Em seguida se voltou para Carlito e perguntou: “Algo errado? Você está tremendo!”... Carlito, com dificuldade, parecendo profundamente perturbado, perguntou: “Irmão, o que acontece quando a gente morre?” Irmão João Paulo franziu o cenho: “Ficamos em paz, Carlito”... O pequeno ficou quieto por alguns instantes, para logo depois concluir: “Você acha que o irmão Jorge está bem?”... Ao ouvir aquilo, Irmão João Paulo imediatamente abriu seus grandes braços e um sorriso ainda maior: “Então era isso? Não se preocupe, irmãozinho, está tudo bem com o irmão Jorge. Ele agora está bem melhor do que antes”... Dizia isso enquanto abraçava carinhosamente o pequenino, que agora soluçava, com lágrimas escorrendo pelas faces.

Ainda abraçado a seu progegido, João Paulo me explicou tudo: “Irmão Jorge era um dos nossos internos, que estava sendo tratado há algum tempo aqui na casa. Quando nós o encontramos, debaixo de um viaduto, ele estava muito mal, sofrendo com uma grave pneumonia, já em estado avançado. Nós o levamos ao hospital público, ele ficou internado por uma semana, depois teve alta e veio pra cá, mas ainda não estava bem. Ele estava sendo assistido e medicado por uma médica voluntária, que vinha vê-lo todos os dias, mas há dois dias não resistiu e faleceu, aqui em casa mesmo. Carlito viu o corpo e ficou muito impressionado...”. Enquanto falava, afagava o cabelinho ralo de Carlito, aninhado em seu peito como um bebê.

Uma cena emocionante, que não se vê a toda hora. Aliás, que não se vê nunca. Dois homens adultos se abraçando fraternalmente, como se fossem de fato duas crianças, dois irmãozinhos. Irmão João Paulo, depois de reconfortar Carlito (que ele me explicou que tinha sido 'achado’ nas ruas, machucado e balbuciando coisas sem sentido, sujo e sem documentos, há mais de um ano...), lhe disse: “Agora eu vou mostrar a nossa casa ao irmão Henrique, está bem?”...

Eu acabava de chegar e já estava sendo tratado por “irmão”, um hábito herdado de São Francisco de Assis, que considerava a todas as Criaturas do Pai como irmãos seus, desde os seres humanos até animais e a natureza. “Vamos lá!”, disse João Paulo, fazendo um gesto para que o acompanhasse. Subimos um lance de escadas e chegamos ao andar mais alto, onde, diante de uma porta fechada, ele se inclinou, fazendo uma reverência. “Esta é a parte mais importante de toda a nossa casa”, me disse, sempre com aquele sorriso aberto, “mas eu vou deixar pra mostrar por último”. Logo à frente, um novo corredor, que dava para três grandes quartos, lotados de leitos e beliches. Entramos, e ele foi me apresentando, um por um, os acolhidos que ali se encontravam, acamados. “Aqui é a parte onde ficam os irmãozinhos que tem problemas de saúde mais graves, que não podem andar por si mesmos”, disse ele. Todos ali eram portadores de dificuldades motoras severas.

A cada novo acamado que ele me apresentava, ia distribuindo abraços carinhosos, beijos nas frontes e afagos nas cabeças, a maioria grisalhas. Me impressionou muito um destes acamados, de nome Celso, um senhorzinho que não as pernas, e os dois braços atrofiados. Irmão João Paulo o pegou no colo, com muita facilidade, para colocá-lo sentado no leito, enquanto falava baixinho, para não acordar os que dormiam: “Olha, Celso, quem veio te visitar!” O ancião me olhou, sorriu e disse: “Oi, querido, tudo bem? Seja bem vindo, viu?” – Tive que me controlar para não demonstrar a emoção forte que assaltava meus sentidos. Fiquei olhando pra ele, sem saber muito bem o que fazer, e disse: “Tudo bem, obrigado”... Irmão João Paulo falou no meu ouvido: “Segura na mão dele, ele quer ser cumprimentado como uma pessoa normal”. As mãos eram atrofiadas, encolhidas e tortas, por isso eu não tinha apertado a mão dele. Mas então o fiz. Segurei a mão toda retorcida e a balancei, como se faz num aperto de mão normal. Quando nos afastamos, Irmão João Paulo me susurrou: “Tudo que eles querem é ser tratados como gente. Querem se sentir normais. Não demonstre dó nem os trate diferente do que trataria qualquer pessoa normal”.

