A Verdade onde menos se espera - parte 3

Minha chegada até o endereço da Toca de Assis, o que havia encontrado naquele site abandonado, foi uma verdadeira epopéia...

Viver numa cidade do tamanho de São Paulo (bem maior do que muitos países) e estar sem carro próprio significa viver uma nova aventura a cada dia. Em nosso país, infelizmente, o sistema público de transportes, não é exatamente o que se poderia chamar de eficiente, e pra complicar ainda mais, as distâncias são simplesmente imensas.

O endereço que eu tinha ficava no bairro Vila Sônia, Butantã, região que fica no extremo oeste de São Paulo. Considerando-se que eu morava na região leste, isso quer dizer que eu teria que empreender uma verdadeira volta ao mundo, uma cansativa maratona para atingir meu objetivo. Recorri ao meu sempre útil "Guia de ruas e avenidas de São Paulo" e encontrei o nome da rua que eu procurava bem entre duas páginas. Arranquei as duas, dobrei e guardei no bolso de trás da minha calça.

Depois de constatar que o endereço que eu procurava era bastante inacessível, e que aquele local não era servido por nenhum tipo de transporte público, percebi que o máximo que poderia fazer seria encontrar um ponto próximo, para chegar de ônibus, de onde pudesse seguir a pé (num primeiro momento, calculei uns dois quilômetros). Assim embarquei, literalmente, para mais uma jornada dentro da grande Jornada que é a Busca espiritual.

Tomei o primeiro ônibus, até um importante terminal rodoviário urbano, onde fiz a baldeação para o segundo ônibus, que me levaria até a Av. Lineu de Paula Machado, onde fica o Jóquei Clube, aguardar pelo terceiro coletivo, o que me levaria até o ponto mais próximo possível do meu destino. Ali eu vi algumas garotas de programa (muito bonitas, por sinal) desfilando em cima de seus saltos altos, preenchendo provocantemente suas justas micro-saias, curvando-se às janelas dos sedans luxuosos que paravam, negociando o melhor preço para seus corpos bem cuidados. Fiquei olhando por alguns instantes, e de repente, inconscientemente, estava viajando em delírios eróticos na minha imaginação... Logo me lembrei do lugar pra onde estava indo, quais os meus objetivos e o porque daquela viagem, e tratei de limpar meus pensamentos.

O próximo e último ônibus enfim chegou. Ao descer no meu ponto olhei para o relógio: 16:03 PM. Eu tinha saído de casa às 13 horas (!) Foi com prazer que troquei a o abafo do interior dos coletivos para ganhar o ar livre das ruas. Ar livre, sim, mas nem um pouco fresco. Alto verão, horário de verão, e o sol ardia, impiedoso (Esse sol dos novos tempos, causticante, ameaçador, tão diferente do sol da minha infância, amigo e benéfico. Como é possível que estejamos conseguindo destruir até o clima?)... Tirando meu mapinha do bolso, observei bem o percurso que teria de fazer a pé. Logo descobri que a distância seria maior do do que eu tinha imaginado a princípio... Três quilômetros ou um pouco mais. Mas eu estava muito animado com tudo que vira e ouvira falar dos “toqueiros”, acreditando que o esforço valeria a pena.

Descida, depois subida. Uma viela. Algumas ruas estreitas e tortuosas. O sol queima. Suor escorre pela testa. Para completar, o lugar é um tanto quanto “barra-pesada”. Vez em quando, figuras mal-encaradas cruzam meu caminho. Um vendedor de picolés aparece, eu aproveito e peço um de limão (era o último de limão, lembro-me bem). Mas a minha sede só aumenta. Paro num bar para um refrigerante gelado, e ao sair percebo que o tempo estava mudando depressa. Em poucos minutos, o céu havia se encoberto completamente. Nuvens escuras... Depois de todo aquele calor, uma chuva forte seria de se esperar. Nova olhada no mapinha, e agora eu deveria “apertar o passo”, se quisesse chegar seco ao meu destino.

Uma encruzilhada logo à frente, e depois uma bifurcação, com nomes de ruas que não constavam no guia (oh, não!..) Pedi informações num posto de gasolina logo ali, mas ninguém ouvira falar da rua que eu procurava. Mas eu sabia que o endereço estava à frente, então, diante da bifurcação, escolhi a rua da esquerda, já que a da direita era uma subida muito íngreme, e eu já estava cansado. Mas quando cheguei no final desta, descobri que a opção certa teria sido a rua da direita. Voltei tudo e retomei meu caminho, desta vez pelo lado certo (só aí devo ter perdido uns quinze minutos).

