A Verdade onde menos se espera

Alguns amigos me dizem, nos comentários, que estão curiosos para saber o desenrolar da minha trama, que mal podem esperar para saber qual será o próximo post e qual o desfecho desta longa narrativa. Eu, no princípio do ano de 2004, me encontrava exatamente assim. Estava como que num estado de “animação suspensa”, em compasso de espera, ansioso para saber o que iria acontecer na minha vida, a seguir.

Nunca, em toda minha vida de buscador, eu sentira, de um modo assim tão claro, tão intenso, o quanto valeu a pena fazer a escolha que eu fiz, a de priorizar o Caminho da espiritualidade antes de qualquer coisa. Durante toda essa história, deixei de lado possibilidades de construir uma carreira profissional sólida, descartei oportunidades de trabalho altamente promissoras e diversas chances de construir um futuro economicamente estável, para colecionar uma infinidade de subempregos de meio período, produzindo arte nas horas vagas, tudo por puro desprezo ao materialismo e aos confortos imediatistas desta vida.

É que todas as boas oportunidades de fazer dinheiro de verdade, que eu tive, exigiam em troca nada menos que a entrega da minha própria alma. O maior exemplo foi uma excelente oportunidade que me surgiu para atuar como líder do setor comercial de uma poderosa rede de empresas internacional, na área de turismo e hotelaria, com matriz na Inglaterra (que chamarei aqui de 'W'): Eu iria ganhar um salário realmente alto, além de diversos e excelentes benefícios (um deles um automóvel zero, para meu uso comercial e particular, com todos os gastos de combustível e manutenção por conta da empresa). Tudo ótimo, de fato. O "detalhe" é que nesse emprego dos sonhos eu teria que trabalhar 7 dias por semana, no mínimo 12 horas por dia, sem direito a folgas em finais de semana ou feriados, com apenas um ou dois dias de descanso mensais, conforme me advertiu o superintendente da divisão, aquele que seria meu futuro chefe: “Pra ter sucesso na 'W', é preciso se entregar de corpo e alma, mas é compensador...”.

“Entregar corpo e alma”... Sim. Isso diz tudo. Essas palavras ecoam nos meus ouvidos até hoje. É exatamente isso que o mundo exige em troca do "sucesso": Nossas almas. Para ser um “vencedor” é preciso abrir mão de tudo que não seja dedicação ao trabalho: Família, lazer, pequenos prazeres pessoais... espiritualidade... Tudo fica num “pacote” que tem que ser relegado às (pouquíssimas) horas vagas. Eu participei de todo o processo seletivo da "W", semanas a fio de testes. E fui aprovado. Ganhei os parabéns... De um grupo de mais de cem candidatos, que lotavam o saguão do hotel onde se deu a preleção para a tão cobiçada vaga, apenas cinco felizardos conseguiram a aprovação. Euzinho, aqui, estava entre eles. "Bem vindo ao clube de elite", me disseram...

Mas não compareci no primeiro dia de trabalho. Liguei avisando que estava abrindo mão do cargo, que uma oportunidade melhor tinha aparecido... O tom de incredulidade na voz da recepcionista chegava a ser cômico. “Mas o senhor desistiu???” Ela devia estar tentando imaginar qual seria a “oportunidade melhor” que poderia ter surgido... O que ela nunca desconfiaria é que eu trocava a minha chance de ouro por um (ridículo) contrato com um modesto estúdio de arte aqui de São Paulo, sem nenhuma garantia de ganhos trimestrais que chegassem a atingir o que ganharia em uma semana na "W"...

E eu estava muito feliz. Sabia verdadeiramante que nem todo o dinheiro do mundo seria suficiente para comprar minha alma. Minha prioridade absoluta continuava sendo a Busca, que nunca fora um "passatempo" para mim. Claro que, muitas vezes, ao longo deste percurso, me vi afligido por dúvidas. Será que estava fazendo mesmo o certo? Afinal, “dinheiro faz parte da vida” – e disso todos me lembravam a toda hora. Mas eu entendia perfeitamente que tudo tem a sua devida importância e o seu lugar certo nessa vida, e via que o "espaço" dedicado ao dinheiro, pela imensa maioria das pessoas, era, sem dúvida, grande demais.

Mas agora, depois daquela experiência (que contei no post anterior), via que estivera mesmo certo esse tempo todo. Me sentia recompensado por todas as dificuldades que enfrentara, por ter aberto mão de algumas coisas. O meu caminho sem dúvida passava pela renúncia e pelo desapego.

Passei uma ou duas semanas meditando sobre minhas descobertas recentes. Percebia a inutilidade de se perseguir a “perfeição estética” de tantos caminhos ditos espirituais. Exemplo, tornar-se perito em muitas e complicadas práticas e técnicas posturais, respiratórias e de contenção dos sentidos físicos, mas esquecendo-se da verdadeira Prática interna, a de cultivar e vivenciar o Amor diariamente. Algo muito comum entre os praticantes de Yoga no meu país. Também estava plenamente convencido da inutilidade de se "freqüentar" qualquer religião de modo superficial, repetindo rituais e obedecendo protocolos, mas com as intenções e a atenção sempre voltadas para futilidades e desejos mesquinhos.

