A Sociedade Teosófica


Este é o belo lema da Sociedade Teosófica:

“Não existe religião superior à Verdade”.

Concordo. Plenamente. Como também me agradam, e muito, os objetivos “oficiais” da Sociedade Teosófica:

1) Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor;

2) Encorajar o estudo da Religião Comparada, Filosofia e Ciência;

3) Investigar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no homem.

Como eu já conhecia e tinha sido membro do grupo de estudos “K”, que propõe a discussão da filosofia pura, tendo como “patrono” Jiddu Krishnamurti, e também baseado no que eu conhecia das histórias do próprio Krishnamurti, Madame Blavatsky e Annie Bessant (membros famosos – ver links no post anterior), cujas biografias eu tinha lido muitos anos antes, me empolguei em finalmente conhecer a Sociedade Teosófica...

Além do lema coerente e dos objetivos nobres, a Sociedade Teosófica (daqui pra frente, chamada ST) tem uma história bastante interessante: Foi fundada em 1875 pela própria Helena Petrovna Blavatsky, que definiu a Teosofia assim, entre outras palavras: "A palavra Teosofia significa, essencialmente uma autêntica vivência ou realização direta da Verdade” (a 'minha cara!..’). Mais ainda: O site oficial também diz que "A palavra Teosofia significa, em essência, o verdadeiro e puro Altruísmo ou Sabedoria. Cabe lembrar ainda que a ST não define o que seja esta Sabedoria, pois, se o fizesse, estaria formulando uma doutrina, e a aceitação desta doutrina não implicaria na realização da Teosofia, mas, tão somente, na adoção de um novo credo". – Cada vez melhor, eu sei... Mas ainda não era só isso que me atraía. Transcrevo, a seguir, alguns princípios básicos da Teosofia:

# Sabedoria e conhecimento são coisas diferentes. Ao afirmarmos que a Teosofia é sabedoria, não podemos alegar que ela é uma "possibilidade de conhecimento". O conhecimento é uma representação intelectual do mundo. A sabedoria é uma habilidade ou destreza para lidar com o mundo.

# O conceito de "verdade" é extremamente controverso e não deveria ser aplicado à definição do campo de trabalho do teosofista. Cada um de nós tem uma percepção muito pessoal acerca do que acontece ao nosso redor, e essa percepção é o que chamamos de "realidade". A "verdade" é aquilo que acontece de fato e a realidade é apenas a parcela que somos capazes de perceber da verdade. Só podemos conhecer o real, e eventualmente intuir o verdadeiro (perfeito, e tem a ver com o ‘comentário da semana’).

# Se aceitarmos a tradução da voz grega "theoi" por "deuses", estaremos fugindo de um esclarecimento oferecido por Platão, e referido por Blavatsky. Ele deriva "theós" de "theô" (verbo que significa "correr" - como objetos em movimento ou como linhas imaginárias) e descreve os "theoi" como os "moventes", relacionando-os aos planetas, que são "estrelas" móveis. O sentido de "theos", na palavra teosofia, seria, portanto, mais para "móvel", ou "dinâmico", do que para "divino". Isso faz sentido se pensarmos que a sabedoria só se revela na ação. Não existe sábio na teoria, mas apenas na prática - a sabedoria é dinâmica por definição. Cabe esclarecer também que só quem dava importância aos deuses, na Antigüidade, eram os sacerdotes. Os muitos deuses e deusas são retratados nos mitos relacionados aos Mistérios como inimigos da Humanidade. Por que razão haveriam os teosofistas de homenageá-los agora?

O termo "Teosofia" também foi utilizado outras vezes antes de ser remodelado por Helena Blavatsky, como pelo filósofo Jacob Boehme, no século XVII, e também Jâmblico, Porfírio, Proclo e outros pensadores antigos. Mas este tema é complexo demais para ser abordado aqui, agora. O que tentei fazer, até aqui, foi deixar o mais claro possível quais eram as minhas expectativas ao chegar na loja central da ST em São Paulo, que fica no bairro oriental da Liberdade. A partir de agora descrevo a minha visita:

Por meio de um telefone que encontrei na internet, eu já sabia que, na época, a loja da Liberdade (na verdade, existem duas naquele bairro, mas não muito próximas uma da outra) promovia reuniões informais, com palestras, às terças feiras. Chegamos ao endereço um pouco ressabiados, eu e Hana, porque essas reuniões eram à noite, e o endereço fica num ponto não muito agradável do bairro oriental, uma região um tanto quanto decadente, já não tão bem freqüentada quanto em épocas passadas.