A chuva chegou. Uma chuva mansa, agradável, que até servia para refrescar do forte calor. Mas logo foi ficando mais e mais intensa, até que eu percebi que teria que me abrigar se não quisesse me ensopar. Olhei o relógio: 16:47... Era uma segunda feira, e eu, além das minhas atividades artísticas, trabalhava num laboratório de análises clínicas, no plantão noturno, que começava às 19:45. Se eu parasse para me abrigar da chuva, que não estava com jeito de que pararia logo, perderia minha hora, e depois de tanto esforço, eu não estava nem um pouco disposto a deixar minha visita à Toca de Assis para um outro dia. Então continuei minha caminhada, sob a chuva cada vez mais forte. Depois de mais uma longa subida, finalmente cheguei ao endereço procurado. Puxa, o lugar era mesmo difícil de achar...

Uma casa vazia.

Bem no meio do nada, uma grande, antiga e bela casa... vazia. Num corredor lateral, ao lado da porta de entrada principal, uma cruz pintada na parede denunciava que eu estava no lugar certo, ou melhor, no que tivera sido, um dia, o lugar certo. Na grade do portão, uma placa branca com a seguinte palavra em vermelho-escuro: “Vende-se”...

Desânimo. Mais um caminho equivocado? Mais um sinal de que eu estava perdendo meu tempo? Será que a minha busca também não passaria pela experiência de conhecer esse pessoal que tanto tinha me impressionado? Deveria me resignar e desistir? Estranho, mas dessa vez eu não me sentia como na ocasião em que me propusera a conhecer a “Igreja Essênia”. Algo dentro de mim gritava que essas dificuldades eram como provas para testar a minha real determinação.

E eu me sentia bem, apesar de tudo. Sabia que estava fazendo a coisa certa, sem nenhuma dúvida. Estranho... Mas tinha plena consciência de que era ali que eu deveria estar, naquele momento, que conhecer essa comunidade era uma etapa importante na minha busca. O que fazer, então?

Na casa vizinha, da janela, uma senhora de cabelos grisalhos me olhava, placidamente. Perguntei: “A senhora conhece uma comunidade de franciscanos que funcionava aqui neste endereço?” –Ela me olhou com uma expressão de curiosidade e respondeu: “Eles se mudaram, faz umas três ou quatro semanas... Tinha gente aqui da vizinhança reclamando por causa dos mendigos que eles traziam ‘praí'... Algumas pessoas não gostavam, tinham medo... Foram reclamar com o dono da casa... Ah, eu achava tão bonito o trabalho que eles faziam... Ninguém consegue agradar todo mundo, 'né'?..”
A água da chuva gotejava das pontas do meu cabelo, pingava da ponta do meu nariz. Insisti: “Mas a senhora sabe para aonde eles foram?” – “Não sei não, meu filho...” – foi a resposta definitiva, e ela se afastou da janela, meio desconfiada, com um ligeiro aceno.

***

Debaixo da chuva, me sentei no meio-fio. Como poderia ser? Por quê? Eu estava atento aos meus sentimentos, eu sabia que deveria estar ali. Eu tinha certeza! Por que esse desencontro? Será que estivera valorizando demais os meus sentimentos, as minhas intuições?

Fechei meus olhos: “Senhor Jesus, eu realmente achava que deveria ter vindo até aqui, Quando ouvi falar dessas pessoas, que buscam te servir, meu coração se comoveu. Se o senhor realmente está querendo me mostrar alguma coisa, me ajude agora, por favor...”.

Abri meus olhos. Não pude evitar um fundo suspiro. De repente, me lembrei que o papelzinho onde eu havia anotado o telefone que constava na internet (e que estava sempre mudo), estava comigo, no bolso da frente da minha calça. Levantei, peguei aquele pedaço de papel todo amassado com meus dedos molhados, e digitei os números no celular, como que por um desencargo de consciência, uma última tentativa antes de ir embora. Eu tinha tentado esse número muitas vezes antes, sem conseguir nada, e nada fazia supor que obteria sucesso agora.

Aguardei alguns segundos... Toque de chamada!! Uma vez, duas... súbito, ouço uma voz masculina muito gentil:

“Toca de Assis, paz e bem, boa tarde!?”



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