Chegando lá...

Conforme já deve ter dado para perceber (e muita gente já falou, nos comentários), conhecer a Sociedade Teosófica foi mais uma decepção. Mais uma amostra que eu precisei “coletar”, na prática, da incapacidade do homem em cumprir as metas a que se propõe, quando o assunto é espiritualidade. Deixo claro que nada tenho contra os indivíduos, nada contra qualquer um que esteja empenhado na Busca verdadeira e que porventura tenha se encontrado na ST. Minhas observações são sempre a respeito da “prática na prática”, isto é, a essência da coisa. Às minhas impressões e conclusões se referem à tradição em si, e não aos que a seguem. Eu discuto idéias, não homens. Deixo isso claro, porque, vez ou outra, um dos meus visitantes se ofende com a minha postura, sente-se agredido em nível pessoal. O meu objetivo com o “Arte das artes” é a provocar a discussão saudável, produtiva. É levar o leitor a repensar suas convicções. Pretendo lançar um chamado para uma retomada de consciência, e nesse processo eu obviamente não poderia me furtar de deixar a minha opinião sobre os temas abordados. E nessa intenção não me é possível (nem seria coerente) concordar sempre com tudo. Discutir pressupõe observação, e, principalmente, auto-observação. Além disso, as minhas conclusões são exatamente isso mesmo: As minhas conclusões. E, como eu já disse antes, se em algum momento esse trabalho de reflexão vier a ser útil para alguém, em sua própria busca, então meus objetivos foram alcançados.

Todas as sociedades secretas (olha que eu deixei de contar muitas histórias, aqui), ordens religiosas e grupos de estudo que eu conheci na minha vida, acabaram me levando às mesmas conclusões: Falar é fácil. Querer também é fácil. Ser é difícil, uma coisa muito rara. Quando eu achei que devia ampliar meus horizontes, ainda adolescente, e fui buscar respostas em doutrinas distantes e exóticas, achava que encontraria outros buscadores sinceros como eu, preocupados apenas em encontrar o Caminho verdadeiro. E encontrei ingênuos, deslumbrados, curiosos... além de homens e mulheres “brincando de espiritualidade”...

Conheci pessoas que se vestiam como espiritualistas. Que falavam, andavam, gesticulavam e se alimentavam como espiritualistas. Mas não pensavam realmente como espiritualistas. “Espiritualidade” pode parecer algo divertido para se fazer nas horas vagas, uma espécie de passatempo. Muitos querem aprender coisas novas e diferentes, para serem admirados e conquistar simpatia. Querem parecer misteriosos, exóticos, diferentões... Outros ainda são simplesmente curiosos, acham interessante estudar religião, filosofia, misticismo, ocultismo...

Todas as Sociedades, ordens e grupos espiritualistas que eu conheci, tinham ideais muito nobres, alguns perfeitos, irretocáveis. Mas os seus membros, invariavelmente, na prática, viviam e agiam de modo contrário aos princípios que pregavam. A experiência na Sociedade Teosófica foi muito importante, para mim, porque aconteceu numa fase em que eu já tinha conquistado maturidade suficiente para enxergar a distância que separa palavra e prática.

Se alguém diz que “não existe religião superior à verdade”, e logo em seguida se propõe a ensinar aos outros partindo de uma “salada” de religiões, uma confusão de caminhos que se cruzam e se contrapõem, até onde poderá chegar? Palavras de “Sua Santidade”, o 14º Dalai Lama:

“Sempre achei que a base da harmonia religiosa é o respeito recíproco. Todos temos o que aprender com outras tradições. Mas considero totalmente equivocada essa onda da nova era (‘new age’) que surgiu no mundo. Não dá para pegar um pouco de cada tradição, um pouco daqui e um pouco dali, e jogar tudo no ‘liquidificador’. Isso é um erro! É melhor para o homem que siga uma tradição autêntica. Se você tentar misturar tudo, achando que todas são iguais, vai acabar perdendo a essência e a maravilha de cada uma delas”.


Disse tudo. E agora eu entendia que a minha resposta não estava na crença em que todas as religiões são iguais, como rios que desembocam todos no mesmo mar, a não ser num sentido muito profundo, que está além da prática diária. E do que me adianta conhecer filosofias de vida profundíssimas, se eu não sei como viver o meu dia-a-dia, na prática? O que eu precisava saber era como viver a minha vida, meu aqui-agora, saber qual prática espiritual adotar, qual o passo-a-passo para encontrar DEUS!

Eu sei que muitos devem estar imaginando por quê não me bastavam todas as belas experiências que vivi, por quê não era suficiente a certeza da existência de uma Realidade Maior, e viver a minha vidinha simplesmente, com Amor, serviço ao próximo e alegria?... Acontece que uma inquietação profunda continuava aumentando, cada vez mais, dentro de mim. Um sentimento de coisa inacabada, uma lacuna importantíssima a ser preenchida, e viver em paz, antes de entender essa sensação, era para mim uma tarefa impossível.



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