"Vidya"

Publicado originalmente por H K Merton em 28 de Novembro de 2006 às 2:02 PM

A maneira como vim a conhecer aquela que se tornaria a minha escola definitiva de Yoga foi emblemática. Tendo resolvido que o meu caminho realmente passaria pela prática do Yoga, como preparação física e mental na minha busca, parti para uma pesquisa das principais escolas clássicas**. Participei inclusive do “1º encontro internacional de Yoga”, evento que durou duas semanas e que juntou mestres e praticantes de todas as linhas, inclusive as mais recentes, como o “Power Yoga”. Nesse encontro, promovido pelo SESC e realizado na unidade Consolação, uma das maiores de São Paulo, foi dada ao público a oportunidade de participar de diversos "cursos-relâmpago", com professores especialistas nas escrituras clássicas hindus, Yoga Sutras e outros, além de palestras com gurus indianos, aulas práticas das diversas modalidades, apresentação de danças folclóricas da Índia e etc. Um verdadeiro evento “dos sonhos” para quem se interessa pelo assunto. Isso foi no ano de 1998.

Não demorei muito a perceber que a maior rede de escolas de Yoga aqui no Brasil é a Uni Yôga, do "mestre" De Rose. Cheguei a ler livros dele, e a visitar algumas unidades suas. Mas não me identifiquei. Aquela egrégora não tinha muito a ver comigo: Logo de cara, ao entrar na sala de práticas, vi aquele bando de garotas lindas e saradas (por algum motivo que eu ainda não consegui entender, parece que todas as ‘gostosas’ que se interessam por Yoga procuram a rede De Rose), todas usando mini tops e colants cavados, entrando no bumbum, fazendo “saudação ao sol” (saudação ao sol, pra quem não sabe, é uma seqüência de movimentos e posturas onde por diversas vezes fica-se ‘de quatro’ e em posição de ‘gatinha se espreguiçando’, com o peito rente ao chão e arrebitando o traseiro ao máximo)... Eu olhei bem praquilo e... sabe, posso ser um buscador, mas dentro das minhas veias corre sangue. Logo vi que ali eu iria conseguir tudo menos a depuração físico-mental-espiritual que eu queria. A começar porque não conseguiria me concentrar nas aulas. :-P Também havia um clima de “azaração” no ar, bem ao estilo “malhação”, sem falar no culto ao "mestre" De Rose, um homem cujo maior sonho é um dia poder se tornar o detentor absoluto do direito de dar aulas de Yoga no Brasil. Algum tempo depois eu cheguei a ler, pessoalmente, um "estatuto" dele, que teria sido enviado para todas as outras escolas de Yoga do Brasil, em nome da Uni-Yoga, convidando (praticamente intimando) todas a se afiliarem, ou então, “sofrer as consequências”. Havia até essa frase, escrita textualmente: “Para os que não quiserem se afiliar à Uni-Yoga, as chances de crescimento são mínimas. Mas, se mesmo assim, você não quiser se afiliar, mantenha-se discreto. Você não vai me querer como inimigo!”. Ameaça explícita, um horror... E ainda se acha um mestre espiritual (ele até adotou o termo ‘mestre’ como prenome para assinar os livros)...

No entanto, por uma questão de pura justiça, devo dizer que a qualidade técnica das aulas na rede Uni Yoga são de primeiríssima linha. Conheci intimamente pelo menos dois praticantes sérios da verdadeira filosofia do Yoga, e que são alunos nessa rede. A além disso, tenho que reconhecer que o De Rose, mesmo tendo um ego maior do que ele mesmo, por outro lado, sabe tudo e mais um pouco. Ele não entrou de “laranja” na história, é um professor excelente. Conhecimentos práticos e teóricos não lhe faltam. Pelo contrário, isso ele tem de sobra. Usando o que aprenderam com ele, alguns dos seus melhores alunos se desligaram da rede e se tornaram grandes expoentes do Yoga em nosso país, como é o caso do Profº Pedro Kupfer, responsável pelo ótimo site Yoga Pro.

Mas eu ainda tinha que encontrar a minha própria escola. Primeiro visitei algumas pequenas, de linhas desconhecidas, com professores duvidosos. Caras que dominavam ásanas (posturas) incríveis, intrincadíssimas; capazes de tocar a própria nuca com o dedão do pé, equilibrar o peso do corpo inteiro em cima do dedo mindinho da mão esquerda, fazer e desfazer nós nas próprias tripas, assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, etc, etc (exagerando um pouquinho)... Mas que não conheciam "lhufas" da parte filosófica, não sabiam nem pronunciar direito a palavra Yoga - a pronúncia mais correta, próxima do sânscrito, é com o ‘o’ fechado = Yôga. De Rose, como eu disse, um profundo conhecedor do assunto, até adotou o uso do acento circunflexo, na palavra, numa tentativa de acabar, de uma vez por todas, com a mania dos brasileiros de falar ‘ióga’. Não conseguiu. Recentemente até foi fundada uma nova escola que, meio assim, só pra provocar, inventou um acento agudo no ‘o’ = "Yóga Clássico"! Coisas da vida... guerra de egos. E eu devo dizer que conheci ótimos e autênticos professores, inclusive com vivência internacional, que pronunciam “Yóga”. Então concluo que esses detalhes certamente não são o mais importante. E assim fui conhecendo diversas escolas, enquanto procurava a minha. E fui exigente nessa procura. Cuidar da saúde é coisa séria.