Era uma grande casa antiga, com um amplo salão na parte da frente e um corredor lateral à direita, que dava para uma pequena fonte, logo ao lado da porta de entrada para a recepção e um salão menor (mas não pequeno), onde eram realizados os encontros semanais. O portão estava aberto, e assim fomos entrando, devagar, sem saber muito bem o que nos esperava. Logo ao adentrar o salão de palestras, posso dizer que fui tomado por um sentimento de nostalgia, uma sensação muito forte de “retorno ao passado”. Percebi, num canto, um jogo de sofás em formato geométrico, com encostos angulares e revestidos em napa de cor vinho, daqueles típicos da década de 70. “Meu pai comprou um muito parecido com esse, quando eu era criança”, falei ao ouvido de Hana. Mas não era só isso. Toda a decoração, todas os objetos que se viam no local, eram dessa mesma época: móveis, vasos sobre as mesas, as cadeiras... Tudo tipicamente anos 70. Tinha até flor de plástico! O lugar parecia uma espécie de museu temático... Logo que entramos, um homem que conversava com uma senhora, no outro lado da sala, nos viu e acenou, como quem diz “Já vou falar com vocês”... Ficamos pr ali, observando livros numa estante, a maioria da editora Record. Peguei alguns e folheei. Páginas amareladas... Não resisti. Olhei as datas de edição e confirmei o que era óbvio: Todas eram de um período entre 1971 e 1976! Brinquei com Hana: “Isso está parecendo o 'túnel do tempo'! Será que voltamos ao passado?” - Ao que ela (bem) observou: “Só não diria isso porque, se assim fosse, os livros e os móveis estariam todos novos!” – e me deu uma piscadela. De fato, as condições do sofá (com um grande rasgo no acento) e dos outros móveis eram precárias, embora eu soubesse que na época em que haviam sido adquiridos eram muito chiques. Era como se o auge da ST no Brasil tivesse ocorrido na década de 70, e de lá pra cá tivessem parado no tempo.

Depois disso fomos observar uma série de quadros que estavam na parede principal. O maior deles, bem ao centro, representava o emblema da Sociedade Teosófica, uma cruz “ansata” (ou ankh) dentro de dois triângulos sobrepostos e opostos, inseridos numa serpente que morde a própria cauda, em cuja ponta há uma cruz suástica. Ao lado deste, diversos retratos de místicos, membros célebres da ST e grandes vultos da história antiga: Pitágoras, Henry Stell Olcot, Raimundo P. Seidl (fundador da ST Brasileira), Annie Bessant, e, claro, Blavatsky, além de outros que eu não pude identificar.

O homem que nos cumprimentara ao chegar se aproximou. Apresentou-se como Erasmo, parecendo muito animado com a nossa chegada (talvez porque pouquíssimas pessoas tinham comparecido para a palestra). Aparentava uns 50 anos. Era branco, alto, tinha olhos claros e cabelos grisalhos encaracolados. Estava vestido de um jeito simples, e nos perguntou se conhecíamos alguma coisa a respeito da Teosofia. Falei pra ele o que eu sabia, ele respondeu que eu conhecia mais do que a maioria, mas que ainda tinha muito para aprender. Uma dúvida que eu tive a oportunidade de sanar ali foi a respeito da origem do termo “loja” para designar o local de encontro dos estudantes. Segundo Erasmo, essa expressão remonta aos primeiros anos da nossa era, quando sábios viajantes de diversas partes do mundo marcavam encontros nas rotas de comércio, para trocar experiências e conhecimentos sobre magia e esoterismo. Havia, inclusive, numa das paredes do fundo, um grande mapa mundi mostrando essas rotas, de onde se viam linhas unindo Egito, Palestina, Europa, China...

