Reino do Céu?




Naquele dia eu não fui trabalhar. Fiquei até tarde na companhia dos “irmãos” da Toca, querendo aproveitar até o último minuto aquele ambiente onde reinavam uma paz e uma harmonia tão grandes que parecia que não era 'de verdade'. Normalmente estamos tão acostumados a ver e conviver com a feiúra neste mundo, que quando nos deparamos com algo realmente belo e puro, tendemos a duvidar. E eu queria permanecer na companhia daqueles seres quase angelicais o máximo de tempo que pudesse. No começo da noite, porém, em torno das 19h (depois de algumas horas de visita que me pareceram poucos minutos), eu anunciei que estava indo embora, sob os protestos de Irmão João Paulo: “Ahh, mas já?!”.

Falei que gostaria de ficar mais tempo, mas precisava mesmo ir, afinal eu morava “no outro lado do mundo”, e o caminho de volta seria uma nova viagem (e agora estava escuro). Nessa hora João Paulo me perguntou onde eu morava, e depois que respondi, me deu uma informação desconcertante: haviam casas de fraternidade da Toca de Assis espalhadas por toda São Paulo, inclusive nos bairros da Mooca e Tatuapé, bem próximas de onde eu morava!.. Precisei fazer toda aquela jornada para conhecer esse pessoal e o seu trabalho, sem saber que poderia tê-los conhecido sem ter passado por tantas dificuldades e desencontros...

Mas a aquela altura eu sabia, sem nenhuma dúvida, que tudo aquilo era parte de um processo maior e que todo o meu esforço para encontrá-los fazia parte de algo como um 'plano' divino. Aquele dia tinha sido, para mim, uma verdadeira peregrinação em busca do Sagrado. E todos os elementos conspiraram para tanto: o calor, a chuva, as dificuldades, a distância, os perigos do caminho, os descaminhos num lugar desconhecido... Até finalmente acontecer o encontro.

Mas não precisei me aventurar para ir embora. Outro toqueiro, o 'motorista oficial' da casa (encarregado de buscar doações de alimentos e roupas e outras tarefas externas), me ofereceu carona, num fusquinha bege, que pertencia à casa, um “pau velho” sem conserto (ano 1974/75, em péssimo estado). Aceitei, aproveitando que eles tinham uma visita pra fazer e iam passar próximo a um ponto de onde eu poderia tomar um ônibus direto para o centro da cidade. E lá fomos nós, eu e mais quatro toqueiros, espremidos no fusquinha caindo aos pedaços, - que parecia que ia se desmanchar todo no meio do caminho.

Me deixaram no ponto de ônibus porque estavam com pouquíssima gasolina (senão teriam me levado até minha casa), e depois de mais uma farta distribuição de abraços e pedidos pra que voltasse outras vezes, nos despedimos.

No caminho de volta, eu me encontrava num estado letárgico. Havia descoberto, no simples, as coisas grandiosas que eu tanto buscara nas complicações dos teóricos, teólogos e mestres... E estava tão somente feliz. Sentia-me como se tivesse 'visto', de uma certa maneira, o Deus que eu tanto buscara desde a minha infância.

Cheguei na Praça da Bandeira (região central) pouco depois das 20 horas. O local do meu trabalho ficava ali próximo, e ainda teria dado tempo para ir trabalhar, chegando com um pouco de atraso. Mas acontece que eu simplesmente não estava em condições! Minha mente e minha alma estavam num outro nível, completamente diferente... Depois de um telefonema para a empresa, avisando que não poderia comparecer por motivos particulares, fui pra casa. Quando cheguei, Hana me recebeu com a tranquilidade que lhe é peculiar, nem se importando por eu ter faltado ao trabalho (Almas gêmeas = interesses em comum, prioridades iguais. Ela queria era saber da minha experiência). A primeira coisa que ela disse, quando me viu, foi: “O que houve com você? Está diferente... parece iluminado!” - Eu respondi: “Dá pra notar?” – E ela: “E como!.. Seu rosto está transformado, parece que emana luz!!”

Eu só pude me deitar no sofá, num estado de torpor que não deixava espaço para mais nada. Um efeito colateral da minha experiência... Contei pra ela tudo que tinha acontecido e ela se emocionou comigo (como ficou emocionada quando leu o último post e relembrou daquele dia)... Ela se sentou ao meu lado, eu deitei minha cabeça no seu colo e falei de como estivéramos longe da Verdade que tanto buscávamos, procurando em filosofias exóticas e nos misticismos complicados o que aquelas pessoas admiráveis haviam encontrado, assim, no mais simples dos caminhos: a humildade e o serviço ao próximo.

Trocamos apenas algumas palavras, e depois ficamos em silêncio, curtindo a nossa paz, sem precisarmos nos comunicar, sem ligar a TV ou fazer qualquer outra coisa, apenas aproveitando o silêncio, aquela sensação maravilhosa que eu experimentava e que ela parecia poder sentir também, acariciando o meu cabelo e dizendo, vez em quando, que eu estava “iluminado”... Ficamos assim até a madrugada, quando o sono veio e naquela mesma posição acabamos dormindo.