Mas eu disse no começo que a maneira como conheci a minha escola foi emblemática. Agora vou explicar o porquê: Eu havia coletado na Internet (finalmente chegamos à era da internet, nos meus relatos), o endereço de uma escola que ficava no bairro da Mooca, próximo ao lugar onde eu morava na época. No caminho para essa escola, que se localizava numa rua pequena, meio “escondida”, tomei um caminho errado; então tive que voltar à avenida principal mais próxima, para me localizar, (a Av. Paes de Barros), e quando voltava, tentando encontrar um novo acesso... eu a encontrei!!

Lá estava ela, bem no meio do caminho! Lembro-me como se fosse hoje; eu parei numa padaria que existe ali na esquina da Rua Guaimbé, para pedir informações, e aí... Percebi que o imóvel vizinho à padaria era um belo sobrado em amarelo e azul, muito bem cuidado e com uma porta de vidro espelhado, protegido por uma grade toda trabalhada em metal. Bem no alto da bonita fachada, uma placa com um emblema ao estilo indiano me chamou a atenção. Olhei e li: "Vidya Yoga Ashram – Sacred Filosof".

Não pude deixar de pensar que, se eu não tivesse me perdido, nunca teria ido parar naquele lugar. Meu objetivo era chegar num outro endereço, e só por não conseguir encontrá-lo, fui descobrir o lugar que, mesmo sem saber, eu estava procurando. Essas coisas acontecem, eu sei, e se começarmos a discutir se coincidências existem ou não, teremos assunto pra dias. Esse não é o meu propósito. Apenas entendo que a maneira como ali cheguei foi simbólica, até porque o que aconteceu depois me fez ver que a minha procura estava encerrada.

Encontrei o que estava procurando, sem querer. Cheguei ao meu destino sem saber sequer que ele existia. "Atirei no que vi, e acertei no que não vi", e o que não vi era o exatamente o que eu procurava.

O assunto Yoga já rendeu demais, por isso vou deixar maiores detalhes sobre essa excelente escola para o futuro. Por enquanto digo apenas que ali, desde o primeiro dia, encontrei a “minha turma”. Quando apertei o botão do interfone, fui saudado por uma voz agradável. Entrei e vi que aquela casa, por dentro, era tão primorosamente cuidada quanto por fora. Decoração ao estilo indiano, como não poderia deixar de ser. Cores suaves, grossos e macios tapetes pra se pisar. Um cheiro delicioso de incenso no ar (um que eu ainda não conhecia). Fui recebido por um sorridente casal, na recepção; mas ela, depois dos cumprimentos iniciais, teve que se ausentar para a primeira aula noturna. Ficamos, eu e o rapaz, Maurício, conversando, e então descobri que eles eram um casal de fato, marido e mulher. Ali era mesmo um "ashram", ou seja, a escola é também a residência dos professores. Suas vidas dependem do Yoga, literalmente, e eles o vivenciam 24 horas por dia. Pelo sotaque, percebi que Maurício era do Sul do Brasil, mais especificamente, Santa Catarina. Primeiro ponto em comum. Começamos a conversar, eu perguntando e ele respondendo. E a nossa conversa até parecia uma entrevista de emprego, onde ele era o candidato e eu o entrevistador. E ele respondeu exatamente tudo que eu gostaria de ouvir. Se fosse um exame, ele teria tirado um “A”, isto é, Vidya*** Yoga era exatamente o que eu estava procurando, era tudo que eu queria. Depois do final da nossa conversa, ele me disse que, no decorrer do nosso diálogo, eu fazia, inconscientemente, diversos mudrás (gestos simbólicos com as mãos, com significados diversos), mesmo sem saber o que estava fazendo; coisa que ele nunca tinha visto acontecer (??).

Assim me tornei um praticante de Yoga, definitivamente. Ah! ali todos usavam camisetas do ashram e calças de algodão, brancas e bem folgadas, na hora das aulas. Que bom, ninguém preocupado em exibir o “corpicho” bonito... Virei vegetariano. Deixei de sofrer com uma insônia que me atormentava há meses. Me tornei um ser humano muito mais calmo e centrado. Soube de casos de pessoas que se livraram de diversas fobias, através das práticas. Aperfeiçoei minhas técnicas meditativas e aprendi a me auto-observar melhor do que nunca. E também a ver o mundo com olhos mais calmos e atentos.



** Essas escolas são 7: Raja yoga, Hatha yoga, Jnana yoga, Karma yoga, Bhakti yoga, Mantra yoga e Tantra yoga. Todas elas surgiram como caminhos para um mesmo fim: habilitar a aquisição do conhecimento libertador do ego (atman).

*** Vidya, do sânscrito, significa "conhecimento:".



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