O Fim e o Princípio

Iniciamos as aulas de canto, eu e Hana, juntos, como sempre. O curso livre da Faculdade São Bento iniciou-se com aulas de canto gregoriano, muito legal... Descubri, através de testes, que o meu tipo de voz é tenor, e a de Hana é contralto. Ambos temos vozes graves. A primeira música a ser ensaiada é o famoso cântico monástico "Kyrie" (vocativo da palavra grega 'Kyrios' - Senhor). " Kyri - riê - eeeê - eeeeeeeê - leisom..." ... Maravilhoso.

Era muito bom estudar canto, mas eu continuava, como antes, me sentindo meio perdido na minha vida espiritual, querendo, ainda, descobrir como seguir o Caminho. Não tinha mais aquelas dúvidas fundamentais me atormentando, como já contei aqui, mas ainda me sentia meio... confuso. O que fazer? Para onde ir? Qual o meu caminho, dentro do grande Caminho? Permanecia aquela sensação de que eu deveria fazer alguma coisa, sentia que tinha uma missão a cumprir, nesta vida, mas não sabia exatamente qual era, e muito menos como começar a cumpri-la. Continuava tentando me encontrar...

O fato é que eu já havia tentado, mais de uma vez, até porque era sempre esse o conselho dos meus amigos, viver a minha vida simplesmente, sem me preocupar com mais nada, que tudo fluiria naturalmente. Mas "alguma coisa" sempre acontecia, que me levava de volta a essa Busca infinita, que é por vezes revigorante, energizante, e outras vezes penosa, extenuante; mas raras vezes calma e tranquila. Eu simplesmente não conseguia ficar em paz com esse sentimento de que tinha que encontrar a minha resposta, e que o meu tempo estava acabando... E isso não era porque eu queria! Quantas tentativas anteriores já tivera feito, resoluções de simplesmente acabar com toda essa história de buscar. E de novo e de novo, não conseguia.

Numa tarde eu estava sozinho, na região do Ibirapuera, próximo ao Shopping (um dos) mais elegante de São Paulo. Tinha ido entregar uma pintura naquela região, depois das 17:30 PM, a pedido do cliente. E eu não estava nem um pouco disposto a encarar o trânsito da hora do rush, na volta para casa. Por isso, resolvi entrar no shopping, para "matar" um pouco de tempo até que o movimento nas ruas se acalmasse um pouco. Talvez pegar um cineminha, ou conferir os últimos lançamentos na book store...

Acabei ficando boas horas, como sempre, perdido entre os livros da Saraiva (vocês acham que eu levo jeito pra escrever? Eu leio muuito...) Um título, em especial, pareceu me "saltar aos olhos": "Jesus, o Mestre Interior" (Editora Martins Fontes). Contava a história de um inglês "muito louco" que tinha a Busca por Deus como a coisa mais importante da sua vida, e resolveu entrar para o seminário. Narrava suas primeiras experiências, suas dúvidas e dificuldades iniciais, tudo de uma forma leve e descontraída. Sim, o autor era um monge católico. Só então verifiquei o seu nome: Laurence Freeman. E sim, era o mesmo autor a respeito do qual o organizador do grupo de meditação cristã havia me falado. Mas naquele momento eu não me lembrei disso, simplesmente não associei as coisas. Não comprei o livro porque achei caro, e eu estava sem grana naquele momento. Os livros no Brasil são pornograficamente caros, impostos absurdos em cima de uma coisa que deveria ser muito barata, como nos países desenvolvidos. Depois o Luis Inácio fala um educação... Isso é outro assunto. Naquelas horas que passei na livraria, reclinado confortavelmente naquele sofazão, "devorei" praticamente metade das páginas suaves desse belo livro. Pensei comigo: "Que maravilha, se todos os 'cristãos' pensassem como este homem"...

No dia seguinte, estava no centro da cidade, próximo à famosa esquina da Av Ipiranga com a São João... Percebi um novo sebo, que acabava de ser inaugurado, com muitos livros interessantes em oferta. Claro, entrei pra dar uma conferida. Minha atenção logo foi atraída para um pequeno livro de capa azul, de uma autora desconhecida, com uma introdução na contra capa de ninguém menos que Paulo Coelho, que se declarava amigo pessoal da autora. O título: "Uma Peregrina Aquariana no Reino da Luz". Depois de uma breve folheada, resolvi comprá-lo. Naquela mesma noite, eu li suas 142 páginas inteiras, de um só fôlego! Era uma obra autobiográfica, que contava a história de Regina Sylvia Pugliero, pseudônimo Dhyana, uma autêntica buscadora, cuja vida tinha sido uma verdadeira epopéia, muito parecida com a minha.