Eu, que num primeiro momento dessa Busca me deslumbrei com a suposta sabedoria e o "ar de santidade" que parecia cercar tantos alegados místicos, mestres, magos e sábios; que desejei adquirir todas as pedras e amuletos mágicos, todos os penduricalhos... Eu, que tentava enxergar os anjos dourados e os duendes maravilhosos de que tanto ouvia falar... agora finalmente entendia que a Verdade não é assim tão cor-de-rosa, nem tão fácil e simples de se conquistar. Entendia que as portas não se abrem tão rapidamente, para qualquer um que simplesmente queira, se este não trouxer, de fato, a real determinação para mudar paradigmas e a firme disposição em fazer sacrifícios.

Me encontrava agora profundamente decepcionado com tanta gente que se denomina "esotérica" ou "gnóstica", gente que gosta de impressionar a todos com seus conhecimentos e supostas capacidades de ver o que ninguém mais vê. Via claramente o quanto eram falsos, simplesmente pelo fato de que eu, que realmente passei por tanta coisa, nunca fiz alarde, nunca me gabei, nunca tentei exibir minhas experiências como uma maneira de atrair admiração e/ou atenção.

Estava cansado de "monges" de araque, daqueles que gostam de usar roupas exóticas, raspar a cabeça ou usar bindis (aquela pedrinha colada na testa, que as indianas usam) para causar a impressão de que são alternativos, "diferentões", altamente espiritualizados, mas que não querem ser vistos muito de perto... Eu agora conhecia bem a alma dessas pessoas, que se vestem e se parecem com santos e grandes sábios, mas procuram somente por glória pessoal. Basta discordar das coisas em que acreditam, ou desafiar seus mestres, para irritá-los. Essa é uma característica muito clara de alguém que não busca a Verdade, de fato, mas apenas se manter numa "zona de conforto psicológico" qualquer. Derrube as convicções dessa pessoa, e ela se tornará muito agressiva, o cordeiro se transformará em lobo, com espantosa velocidade.

Falando dessas coisas, me recordo de um trecho do discurso que o Dalai Lama proferiu em sua visita ao Brasil, no começo do ano passado, que tem tudo a ver com o que estou falando:

"Outro dia, em nosso encontro no templo chinês (o templo Zulai, em Cotia – SP), em nossa sessão sobre o budismo, vi, naquele dia tão bonito, muitas pessoas com uma variedade enorme de roupas. Havia roupas do budismo zen japonês, roupas do budismo tibetano, roupas de monges tibetanos, roupas de monges de outras nacionalidades, roupas que eu nem sei quais eram... talvez roupas de outro planeta!

Sou um pouco crítico quanto aos ocidentais que entram em contato com as tradições orientais, como por exemplo a budista, e começam a mudar seus hábitos EXTERIORES. Primeiro, abandonam suas tradições de origem. Depois, mudam suas roupas, vestindo-se como os orientais se vestem. Em seguida, mudam os móveis de sua casa. Mudam seu comportamento, mudam seus gestos... Vemos ocidentais que abraçam por exemplo o sikkismo, ou tornam-se hare-krishnas, e de repente saem às ruas com o cabelo raspado, as vestes laranja no estilo oriental... acho que isso não é bom.

O desenvolvimento e a transformação da mente requer muito esforço. Mas perceba aqui também que o esforço cego de nada adianta: ele tem que ser acompanhado pela sabedoria. Novamente, podemos orar para Buda, para Tara, Avalokiteshvara, fazer um sadhana... mas só há uma chance em um milhão de que isso baste para a sua transformação: Se ocorrer um milagre! De outra forma, será realmente difícil atingir a mudança desejada.

Uma vez um aluno perguntou a um grande mestre tibetano do início do século vinte se deveria fazer um retiro de Manjushri de um mês, para melhorar a acuidade de suas percepções mentais. Esse mestre respondeu ao aluno que se ele fizesse o retiro, talvez houvesse alguma mudança; mas que se ele ocupasse esse mês estudando seriamente, era certo que sua mente iria mudar. Isto é MUITO mais importante.

Estudar é crucial... Minha recomendação é: ESTUDEM! Estudem muito. Estudem e produzam textos, pequenos panfletos; não para venda, não para comércio, mas para fazer circular entre vocês. Leiam, discutam em pequenos grupos, escrevam e façam suas idéias circular entre todos do grupo maior. Estudar e discutir é essencial. É irreal ficar esperando que venha um lama, uma vez por ano, fazer um workshop com ele e um monte de iniciações, e depois nada mais, e esperar alguma transformação em sua mente. Isso não é suficiente. É necessário estudar regularmente. Ocasionalmente, se você se encontra com algum bom professor, e passa com ele uma ou duas semanas fazendo workshops, é ótimo, mas depois volte ao seu estudo regular e sistemático”.
- Fonte: Comunidade Zen Budista do Brasil.


O (grande) homem resumiu tudo. Vejo a mesma idéia, mais resumida ainda, na declaração de Claude Chabol, o consagrado diretor do cinema francês:

“A estupidez é muito mais fascinante que a inteligência. A inteligência tem os seus limites, a estupidez não”.


Sad but true. Bem, amigos, me estendi um pouco demais aqui. O porquê do título desse post vocês irão saber na continuação, que eu me comprometo a postar daqui há dois dias.



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