Ainda perdido...


Tudo me levava ao Cristianismo. Mas eu não queria aceitar isso. Em parte porque o Cristianismo me parecia um caminho de sacrifícios e privações, para o qual eu não me sentia preparado. Mas também e principalmente porque, se por um lado a mensagem do Cristo me parecia perfeita, por outro as instituições construídas em torno da sua mensagem não me agradavam nada. Eu ficava indignado ao perceber as deturpações gritantes da mensagem original, naquilo que havia sido, em seu nome, propagado ao redor do mundo.

Um bom exemplo, que me ocorre agora: Alguém aí sabe como é o culto numa das igrejas evangélicas “Renascer em Cristo”, presente em 170 países ao redor do globo? Eu conto: Você chega e, logo no assento do seu banco, já encontra um envelope para doação, onde há lacunas para serem preenchidas, constando: “Valor do dízimo”, logo abaixo “Valor da oferta”, e, em seguida, “Valor da oferta especial”. O culto começa com alguma pregação especial, quase sempre baseada em alguma passagem do Antigo Testamento da Bíblia.

Depois da pregação inicial, o clímax do evento: Os bispos começam a pedir dinheiro. Eles ficam por muito, muito tempo pedindo dinheiro... Pedem lances, de um jeito bem parecido com o de um leilão: “Quem dá mais? Quem dá dez mil? E cinco mil? E mil?”... Enquanto isso, alto-falantes no volume máximo berram nos ouvidos dos fiéis: “Não tenha medo de doar! Aquilo que você doar, de coração aberto, você vai receber em dobro! Se ‘Deus tocar o seu coração’ para fazer uma oferta, não pense duas vezes!”. Para garantir que ninguém vai deixar de colaborar, por ter esquecido de levar dinheiro, os “obreiros” da igreja circulam por entre a assistência, avisando que também aceitam cheques e cartões de crédito(!). Todos eles carregam aquelas maquinetas de passar cartão, e o fiel só precisa dizer com quanto vai colaborar e digitar a senha... Não é raro algum desses obreiros comentar: “Você não poderia aumentar um pouquinho essa oferta, irmão?”...

Depois de feitas as ofertas (ufa!) os bispos pedem que todos levantem seus envelopes, e começam a pedir bênçãos. Tudo com os envelopes levantados! (ultimamente também andam pedindo muito pela libertação dos 'irmãos fundadores' bispa Sônia Haddad Moraes Hernandes e bispo Estevan Hernandes Filho, presos nos Estados Unidos por transportar dinheiro ilegalmente, inclusive escondido dentro de uma Bíblia)... O ênfase de toda a pregação, a base de toda a doutrina gira em torno de dinheiro...

Aliás, no começo, eu disse que a pregação quase sempre se baseia em passagens do Antigo Testamento. Isso é uma coisa interessante de ser analisada: Se falam tanto em Jesus, porque na hora da pregação a ênfase é sempre dada aos textos do Antigo Testamento, que se passam antes da sua vinda? Fácil: É que no Antigo Testamento, a história do povo judeu é contada a partir de um paradigma muito mais materialista. Aquele que serve ao Senhor é abençoado com prosperidade. Já no Novo Testamento, a mensagem de Cristo é completamente diferente: “Mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus” (Matheus, 19:22-24). Observação: Esse 'fundo de agulha' não era uma passagem no portão de Jerusalém, isso é papo furado. - “Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lucas 6:24). – “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens e dá aos pobres” (Matheus 10:21). - “Não podeis servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus ao dinheiro” (Matheus 6, 24; Lc 16, 13). Existem muitas outras passagens iguais a essas, ou com o mesmo sentido. Jesus espera que cada um “tome a sua cruz” para segui-lo, e isso não “casa”, de modo algum, com o tipo de pregação que é feito na grande maioria das igrejas evangélicas (principalmente as chamadas 'neo-pentecostais'), que promovem “congressos empresariais” e priorizam, acima de tudo, o princípio de que “Se você for fiel, se pagar o dízimo direitinho, vai ser ‘abençoado’ em dobro”. Benção para eles é sinônimo de sucesso financeiro. Isso vai obviamente contra a doutrina original de Cristo, que nos ensina a dividir com nossos próximos, e a "não acumular tesouros na Terra" (Matheus 6.19-20).

Claro que essas passagens todas são interpretativas e devem ser examinadas com muito cuidado, à luz da razão de cada um. Eu já disse, nos comentários, e repito: Óbvio que nem todos nasceram para viver uma vida de completa privação, como é o caso dos toqueiros e outros religiosos. Óbvio também que o dinheiro, por si só, não é bom nem mal. A grande questão está no uso que fazemos (ou não) dele. Mas todas essas passagens são claras, transparentes! Elas gritam, alto e claro, uma palavra: Desapego!

Então, numa coisa, concordemos: Hoje se deturpa completamente a doutrina original de Jesus, querendo mudar uma mensagem que é profundamente espiritual, para uma espécie de “curso de auto-ajuda para a prosperidade” (a IURD, por exemplo, entre outras, funciona como uma espécie de ‘empresa’ de consultoria de gestão empresarial).

Mas por que estou falando de todas estas coisas? Porque eu quis deixar aqui alguns exemplos de comunidades que são consensualmente denominadas como cristãs. E para que me entendam, quando eu digo que, se isto era ser cristão, então eu não queria ser cristão!!

Mas o pior era que mesmo as maiores congregações cristãs do planeta também não me pareciam fazer muito melhor. Católicos?.. Tudo bem, uma das experiências mais importantes que eu já tivera em toda minha vida tinha acontecido dentro de uma instituição católica, o que acabou por abrir a minha mente para um novo universo de possibilidades. Mas isso era o suficiente? Suficiente para esquecer o seu passado comprometedor (e um presente não tão diferente...)? Esquecer a indiferença desse povo frio, que nunca tinha me parecido demonstrar qualquer interesse real por espiritualidade, afeito apenas a seguir fórmulas e preceitos (cegamente), sem se importar com a busca de um o sentido mais profundo para a vida espiritual?

Nos anglicanos, mórmons e ortodoxos eu também não me achava... A grande verdade é que todos estes grupos me pareciam "derrapar" nas mesmas falhas cruciais que os católicos.

Resta falar das denominações ditas “místico-cristãs”, que também nunca me convenceram. Eu não vi a Verdade em nenhuma delas, apenas um bando de afetados que nada faziam além de cultuar os próprios egos.

Eu sei, eu sei que ao ler minhas palavras, talvez alguém pense: “Mas esse cara queria a perfeição?”... Respondo: Eu sabia, sim, que o ser humano é imperfeito por natureza, e que eu não encontraria a perfeição absoluta em religião alguma. Mas o que eu esperava encontrar era pelo menos o verdadeiro desejo, aquele que eu mesmo trazia, de encontrar a Verdade. Se as minhas palavras soaram ásperas, até aqui, esclareço que usei estes exemplos apenas para que entendam melhor o porquê de dizer que eu não me via (e nem queria me ver) como um “cristão”.

E assim, parti para uma nova tentativa, mudando a direção, na minha longa jornada (que já está chegando ao fim, não se preocupem =-/): Resolvi que, finalmente, era chegado o momento de conhecer de perto a Sociedade Teosófica, sobre a qual já estudara muito, e na qual havia surgido uma das maiores mentes que eu conheci (Krishnamurti), além de verdadeiras lendas como Mme. Blavatsky e Annie Bessant. E cujo lema me agradava muitíssimo: “Não existe religião superior a Verdade”. Sim! Eu concordava plenamente com esta máxima. Era exatamente assim que eu entendia a Busca.



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