Ela iniciou a sua busca ainda na infância. Vejam esse pequeno trecho do início da sua história:

" Foi a minha imagem refletida no espelho a primeira a me perguntar: - 'Quem és?' - E sem que pudesse impedir, refletiu-se em mim a pergunta, e quando me dei conta estava me questionando: - Quem sou? - O mais estranho é o que veio a seguir, quando sem entender como era possível, não encontrei respostas para esta indagação: - Meu nome é Dhyana, tenho 11 anos, minha mãe se chama Emília e meu pai Irizé... - 'E daí? Por que você é você?'"...


Por essa pequena amostra, já dá pra perceber o teor da leitura. O livro conta, de uma forma deliciosamente simples e muito clara, como essa menina virou mulher, entre acontecimentos misteriosos e Sinais impressionantes, buscando a pergunta para essa e outras questões fundamentais da vida (qualquer semelhança comigo será mera coincidência?). O fato é que essa Dhyana hoje é minha grande amiga, já me presenteou com outras obras suas, e temos um encontro marcado para qualquer dia desses, em sua casa que mais parece um retiro espiritual, cercada de montanhas, córregos e natureza por todos os lados, numa cidadezinha maravilhosa no Centro-Oeste do nosso país.

Ainda adolescente, dominada por um sentimento de Amor transcendente, à maneira de Irmã Dulce, ela recolhia mendigos nas ruas e os levava para sua casa, oferecendo banho, alimentação e roupas novas. Seu pai se via louco com ela.. De origem católica, logo direcionou sua busca para outras paragens. Passou por "n" seitas e vivências dentro de diversas tradições religiosas, lançou e por muitos anos publicou a antológica revista "NAVE", verdadeiro ícone dos alternativos espiritualistas da década de 1970. Essa revista era especializada principalmente nas tradições religiosas orientais e esotéricas, que na época do movimento "hippie" se tornaram 'febre' no mundo inteiro.

Dhyana foi hippie, budista, esotérica, depois largou tudo para ir viver numa comunidade alternativa no meio do nada. Praticou meditação, yoga, foi vegetariana radical... Mas em nenhum desses caminhos conseguia encontrar a paz (qualquer semelhança)... Começou a sonhar com anjos a lhe darem orientações precisas do que fazer:

"A mente tranquila é uma mente simples. Quando se coloca idéias requintadas para enfeitar o intelecto, perde-se a clareza, já não se tem mais simplicidade. O mesmo ocorre na vida espiritual. Na busca ansiosa por uma revelação espiritual, entra-se em caminhos complicados, que levam à perdição e a angústia. A Busca espiritual autêntica e direta é aquela em que o peregrino penetra em seu mundo interior, na simplicidade da oração. No contato com a Fonte, com o Pai Celestial, com Cristo, com a Mãe, pode o buscador encontrar a Alegria e a Paz interior, que nenhuma teoria e estudo esotérico tem para oferecer. Portanto, para aquele que está em busca de Deus, que pare e encontre-o em si mesmo, na simplicidade do Eu Sou. Tudo o mais fluirá."

"Você é cruz mas também é estrela. Você é terra mas também é éter. Você é humano mas também é espiritual. Ao carregar sua cruz você desperta sua estrela. Não tenha medo."

"Sua busca parece não ter fim... Como uma mariposa em torno da luz, você ainda teme este confronto direto com sua verdadeira essência. Não tema a Luz, ela não ofuscará seus sentidos. O Fogo é Sagrado, ele consome apenas as ilusões."

Estes são apenas pequenos "aperitivos" deste livro interessantíssimo, da Editora Record, que não é tão difícil de ser encontrado nos sebos da vida. Os que gostam de ler meu blog, com certeza gostariam de ler as aventuras desta minha irmã espiritual.

Mas o mais importante a contar sobre este livro, a sua influência na minha própria Busca, é o seu desfecho. Porque depois de ter vivido tantas experiências impressionantes, em sua busca determinada, Dhyana é levada de volta, mesmo que contra a sua vontade, ao Crisitianismo; onde afirma ter encontrado a Verdade que tanto procurava. Abaixo, um trecho do prefácio de Paulo Coelho:

"A Dhyana que conheci se chamava Regina Sylvia e editava a revista NAVE. Vivíamos numa época em que falar de ocultismo, esoterismo, extraterrestres e ecologia era tarefa para loucos, para raros. Revê-la como Dhyana, católica, morando numa cidadezinha do interior de Goiás e assumindo um apostolado alternativo me surpreendeu, mas colocou meu coração radiante. Vi nesta conversão a marca do inesperado.
Deus, através da Virgem Maira e seus Anjos, imprimiu em Dhyana uma bela história, como imprime em todos que aceitam o Seu chamado com o sim da alegria. 'E é bom manter oculto o segredo do rei; porém, é justo revelar e publicar as obras de Deus' (Tobias 12:7). Este livro é, pois, um relato de uma alma peregrina, uma alma pequenina, que aceitou retornar, como criança, aos braços do seu primeiro amor."



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