Esvaziar-se é preciso


Transcrevo abaixo mais um trecho do que eu escrevi naquele caderninho, sentado no banco do jardim, sentindo a minha fé e as minhas convicções “escorrerem por entre meus dedos”:

“Ainda que tenha buscado em muitos lugares, por muitos países, primeiro fora; e, após isto tenha buscado incessantemente em muitos outros lugares, por muitos países, dentro de mim (Isto começou aos meus 4, e continua até hoje, faltando 17 dias para meus 37)... Eu não encontrei a paz.

Ansiei tanto por ela, mas nunca a encontrei... Ouvi falar dela, acreditei que ela existe, encontrei mesmo seus vestígios, cheguei a ver o seu rastro. Mas não a vi de frente. Não segurei a sua mão, ela não me chamou de amigo nem jantamos juntos. Por isso hoje... eu desisti da busca.

Quem é DEUS? Eu não sei. Há um DEUS? Eu acredito que sim. Acho que, dentro de mim, eu sei com certeza, porque posso sentir. Porque as coisas acontecem quando espero nEle, porque há algo dentro de mim que grita que sim! Há um DEUS, Justo e Magnânimo, onisciente e onipresente, que nos protege e cuida. Que rege o Universo ou o Pluriverso, e se revela aos puros de coração. Mas... eu apenas acho. Eu nada sou e nada sei. Ir além disto é mais do que eu posso. E eu preciso de mais.

Talvez eu seja fraco. Talvez meu espírito seja muito fraco. Está escrito que Tomé conviveu com o próprio Jesus, e que teve muitas provas e viu muitas maravilhas... Mesmo assim, precisou ver e tocar, para crer. Acho que sou mesmo muito fraco. Na verdade não sou como as outras pessoas. Eu penso mais, e penso que penso demais. Às vezes o raciocínio parece inimigo da fé (Mas isto não deveria ser assim). Quando penso na idéia que os homens fazem, geralmente, a respeito de DEUS, mil perguntas pipocam em minha mente irrequieta: Por quê há tanto sofrimento neste mundo? Se este 'plano' é como uma escola, onde estamos para aprender e evoluir, como acreditam muitos, então por quê é tão difícil encontrar o caminho da evolução e do aprendizado? Isto me parece difícil, dificílimo, quase impossível. As religiões que se propõem a conduzir o homem pela senda mais elevada, espiritual, não estão, no meu entender, sendo conduzidas por humanos dignos da confiança dos seus semelhantes. Eu não compreendo por que DEUS não se manifesta de forma clara aos que O buscam, para que continuem cada vez mais firmes no Caminho, com a certeza de estarem seguindo no rumo certo.

Os que buscam a DEUS o encontram sempre, fatalmente? Eu não sei. Isto está além de mim. Mesmo assim, se um assassino apontasse uma arma para a minha cabeça, e eu estivesse impossibilitado de reagir, eu faria, intimamente, uma oração. Sim, eu creio. Apenas digo que eu não sou o que gostaria de ser.

Creio, mas não sei bem em que crer. E mais, não sei como devo crer. Eu não sei quem é DEUS. Este é o ponto central de tudo. A razão da minha angústia.”...

Eu me sentia vazio. Mas não um vazio bom, positivo; não o vazio que surge quando se entra num estado de meditação profunda. Eu sentia um vazio desagradável, “negativo”, incômodo... Desistir da Busca não é a mesma coisa que terminar ou encerrar a Busca. Terminar a busca por ter encontrado o que se procurava, ou encerrá-la por se chegar à conclusão de que não compensa continuar, é uma coisa. Mas não era isso que tinha acontecido.

No meu caso, naquela ocasião, o que ocorreu foi muito diferente: Desistência, pura e simples. Eu estava extenuado, simplesmente esgotado, já não suportava mais procurar tanto por algo que eu não sabia exatamente o que era, sem encontrar. Pior: no decorrer desse longo processo, tinha perdido a fé no ser humano. Com isso aprendi, na prática, algo muito curioso: Perdendo a fé na humanidade, também a minha fé em Deus estava ameaçada.

O questionador, agora, questionava suas próprias bases. Todos os meus porquês estavam sendo colocados em cheque, desde as minhas motivações até as razões que me levaram a iniciar essa busca: Medo da morte?.. engraçado, mas agora, do alto dos meus 36 anos, isso não me parecia tão importante. Morrer? Descansar, enfim? Continuar, de um jeito diferente?.. Renascer sob uma outra forma? Afinal, se eu não podia mesmo ter a certeza de qual era a resposta, por que me preocupar?..

Mas os questionamentos iam além... Será que existia mesmo essa história de vida espiritual? Haveria mesmo um Deus por trás da realidade visível?.. Ao mesmo tempo em que me via refletindo em todas essas, sentia-me culpado por duvidar, logo eu que fora agraciado com tantas experiências pessoais maravilhosas. Mas, e se essas experiências todas fossem apenas enganos? E se tudo não passasse de alucinação, delírios de uma mente obcecada? Vazio. Me sentia mais perdido do que nunca. Perder a fé, assim, no meio do percurso, não estava nos meus planos.