No outro quarto, um outro irmãozinho acamado exalava um odor forte de urina. “Fez xixi na cama de novo, né ‘Pinhão’? Já não falei que tem que pedir? Não tem vergonha, não?..” - João Paulo não estava irritado, e a sua bronca não convencia ninguém. Ele me pediu licença, retirou os lençóis, e, sem a menor cerimônia, tirou também todas as roupas do velhinho. Fez uma trouxa com tudo, me pediu um minuto e saiu do quarto. Depois voltou com uma pilha de toalhas e roupas limpas, dobradas debaixo de um braço, e na outra mão uma bacia com água, sabonete líquido e panos. Primeiro colocou o homem num outro leito, então trocou o colchão por um outro, seco, que estava guardado num grande armário embutido. Recolocou o velho “Pinhão” de volta em seu leito, e, demonstrando grande prática, o limpou e trocou em minutos. Assistindo a tudo, maravilhado, eu só podia pensar: “Qual mestre ou membro dos muitos grupos esotéricos e/ou pseudomísticos que eu conheci seriam capazes de praticar o Amor Cáritas com tamanha abnegação?” - Eu sabia bem que a resposta seria "provavelmente nenhum". Em minha vida, até aquele momento, tinha conhecido muita gente 'entendida' em espiritualidade, autores de livros e expertos em teoria. Quanto à parte prática, no entanto... A verdade é que eu comecei a sentir que estava conhecendo algo totalmente novo, em termos de espiritualidade, ali. Algo vital para qualquer um que pretenda encontrar a Verdade.

Descemos para a grande sala da casa, onde ele me mostrou um quadro pendurado na parede principal, com um retrato do fundador da Ordem Toca de Assis, Padre Roberto Lettieri, segurando as mãos do papa João Paulo II. Ele ainda me passava alguns detalhes sobre a história da fundação de sua congregação, quando uma mancha escura surgiu de repente, à esquerda do meu campo de visão. Quando me virei e foquei o olhar, vi que era um rapaz usando tonsura e vestindo um hábito de monge Franciscano, se escondendo atrás de mim. De repente ele pulou e se pendurou no pescoço do irmão João Paulo, que estava distraído, bagunçando seu cabelo, entre gargalhadas. João Paulo o repreendeu, pedindo que parasse com as "criancices" porque tinha uma visita ali. Depois olhou para mim, meio sem jeito, e disse: “Este é o nosso Irmão Bento, um religioso consagrado aqui da Toca de Assis” (quando o toqueiro recebe uma espécie de 'oficialização' como religioso, por parte da Igreja, é chamado 'consagrado'). Mas eu não pude dizer nada, porque esse tal Bento já me abraçava.

Logo chegamos a um outro aposento, onde encontramos todos os demais 'irmãos', reunidos em volta de um velho computador, fuçando algumas páginas católicas na Internet. Quando entramos, Irmãos João Paulo e Bento me apresentaram a todos, e quase todos eles me abraçaram, alguns me cumprimentando com um “Paz e Bem”, outros me dizendo um “Bem vindo”, e outros apenas um “Tudo bem?”, ou “Como vai?”...

Eram ali em torno de uns dez irmãos toqueiros, jovens que haviam dedicado inteiramente suas vidas ao serviço religioso e à ajuda humanitária aos menos favorecidos. Logo todos se retiraram, cada um para seus próprios afazeres. Conforme me explicaram, já se aproximava a hora de começar a preparar a janta para os acolhidos. Ficamos na sala apenas eu, Irmão João Paulo e Irmão Bento, conversando. Eu fazia muitas perguntas, e eles esclareciam as minhas dúvidas em todos os detalhes. Perguntava sobre a vida na fraternidade, sobre a rotina diária deles, sobre que tipo de fé os levara a entregar assim, tão completamente, suas vidas. Irmão Bento me esclareceu que, apesar de serem ali muito felizes, também existiam, sim, problemas, e que às vezes se desentendiam e tinham dúvidas, como seres humanos normais. Depois, alguém o chamou, e finalmente ficamos novamente só eu e Irmão João Paulo, que havia se tornado, meio sem querer, o meu cicerone oficial.

Ele também queria saber mais sobre a minha busca, e eu lhe contei, bem resumidamente, sobre a minha história, sobre o quanto quisera, desde sempre, encontrar Deus. Falei de algumas alegrias e decepções minhas no decorrer desse percurso. Quando lhe falei sobre o budismo, ele se animou e disse: “Gosto muito dos budistas. A vida de um monge budista e a de um monge cristão têm diversos pontos em comum. Na minha opinião, o budismo é o mais próximo que o homem consegue chegar de Deus”. Fiquei bastante surpreso com essa afirmação, e não pude deixar de perguntar: “Mas... E o cristianismo? Se o budismo é o mais próximo, então porque não ser budista??". João Paulo ficou sério, e, com os olhos bem dentro dos meus, respondeu sem pestanejar: “O budismo é o mais próximo que o homem consegue chegar de Deus. Mas o cristianismo é divino".