Ficamos por um bom tempo, eu, Erasmo e Hana, batendo um papo animado. Falamos inclusive sobre alguns aspectos da minha busca, e eu contei que estava ainda procurando “a minha turma”, algum grupo que se interessasse em estudar os mistérios da vida, independente de misticismo ou sectarismo religioso/dogmático. Ele se empenhou em garantir que ali eu encontraria o fim de minha busca. Garantiu que os teósofos têm por costume não subentender verdades, e muito menos aceitar crenças prontas, vindas desta ou daquela religião ou tradição. Falou ainda que a superstição era por eles renegada, e que a grande premissa do grupo é a busca pela Verdade, independente de sectarismo, conforme reza o seu lema. Isso tudo me deixou bastante animado. Logo ele pediu licença e se afastou, pedindo que nos acomodássemos em alguma das muitas cadeiras vazias (apenas umas quatro ou cinco pessoas tinham comparecido para a reunião), que a palestra iria começar. Hana me olhou, sorriu e disse: “Será que dessa vez encontramos o nosso caminho?”... O palestrante subiu ao púlpito, levando um calhamaço de folhas e pastas debaixo do braço. Era uma figura curiosa, que parecia um personagem de história em quadrinhos. Um senhor dos seus 65 anos, alto, cabelos completamente brancos e muito longos, presos atrás da nuca num elegante rabo de cavalo. Calças jeans, camisa escura de mangas longas, abotoadas, e botas pretas, impecavelmente lustradas. Tinha um jeito altivo de caminhar, uma postura nobre, tipo lorde inglês. Só a sua voz destoava do conjunto, rouca e um pouco aguda. Mas antes que ele começasse a falar, Erasmo tomou a palavra:


“Antes de começar a palestra, irmãos e amigos, façamos a nossa oração...” – Olhei para Hana, tentando entender. Mas ele acabara de falar que Teosofia não é religião, e sim uma fraternidade de estudantes que busca a Verdade(?)... Bem, talvez fosse algum tipo de oração universal, eu pensei, sem menção a religião... – A oração foi assim: “Pedimos a Maitreya, nosso irmão de luz, que nos ajude. Que Parvati esteja conosco nessa noite, nos protegendo e guiando, Que todos os deuses e deusas que protegem e guiam a humanidade sejam louvados e nos auxiliem, que abram o nosso entendimento para a absorção das verdades que vamos estudar...”. Agora era Hana que me olhava de lado, imaginando o que eu deveria estar pensando. Eu entendia cada vez menos. Maitreya é o “Buda do futuro” (representado na foto acima, ao lado dos seus discípulos – é o Buda que, segundo algumas linhas, virá para dar continuidade ao trabalho começado por Sidarta Gautama, chamdo Sakiamuni ou Buda histórico, conhecido por todos), uma figura controvertida nas diversas linhas do budismo (nem todos os budistas aceitam). Já Parvati é uma deusa hindu, esposa de Shiva, o destruidor, e mãe do Ganesha (aquele que tem cabeça de elefante)... Estudar essas coisas, a título de conhecimento, ok. Mas começar uma reunião fazendo pedidos e rendendo louvores “aos deuses” era a última coisa que eu esperava de uma entidade que tinha como lema “Não existe...”... Ah, vocês já conhecem o lema.

A palestra começou, finalmente. E tema era: “As Profecias de São Malaquias”.

São Malaquias foi um monge e bispo cristão que viveu no século XII (amigo de Bernardo de Claraval (ou Clairvaux), o fundador da legendária Ordem dos Cavaleiros Templários). Foi canonizado pelo papa Clemente III em 6 de julho de 1199. Sua festa é celebrada em 3 de novembro. Muitos milagres foram atribuídos a São Malaquias, mas ele também era conhecido pelo seu dom da visão do futuro, sendo que se tornou célebre principalmente por ter escrito uma série de profecias que muitos pesquisadores associam a eventos do final dos tempos. Segundo São Bernardo, São Malaquias anunciou o dia exato de sua morte (dois de novembro) estando com ele na abadia de Clairvaux. No museu do Vaticano foram encontrados textos manuscritos seus, contendo a sucessão de papas desde a época em que ele viveu até o fim dos tempos. Constam essas profecias de uma lista de 112 sentenças curtas, supostamente fornecendo os caracteres dos papas católicos, desde Celestino II, em 1143, até aquele que seria o último dos pontífices, Pedro II, que viria a ocupar o trono do Vaticano no meio de extremos sofrimentos mundiais.