Sei que muitos não conseguem entender as minhas dificuldades. Nem todos são tão complicados quanto eu. Muitos me dizem que eu deveria simplesmente relaxar. Outros me acusam de me comportar como um cético, que não consegue aceitar certas realidades simplesmente pela fé. Fato: explicar essas coisas é muito difícil, senão impossível, mas o que eu sempre tinha esperado, dessa busca, era apenas algo concreto, uma comprovação palpável, que me desse a certeza definitiva de que eu estava mesmo no caminho certo. Quer dizer, se eu estava disposto a empenhar a minha vida, os meus pensamentos e as minhas melhores energias nesse propósito, então o mínimo que eu podia desejar era ter a certeza de não estar, simplesmente, me iludindo. Mais um trecho do meu caderninho:

"Eu, enquanto ser pensante, racional e evoluído, mental e intelectualmente, só poderei encontrar a paz se estiver nesta busca com a absoluta certeza do que estou fazendo, sem deixar espaço para nenhuma sombra de dúvida, isto é certo. Se eu deixar quaisquer margens a dúvidas, dentro de mim, nas convicções que eu abraçar, certamente elas voltarão a me perturbar mais à frente, podendo me destruir (Aliás, convicção pode ou não ser alguma coisa que se escolhe?). Nesse caso, o que dizer da fé?”...

Foi um dia difícil. Eu me sentia como se estivesse vivendo num ambiente estranho, hostil. Tudo estava mudado. Minha visão estava alterada. Minhas impressões, a respeito de tudo e de todos, estavam alteradas. Um gosto amargo na boca não me deixava, por mais que eu escovasse os dentes, e uma forte dor de cabeça me perseguiu até à noite.

Madrugada. Depois do programa do Jô, depois de horas deitado em minha cama, olhando para o teto, completamente desorientado e insone, finalmente o sono chegou e eu dormi.

E me vi num lugar agradável, cercado por natureza exuberante. Estava sentado sob uma árvore de copa larga e tronco amplo, acomodado confortavelmente em suas largas raízes. À minha frente, um grande e límpido lago, cujas águas calmas refletiam a luz de um sol ameno, a superfície ligeiramente agitada, vez ou outra, por uma brisa suave... Todo o contorno deste lago era cercado por árvores e altas e vegetação belíssima, luxuriante... Fiquei um bom tempo assim, sentado olhando o lago, apenas aproveitando o bem estar do momento. Não pensando em nada, não pensando se aquilo era um sonho ou não. Apenas me sentia feliz, pura e simplesmente, e aquilo era tudo que eu precisava naquele momento. Ouvia pássaros cantando, toda a natureza ao redor parecia sorrir para mim.

Me levantei, olhando ao redor. Voltei-me, dei a volta por trás da árvore sob a qual estivera sentado, e caminhei tranquilamente por entre outras árvores, sobre um solo macio e recoberto de folhas... Cheguei então numa vasta área livre, um enorme campo gramado, muito verde e viçoso. Olhei em volta, extasiado... o lugar parecia não ter fim, a imensa planície verde prosseguia à minha frente até onde minha vista alcançava, indo fundir-se com o azul na linha do horizonte. Foi quando percebi, a uma distância de uns duzentos metros, um grande grupo de pessoas; uma pequena multidão reunida em volta de alguma coisa, e percebi, ao mesmo tempo, o ruído das vozes e a algazarra que faziam.

Caminhei até lá, e a medida que me aproximava, o som de risos e gritos de alegria aumentavam. Finalmente alcancei o grande grupo: Eram pessoas comuns, de todos os tipos. Havia homens e mulheres, de diversas raças, jovens, velhos, crianças... Eram centenas de pessoas, , vestidas normalmente, reunidas em torno de alguma coisa. Todos pareciam acompanhar, atentamente, o desenrolar de algum evento muito importante, em torno do qual se reuniam alegremente. A intervalos regulares, alguma coisa especial acontecia ali no meio, e todos gritavam juntos exclamações de incentivo, como “bravos” e “vivas”... Entrei no meio dessas pessoas, que se posicionavam umas ao lado das outras, e assim pude ver, finalmente, o que estavam olhando:

Havia uma espécie de pista de corrida, traçada na grama, parecida com aquelas que são usadas para a disputa da prova dos cem metros rasos, nas olimpíadas. Essa pista tinha 4 raias, e em cada uma delas se posicionavam pessoas comuns (idosos, jovens, crianças), como se estivessem se preparando para algum tipo de corrida. Então alguém dava um sinal, essas pessoas saíam correndo por essas raias, e, depois de um certo trecho, alçavam vôo!

Algumas eram desajeitadas, deixavam o solo meio tortas, desequilibradas. Outras voavam alto, braços abertos, corpo ereto. Outras ainda pareciam encontrar dificuldades, apenas planavam poucos centímetros acima do chão. Mas a cada vez que alguém corria e conseguia voar, todos gritavam! Uma alegria contagiante invadia o lugar. Muitas gargalhadas, muitos abraços sendo trocados, palavras de incentivo...

Fiquei olhando para aquela cena maravilhosa, boquiaberto. De repente, não sei bem porquê, me lembrei do meu filho de 11 anos, que eu não via há algum tempo (eu tinha acabado de me separar da mãe dele, nós éramos muito unidos, e eu estava muito preocupado, sentindo imensa saudade e tristeza com a nossa separação forçada). De imediato, uma profunda tristeza me invadiu. Nesse exato momento, um senhor que estava à minha frente, de cabelos brancos e ralos, se virou para mim e disse, apontando para o alto: “Você está vendo aquele rapaz moreno, ali, que acaba de voar, todo feliz?” – Eu olhei para cima e vi o tal rapaz, de uns vinte e poucos anos, esvoaçando para todos os lados, logo acima de nossas cabeças, como uma borboleta gigante, soltando gritos de alegria. O senhor grisalho continuou: “É o seu filho!”.



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