Uma nova Luz - conclusão


Na noite seguinte, conseguimos (eu e Hana) chegar no horário certo para a Meditação Cristã em grupo, antes das 20 horas, e fomos festivamente recebidos pelo grupo que se reunia às quartas feiras, dirigido pelo Sr. Paulo. Esse grupo, logo percebemos, era mais homogêneo, constituído exclusivamente por membros católicos. Logo ficamos sabendo que o que víramos na noite anterior fora uma espécie de encontro meditativo inter-religioso. Paulo gostou muito de saber que eu já tinha experiência com a meditação, mesmo que adquirida de outras tradições religiosas. "O objetivo é sempre o mesmo, e as técnicas também são muito parecidas", disse ele. Nos explicou, brevemente, algo acerca da tradição da meditação na história do Cristianismo. Falou de John Main, Dom Lawrence Freeman e outros grandes entusiastas da prática nos tempos modernos. Me mostrou também alguns livros que ele carregava na pasta, casualmente, sobre o assunto, e me perguntou se os queria emprestados. Respondi que sim, e ele me avisou, em tom brincalhão: "Mas esses livros são difíceis de achar, eles têm que ir e voltar, heim?" - Logo depois me disse que o livro mais interessante para eu ler sobre o tema seria o legendário "A Nuvem do Não Saber", escrito no século XIV por um monge inglês desconhecido, e considerado uma verdadeira obra prima do conhecimento espiritual em todos os tempos (Como é que eu nunca tinha ouvido falar nesse livro, logo eu que pesquisei tanto??).

Conversamos um pouco sobre as semelhanças entre as diferentes linhas de meditação que surgiram ao redor do planeta, desde o início da civilização humana, suas origens, causas e conseqüências históricas. Parecia que era mesmo impossível a Busca pelo Transcendente sem esses momentos de pausa, uma espécie de "reiniciar a máquina", para podermos continuar, revigorados, nossas Jornadas. Paulo explicou que na Meditação Cristã tradicional inicia-se a prática com a recitação e repetição mântrica da palavra "Maranata", que em aramaico (língua falada por Cristo) significa "Vinde, Senhor", ou "O Senhor vem"; soletrando-se sílaba por sílaba, pausadamente: "Ma - Ra - Na - Ta... Ma - Ra - Na - Ta..." - começando em tom de voz normal e diminuindo-se a entonação, gradativa e suavemente, até o silêncio total e a repetição continuar apenas mentalmente; até que por fim a recitação desapareça, naturalmente, e com ela, as próprias agitações mentais...

As luzes foram abaixadas, depois uma breve oração. Paulo tocou um sininho ressonante (o mesmo que os budistas usam), e a sessão começou. Permanecemos todos em silêncio por meia hora, ou um pouco mais. Estávamos no final da Quaresma, uma semana antes do início da Semana Santa; por isso, logo após a sessão de meditação, foram feitas recitações de orações católicas tradicionais, e depois a leitura de um trecho dos Evangelhos que narra o suplício e o sofrimento de Jesus no Monte Calvário. Após a leitura, Paulo pediu a todos que ficassem à vontade para comentar o texto. Achei curioso, porque eu mesmo, nas minhas sessões de meditação solitária, sempre tive o hábito de ler algum trecho da Bíblia, de algum Sutra ou mesmo abrir algum livro que estivesse lendo no momento e que considerasse inspirador, e ler algumas linhas, para depois refletir sobre o assunto. Algumas vezes eu até escrevia, tentava passar minhas reflexões para o papel, um exercício bastante agradável e produtivo.

As pessoas então começaram a falar. Logo percebi uma coisa que me desagradou: Alguns dos freqüentadores mais antigos começaram uma pequena e sutil "disputa", pra ver quem falava mais, ou primeiro, ou quem conseguia falar mais "bonito"; em tentativas infantis de impressionar os colegas. Sinal que alguns não meditaram de verdade, porque a verdadeira meditação também dá seus frutos... Lembro-me de uma senhorinha muito simples, já idosa, que comentou (sobre a leitura): "Pois é... Cristo sofreu tanto, à toa, né? O mundo continua uma perdição só...".

