Uma nova Luz

Para a minha surpresa, quando o site de busca abriu a lista de links contendo as palavras “grupos de meditação”, olhei e li: “Grupos de Meditação Cristã”, logo no topo da página. Isso me chamou a atenção, como não poderia deixar de ser. Lembro-me de ter comentado com Hana, uma vez, a respeito da possibilidade de me tornar um “cristão praticante”: “Eu teria muita dificuldade em seguir uma religião em que não se pratique meditação”.

Meditação é tudo e nada ao mesmo tempo. É conhecer-se, de fato. É observar e observar-se. É estar dentro e fora ao mesmo tempo, é procurar sem procurar. É largar mão de tudo e ao mesmo tempo encontrar o seu lugar no Universo (Pluriverso?). É ser si mesmo, e ao mesmo tempo "ser Um" com o Pai e com toda a existência... Como diz Osho, "a meditação acontece quando o meditador não está". E praticar isso é muito importante. Essa pausa, esse "deixar o ego ir embora", sempre me pareceu necessário. Nessas horas é que eu era eu mesmo, nesses abençoados momentos era que eu "flertava" com essa Verdade que tanto busquei. Nessa hora é ela deixava de fugir e me escapar, para se sentar ao meu lado, como uma amiga íntima.

Meditação Cristã... Então isso existia? Abri o link e fui parar num site onde havia uma matéria do pesquisador e jornalista Jomar Morais (escreveu durante muito tempo para as revistas Superinteressante, Galileu, Planeta e outras) falando sobre as diversas linhas de meditação (transcendental, budista, yogue, etc.), com especial destaque exatamente à essa linha cristã, por ser uma prática que começava a ganhar força aqui no Brasil (estamos ainda no ano de 2004, na minha narrativa).

A primeira coisa que eu imaginei, quando conheci o termo "Meditação Cristã", foi que se tratava de algum tipo de inovação ou adaptação de um costume oriental à tradição cristã. Mas, lendo a matéria, fiquei sabendo que essas especulações precipitadas estavam muito longe da verdade. A prática da Meditação remonta às próprias origens do Cristianismo. O próprio Jesus teria se retirado ao deserto para jejuar por quarenta dias e quarenta noites, como uma preparação para o início de sua vida pública... É justo e até óbvio imaginar que ele deve ter passado longos períodos em meditação profunda; o que a Igreja viria a chamar, posteriormente (já a partir dos primeiros séculos da nossa Era) de "Oração Contemplativa", simplesmente "Contemplação" ou ainda "Oração Centrante"; em outras palavras, colocar-se só e em silêncio, elevar o pensamento e anular o próprio ego, acalmando os pensamentos agitados do dia-a-dia... E eu vim a saber que os primeiros monges eremitas cristãos, entre eles São Jerônimo, que se retiravam para o deserto afim de viver em completo ascetismo, praticavam meditação. Muita meditação. Além disso, eles viviam, na prática, o que Osho (apesar das muitas discordâncias, eu nunca neguei que ele falou grandes verdades) dizia: "O objetivo maior e real da meditação é que toda a vida se torne meditação" (Livro Orange - Técnicas de Meditação). Não só o momento em que você pára e se senta para acalmar a mente, mas todos os momentos da vida devem ser "meditativos". Na Índia, é comum que yogues, sadhus e "homens santos" façam "voto de silêncio", como uma forma de permanecerem em tempo integral "conectados" à energia divina. Monges budistas também vivem rotinas de silêncio e atenção constantes (aliás, importa dizer que meditar não é 'relaxamento', como muitos pensam. Meditar é permanecer calmamente atento à vida). Não pude deixar de me surpreender ao descobrir que a prática mais importante do Zen-Budismo e do Yoga também era usada pelos cristãos, há séculos.

Havia uma lista de endereços e horários naquela página da Internet (hoje bastante desatualizada). Um em especial me chamou a atenção: "Meditação Cristã no Mosteiro de São Bento - terças feiras às 18:30 horas, quartas às 20 horas". Eu já conhecia a Capela do Mosteiro de São Bento, no centro velho da capital paulista. Sempre que passava em frente ao grande templo, construído em estilo gótico, e estava com tempo livre, entrava para admirar a bela decoração interna. No fundo da capela, ao lado do Altar, está a sala do "Santíssimo Sacramento", uma espécie de "pequena capela dentro da grande capela", com bancos e genuflexórios (ô palavrinha... é só o apoio para os fiéis que preferem orar ajoelhados). Ali, na parede do fundo, há um afresco belíssimo, em estilo medieval, representando Jesus e o "discípulo amado", João, diante da mesa com o Pão e o Vinho sagrados. Muitas vezes me sentei ali para meditar. Algo inexplicável, mas certos lugares são propícios para você simplesmente parar, dar um tempo para si mesmo e elevar o pensamento a DEUS. Mesmo no tempo em que eu tinha uma certa "birra" contra a Igreja Católica, eu achava, naquele lugar, esse tipo especial de paz. Por isso me chamou a atenção saber que ali aconteciam sessões de meditação coletiva todas as semanas.

Na terça-feira seguinte, lá estávamos, eu e Hana. Mas não no horário certo. Nos atrasamos mais de vinte minutos (São Paulo, trânsito, sabe como é...), por isso não pudemos entrar para a sessão. Costume comum em todas as linhas de meditação que eu conheci, quando há prática coletiva, esta não pode ser interrompida depois de iniciada, para a entrada de retardatários, porque isso atrapalha, e muito, a concentração dos participantes. Entramos no prédio da Faculdade (O Mosteiro de São Bento é composto por um complexo que inclui a bela Capela, o Mosteiro em si e a tradicional Universidade de Filosofia e Teologia), mas ficamos apenas diante da porta da sala onde o grupo de meditação se reúne, de onde pudemos olhar o que acontecia lá dentro, pelo vidro da porta. E vimos que lá dentro, na penumbra, gente de todo tipo praticava junta. Alguns estavam sentados no chão, sobre o assoalho, em posição de lótus, ou sentados sobre os calcanhares, à moda oriental; outros estavam acomodados em cadeiras, todos posicionados em formação de círculo no centro da sala. Lembro-me de ter visto uma senhora usando um turbante hindu, que meditava fazendo "puja" (saudação yogue tradicional, com as mãos postas diante do peito). Outros usavam "japa-malas" (rosário hindu) no pescoço. Ficamos muito bem impressionados ao ver aquela diversidade de culturas e origens, representantes de diferentes tipos de fé reunidos para simplesmente meditar juntos. Óbvio, voltamos na noite seguinte.



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