Não tinha como não ficar impressionado com a determinação e a certeza com que aqueles jovens abraçavam a sua fé. Eles não tinham nenhuma sombra de dúvida do que estavam fazendo de suas vidas. Muitos deles poderiam ter optado por viver uma vida de confortos, prazeres e fartura, mas tinham saído de suas casas e abandonado famílias de classe média-alta... Num dado momento, João Paulo me perguntou: “O que lhe faltou no catolicismo, que afinal de contas é a religião dos seus pais, que teve que ir buscar em doutrinas exóticas, vindas de culturas tão diferentes?” Eu respondi que não sabia explicar bem, até porque isso era a pura verdade. Finalmente, levantando-se, ele me fez um convite: “Agora que você já conheceu a nossa casa, acho que posso lhe mostrar o que há atrás daquela porta lá em cima, que eu disse que era uma surpresa, e que iria lhe mostrar por último".

Subimos novamente para o andar de cima, e quando chegamos diante da porta misteriosa, ele me pediu para entrar com muito respeito. Tirou os sapatos antes de abrir a porta, e me pediu que fizesse o mesmo. Ao entrar naquela sala, ele imediatamente se colocou de joelhos. Eu o imitei, e vi que aquela sala havia sido convertida numa pequena Capela. Na parede do fundo, um crucifixo, diante de um Altar, sobre o centro do qual havia um belíssimo ostensório dourado, contendo uma Hóstia Consagrada, com pequenas velas acesas à direita e à esquerda. Um suave aroma de incenso no ar. Diante do Altar, um outro toqueiro estava prostrado, também descalço e usando o hábito franciscano, muito concentrado. Quando fechamos a porta, ele se voltou e me viu. Era moreno, de feições suaves. Logo abriu um sorriso e sussurrou: “Eu sou o Irmão Marcos, que o atendeu ao telefone...”. - Irmão João Paulo se voltou para mim, eu e ele de joelhos, e falou baixinho, para não atrapalhar a adoração do seu irmão de fé: “Aí está Jesus Sacramentado, nosso Deus amado...”. Eu olhei e vi que ele se referia à Hóstia Consagrada, e me lembrei do que o padre dizia sempre, quando eu ia à Missa, enquanto erguia a Hóstia, na hora de Eucaristia: “Eis o Cordeiro de Deus; eis aquele que tira os pecados do mundo”...




Não sei por quanto tempo ficamos ali, prostrados diante do Altar, sobre almofadinhas espalhadas sobre um bonito tapete oriental. O perfume do incenso envolvendo todo o ambiente, aquele clima de paz e silêncio absolutos reinando... Minha mente imediatamente se aquietou de todos os meus habituais questionamentos, todas as dúvidas e indagações. Havia apenas o silêncio, apenas um ser/estar e nada mais. Esse foi um dos momentos em que eu tive a mais completa e perfeita certeza de que um DEUS existe, e que buscá-lo é mais importante do que tudo. E tive certeza de que esse DEUS é maior do que tudo. Eu tive a certeza de que esse DEUS é, realmente, Amor.

Quando saímos da Capela, de alguma forma eu havia atingido uma compreensão fundamental: o Amor importa mais que o entender, o querer explicar. Toda a lógica e compreensão humanas desmoronam diante da grandiosidade da certeza daqueles que possuem a verdadeira fé. Perguntei ao irmão João Paulo: “A adoração que vocês fazem, é como meditação?” – Ele respondeu: “Não. Adoração é como amar intensamente, com muita concentração. No começo eu também não sabia fazer isso, mas pedi para Jesus me ensinar, e agora eu sei”...

Eu não tinha vontade de ir embora. Queria ficar ali, na companhia daqueles lindos e amorosos seres para o resto da minha vida. Eles eram felizes, simplesmente. Não eram questionadores, como eu, mas a fé que eles tinham era muito maior do que a minha ou do que qualquer outra coisa que eu jamais conhecera até então. Eles não acreditavam, apenas: eles sabiam! Não tinham apenas a fé comum, aquilo que imaginamos quando ouvimos falar de religião: eles tinham certeza! Uma certeza que os fazia abrir mão de tudo, em troca de algo que eles conheciam intimamente: cumprir o mandamento maior de Jesus. Eles me pareceram ser exatamente como os primeiros cristãos, das primeiras comunidades. Aqueles que iam para o martírio, para serem executados nos circos romanos, devorados por leões ou apedrejados até a morte, sorrindo e cantando louvores, ou então orando por seus assassinos, com a plena certeza de que estavam indo para um lugar melhor.

Eu senti algo real ali, muito maior e mais forte do que jamais sentira. Eu tinha compreendido o significado das palavras daquele Jesus que eu tanto buscava, pela primeira vez na minha vida.



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