Toda a sessão (meditação, oração, leitura e reflexão) durou pouco mais de uma hora. Bem pouco para alguém acostumado a participar de sessões de até sete horas de meditação contínua. No final, todos os membros nos saudaram e pediram que voltássemos mais vezes. Paulo nos emprestou dois livros que tratavam dos princípios básicos da Meditação Cristã.

O que eu achei: Gostei, mas confesso que, na ocasião, achei um pouquinho decepcionante. Já que a Vida parecia estar me "empurrando" na direção do Cristianismo, e agora eu tinha descoberto que a Meditação (que eu considerava fundamental) fazia parte da tradição cristã, eu fui para aquele encontro achando que seria uma experiência maravilhosa, mágica... E não foi. Foi apenas mais uma experiência comum, mais uma sessão de meditação em grupo da qual eu participei. O que já é uma linda coisa, sem dúvida, mas...

Além disso, eu estava acostumado às tradições orientais, onde há todo um misancênio, um certo "clima de mistério" bacana: música, aromas, ritualística requintada... todo tipo de "adorno" para enfeitar a prática em si. Ali, naquela sala do complexo do Mosteiro São Bento, não havia tanta pompa. Nenhum espalhafato. Apenas a meditação, pura e simples. Outra coisa que estranhei: o grupo era formado por pessoas muito simples. Ali ninguém conhecia sânscrito nem termos em línguas exóticas. Ninguém estava muito preocupado com rituais elaborados, como nas escolas e templos que eu havia freqüentado antes. Até as suas falhas eram simples. Como aquela senhora dizendo que Jesus passou por tanto sofrimento "à toa"(!). Naquele momento, eu não me contive e disse: "Se não fosse por esse sacrifício, não estaríamos reunidos aqui, hoje. Afinal, a base fundamental do catolicismo não é a Ressurreição?" - Mas fui completamente ignorado. Era como se eu estivesse falando grego, para ela. Paulo me olhou, nessa hora, e não disfarçou um sorriso divertido. Era como se ele soubesse de algo que eu então nem desconfiava. Mais tarde, reservadamente, ele me diria: "Essas coisas são assim mesmo. Precisamos ter paciência e não julgar os irmãos mais simples..." Eu respondi: "É que eu, que não sou católico, não posso compreender como uma suposta católica praticante pode pensar assim..." Ele apenas sorria, e eu pensava: "É por isso que a Igreja perde tantos adeptos, ultimamente. São 'desencanados' demais...". Em todos os templos que freqüentei, fossem japoneses, chineses, tibetanos ou hindus, todos sabiam exatamente o que estavam fazendo, na hora das práticas. Aquele tinha sido o primeiro lugar onde encontrei praticantes que pareciam não saber (e não se importar com) o que significava o que faziam, e nem mesmo porque estavam ali, para começar. Isso me irritava um pouco, e logo me lembrei dos motivos porque tão cedo abandonei o Catolicismo.

Hana também pensava assim, embora ela seja muito mais branda do que eu, no seu jeito de ser a agir. Minha impulsividade, ao longo desse Caminho, às vezes me ajudou, outras me atrapalhou, mas com certeza perdi muitas coisas importantes por causa dela. Mas a minha visita não seria em vão (não mesmo, como verão mais tarde). Naquela mesma noite, na saída da prática, passando pela secretaria da Universidade São Bento, descobrimos que aquela instituição estava promovendo um curso livre de canto (para coral de orquestra) aberto ao público leigo. E no mesmo edifício onde se praticava a meditação, o da Universidade. Eu e Hana logo nos interessamos. E nos inscrevemos.

As aulas seriam no mesmo dia e horário das reuniões de meditação, então não poderíamos mais participar delas. Mas àquela altura eu achava que realmente não iria perder tanta coisa, e que aprender a usar a minha voz como um "instrumento musical" seria muito mais interessante e até mais importante, naquele momento. Eu estava certo e errado, como ficará claro mais adiante.



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