A citada lista é composta pelos nomes dos papas, sendo que para cada nome há um lema atribuído a ele. Este assunto é bem interessante, sem dúvida, mas existem aí dois problemas: O primeiro é que a autenticidade das profecias é contestada. Para começar, foi muito discutido se São Malaquias é o verdadeiro autor das profecias. Alguns historiadores acreditam que o manuscrito original foi escrito até o século XVI. Se São Malaquias é o autor das profecias, então elas ficaram desaparecidas por mais de 400 anos. No século XVII, o Padre Menestrier, jesuíta, cogitou a hipótese de uma das profecias ser um plágio para influenciar as eleições de Gregório XIV no conclave de 1590. O lema que corresponde a este papa na profecia é "Antiquitate urbis", que faz uma alusão a sua cidade natal e sede episcopal, Orvieto. Mas essas questões não foram citadas na palestra. Apenas foi dito lá que as profecias são autênticas, acima de qualquer dúvida.

O segundo problema com relação às profecias é que, pelo fato de os lemas terem sido escritos em tom velado, obscuro (semelhante à forma das quadras de Nostradamus, escritas de maneira cifrada), elas precisam ser interpretadas. Durante a palestra, a livre interpretação era sempre “forçada” para se adaptar aos acontecimentos históricos. Exemplo: O lema do papa Pio XVII é “Áquila Rapax”, ou seja, águia de rapina. Interpretação – Esse papa viveu sob o domínio militar de Napoleão Bonaparte, cujo símbolo foi uma águia imperial. Pio XII recebeu o seguinte lema: “Pastor Angelicus”. Interpretação: Este papa, reinante em 1942, era um grande amante da ciência, especialmente das ciências que estudavam os céus (ou seja, a morada dos anjos). Já a legenda de João XXIII é: “Pastor et Nauta”. O termo Nauta (timoneiro), segundo a interpretação do palestrante da Sociedade Teosófica, se refere à Veneza, cidade alagada, onde nasceu este papa. Sobre o papa que viria depois do atual Bento XVI (de nome Petrus II), a legenda é a seguinte: Tu, in desolacione suprema sede. Ecce Petrus Romanus, ultimus Dei veri Pontifex! Tradução: "Na suprema desolação do mundo, reinará Pedro, o Romano, o último papa do Deus verdadeiro!". Para quem quiser saber mais sobre a lista de papas atribuída a São Malaquias, aqui tem um link interessante .

Terminada a preleção, o palestrante perguntou se alguém tinha perguntas, mas a partir daí o assunto se desviou completamente. Os membros mais antigos da ST brasileira passaram a fazer perguntas (que mais me pareceram chamados a uma disputa para ver quem sabia mais) sobre temas como magia e esoterismo, Grande Fraternidade Branca, Mestres Ascencionados e etc. Depois da palestra, fomos convidados, eu e Hana, por Erasmo e sua esposa, a participar de um pequeno lanche. Aceitamos, e fomos conduzidos à cozinha da casa, à qual chegamos depois de cruzar um longo e escuro corredor, que saía dos fundos do salão de palestras. Dali daquele aposento podíamos ver que aquele era mesmo um casarão antigo imenso, que no passado deve ter servido de morada para algum milionário. A cozinha era maior do que muitos apartamentos atuais inteiros. Ali, entre uma bolacha de água e sal e um pedaço de bolo de fubá com uma xícara de chá, fomos convidados a participar de uma celebração da ST que ocorreria no próximo domingo, com cânticos e recitação de versos. Observaram que Hana tinha uma voz muito bonita, que seria muito bem vinda a participar da leitura nas celebrações e etc. Nos passaram uma folha com a letra de um cântico. Mais uma vez, louvores a deuses do panteão hindu, a Maitreya, às “Hierarquias Celestes Superiores”, e etc. Fiquei sabendo que o palestrante (o do rabo de cavalo), o Sr. Carlos (não cito aqui o nome completo porque não estou autorizado), era na verdade um conhecido escritor, com diversos livros publicados pela Editora Madras (o último deles sobre Pitágoras), e, depois de algum tempo de conversa, me incentivou a tentar publicar meu próprio livro, dizendo que me ajudaria no que pudesse. Todos foram muito simpáticos, extremamente receptivos.

Voltamos pra casa carregados de folhetos e jornaizinhos da ST, e inúmeros pedidos para que retornássemos outras vezes. E, mais uma vez, terei que concluir essa história na próxima postagem.



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