Claro que Hana fez questão de também conhecer os toqueiros, algumas semanas depois, quando fomos visitar a 'Casa Fraterna São Pio', na Mooca, pertinho da nossa casa. Outra experiência maravilhosa. E foi assim que começamos a prestar serviço voluntário na Toca de Assis, ajudando em algumas das diversas tarefas em que eles precisam, regularmente. Aconselho a todos que experimentem fazer isso. Conheço muitas pessoas que dizem que gostariam de fazer algo pelos menos favorecidos, mas não sabem como. Está aí uma ótima oportunidade.

Mas esse post não é sobre a Toca, e sim sobre o efeito que tê-la conhecido provocou em mim. Eu fui, literalmente, transformado. Porque senti que aqueles rapazes jovens e simples, em sua extrema humildade, tinham descoberto o Caminho muito naturalmente... enquanto que eu, o buscador “erudito”, o pesquisador, ainda que tivesse adquirido belas experiências e vivenciado coisas importantes, não chegava nem perto da sua grandeza. “Quem quiser ser o maior faça-se o menor, e o servidor de todos” (Marcos 10, 46), diz o Senhor Jesus . Eu tinha feito a constatação desse princípio por mim mesmo. E meus pontos de vista mudaram.

Algum tempo depois de tudo isso, encontrei o Roberto, aquele meu antigo companheiro do grupo de estudos “Satsanga Guruji”. E percebi que não tinha mais paciência para todo aquele papo sobre técnicas yogues e processos depurativos do corpo, etc, etc... Falei pra ele: “A verdadeira prática espiritual não é nenhuma dessas. Devemos dissolver nossos egos, sim, mas no próximo, no modo como vivemos as nossas vidas no dia-a-dia! Esta é que é a verdadeira dissolução no Todo, que você procura! Tudo acontece de dentro pra fora, e não de fora pra dentro”. Ele se impressionou com a minha segurança, porque agora eu não falava mais em hipóteses, em possibilidades. Eu falava com a certeza de quem não imagina apenas o que há por trás da porta, mas alguém que sabe o que existe lá, porque já abriu essa porta e verificou por si mesmo. Quando me pediu detalhes, e eu expliquei tudo, ele disse apenas: “Uma instituição católica!?” E rapidamente perdeu o interesse.

Preconceito? Na plena acepção da palavra: pré-conceito. Mas, quer saber? Também eu teria pensado assim, antes. Puxa, como era possível ter encontrado o que estava procurando numa entidade católica? “Católicos não têm nada a ver” – eu pensava. “São frios, incoerentes... isso sem falar na história da Igreja... Mais cheia de pecados, impossível”. Mas então, por que tantos acontecimentos importantes me levavam justamene a este caminho?


Recapitulando meu passado recente (ou ‘Anteriormente em a Arte das artes’...):

Minha busca me levou, através de uma sucessão de acontecimentos marcantes e Sinais (alguns inexplicáveis), até aquele que, consciente ou inconscientemente, sempre considerei como o Mestre dos mestres: Jesus. Isto é, tudo que ele diz sempre me pareceu perfeito, todas as bases, tudo que sempre precisei saber a respeito da Busca, todos as ferramentas de que o buscador necessita... tudo que é essencial, enfim, podemos encontrar nele.

Até aí, tudo bem, mas nunca soube como atender ao seu eterno apelo, seu chamado atemporal: “Segue-me!” E assim, passo a passo, fui levado a conhecer a Fraternidade Toca de Assis, onde conheci, pela primeira vez, na prática, uma maneira de se vivenciar, à perfeição, o Caminho do Mestre.

Agora era esse o ponto em que me encontrava, levado a repensar todas as minhas convicções até então, uma espécie de “reiniciar o sistema” para entender melhor algo que nunca havia sido de fato entendido. - fim da recapitulação.

Algum tempo se passou. Num dia comum, eu, voltando do trabalho, sacolejando dentro de um ônibus quase vazio (só eu, o motorista, o cobrador e mais umas três ou quatro pessoas, no máximo), ali naquele banco desconfortável, refletindo profundamente sobre todas as descobertas que tinha feito em minha busca, até ali.

Lembrei de tudo. Do começo, eu cheio de medos e dúvidas, tentando encontrar Deus na Igreja Católica, a religião dos meus pais. Depois a frustração, e a migração para o Protestantismo. Lembrei das tantas e tantas tentativas fracassadas de encontrar o Caminho e a “minha turma”, pessoas que acreditassem nas mesmas coisas que eu. E dá-lhe frustração... Lembrei das minhas esperanças, pensei no meu primeiro contato com a meditação, a sensação maravilhosa de me sentir bem comigo mesmo e em paz com o Universo! E daí para o Budismo, o Hinduísmo, e as escolas esotéricas... E nada de encontrar as respostas que eu procurava. Finalmente, o encontro com uma juventude que, através da simplicidade extrema, se não me deu todas as respostas, com certeza me fez abrir os olhos para uma realidade maior: “A verdadeira prática espiritual é o Amor”. Esta é a única Lei, o principal requisito necessário para se encontrar e seguir o Caminho. Tudo o mais são conseqüências...

Eu já sabia disso, intelectualmente falando. Eu sabia, mas não compreendia. E a experiência com os toqueiros foi determinante para que eu me “descolasse” um pouquinho do lado racional, e passasse a valorizar mais o lado emocional. Afinal, ser humano algum é só pensamento. Precisamos viver uma harmonia entre pensamento e sentimento, se quisermos ser felizes e saudáveis. E eu acho que vinha sendo indolente com a minha parte emocional, por um bom tempo. Isso provoca dor. Chega um momento em que precisamos aprender a parar, relaxar, olhar para dentro de nós mesmos e escolher entre o que é útil e o que não é. E isso não pode ser feito usando-se apenas o intelecto. É impossível.

Ali, dentro do ônibus, fechei meus olhos, fazendo meus pensamentos cessarem. Logo, estava desconectado de tudo: A paisagem lá fora, o ônibus, o banco duro... tudo sumiu. E fui assaltado, de súbito, por um sentimento de intensa alegria! Sentimento que foi aumentando, aumentando...

Em segundos, eu estava completamente desligado do mundo, apenas apreciando a suprema beleza da existência, uma felicidade puríssima em simplesmente ser, fazer parte da maravilha da vida. E no momento seguinte, já era difícil suportar tanta alegria! Literalmente, eu não cabia mais em mim de contente! Abri meus olhos. Ainda faltavam alguns pontos para o meu, mas eu me levantei e desci do coletivo. Estava como que “embriagado de alegria”, e sentia que precisava fazer alguma coisa, senão iria explodir de tanta felicidade!

Essa sensação era tão incomensurável, me dominava de uma maneira tal, que eu não podia pensar, não conseguia raciocinar direito! Somente existia aquela enorme onda de bem-aventurança, e nada mais...

Gostaria muito de poder explicar o que eu senti, mas infelizmente é impossível. Uma sensação de prazer incomparável, um milhão de vezes maior do que o maior prazer que eu jamais havia experimentado! E o que me levava a essa sensação de sublime plenitude não podia ser detectado, vinha de algum ponto além de mim mesmo, mas que ainda era eu, e que parecia estar, naquele momento, em comunhão com algo maior, incomensurável, infinito...




Fiquei nesse estado de êxtase, sentindo e vendo perfeição em todas as coisas, como se toda a existência exultasse ao meu redor, como se eu fosse o rei do Universo, naquele instante. Sentia que, se quisesse, eu poderia voar, ou andar sobre as águas, ou qualquer outra coisa! Mas aquilo tudo era forte demais, avassalador, e eu já não podia mais suportar sozinho. Tudo que eu queria era dividir com alguém! E não custei a encontrar. Bem ao lado do ponto de ônibus (estava no fim da Av. Dom Pedro II, no Ipiranga) havia uma barraca, onde um rapaz negro, que eu sempre via ao passar por ali, vendia refrigerantes, doces e salgadinhos. Ele era uma dessas pessoas que traz sempre uma expressão “fechada”, dando a parecer que vive eternamente mal-humorado. Mas eu simplesmente me aproximei dele e falei: “Como vai?” Ele me olhou com uma expressão séria, mas em menos de um segundo abriu um grande sorriso e falou: “Tudo bem, e você?” – Logo eu pedi uma coca-cola, e aquele foi o começo de um papo que durou mais de uma hora(!). Ficamos ali, os dois, conversando sobre o tempo, sobre futebol, política, economia... Tudo de um jeito bem simples, ele era um homem do povo, não “metido a besta” como eu. Mas nos tornamos bons amigos. E no desenrolar da conversa, eu senti que a imensa energia que estava em mim era dividida com ele. Não demorou para que ele começasse a falar de suas angústias, de seus problemas amorosos, e eu podia perceber nitidamente que o estava ajudando muito, só de estar ali, dando-lhe ouvidos. Ele esquecia até de atender aos clientes que chegavam. Até hoje, quando passo em frente à sua barraca, nos cumprimentamos, e às vezes conversamos...

Quando finalmente cheguei em casa, naquele dia, meus sentimentos e pensamentos voltavam ao estado “normal”. O êxtase tinha passado, mas o tempo que ele durou foi o suficiente para provocar muitas mudanças importantes no buscador Henrique. Algo importante começava a se cristalizar, dentro de mim. Onde antes haviam dúvidas angustiantes, agora começavam a se estabelecer certezas.

Felicidade é compartilhar. Se Amor é o mais importante, então devemos amar intensamente, mas esse amor não pode ser egoísta, ele tem que ser direcionado aos nossos próximos. Esta é a única esperança da humanidade. Somos todos um, e isto não é para ser dito só da boca pra fora. É o não praticar este princípio sagrado que está tornando o nosso mundo tão terrível. Ainda há muito mais para ser contado.


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