Queda e visão do Caminho

Numa manhã eu acordei com uma sensação esquisita, uma espécie de agonia, uma angústia profunda, sem motivo aparente. Olhava ao meu redor e percebia que as "coisas" todas não estavam bem do jeito que costumavam ser sempre. Difícil explicar, mas as cores, os sons, tudo parecia... de algum modo, diferente. Essa é mais uma daquelas sensações que a gente experimenta e não sabe exatamente como explicar. Olhei para o rádio relógio: Eram 6:47 AM. Mesmo sendo meu dia de folga, não sei porque, estava completamente sem sono, e me sentia impelido a me levantar e sair. Levantei com aquela sensação inquietante, abri a cortina do quarto e olhei para o céu. Estava amarelado... Um tom de amarelo incômodo, nauseante. Me lavei rapidamente e saí para o quintal, sem saber direito o que estava acontecendo. Atravessei o jardim em direção ao portão que dá para a rua. De repente, levei um susto: Vi uma velha encostada no portão, do lado de dentro. Imaginei que talvez fosse alguma visita para minha avó, que morava na casa da frente. Me aproximei, porque estava sentindo uma forte compulsão para sair da minha casa, ganhar a rua, talvez dar uma volta pelo quarteirão, sei lá... Mas a velha estava parada bem junto ao portão, e quando passei por ela...

Bom, ela me olhou, bem nos olhos, e os olhos dela eram meio (está difícil continuar)... não gosto de falar, eram de uma cor meio cinza, morta, sem brilho. Quase não dava pra ver a parte branca daqueles olhos fundos, e olhar pra eles me provocou um desespero maior do que qualquer outra coisa que me lembre. Esbocei um cumprimento, me esforçando para não demonstrar minhas emoções, mas não consegui perguntar o que ela queria ali... Queria desviar o olhar, mas não podia. Quando passei por ela, para abrir o portão e sair, ainda continuava me olhando fixo, sem dizer palavra, e foi aí que eu percebi, junto com um calafrio, que se eu não me apressasse, iria ver alguma coisa que eu realmente não queria ver. Compreendi, de um estalo, que aquela mulher não era uma mulher, não era um ser humano, ali, na minha frente. Apressei meus passos, ganhei a calçada, atravessei a rua. Eu não sabia para onde ia, eu só queria me afastar da minha casa, me afastar daquela figura estranha, fugir pra qualquer lugar. Caminhei apressado. Alguma coisa me fazia querer olhar para trás, mas naquela hora eu sabia que tinha alguma coisa terrível bem atrás de mim, algo que eu não suportaria encarar.

Não havia mais ninguém na rua. Pessoas, animais, carros, nada. E não havia som. Eu não conseguia ouvir nenhum som! Só um silêncio tumular, e uma certa percepção de agonia no ar. Não me perguntem o porquê da comparação, mas eu imagino que o que eu sentia era parecido com o que sente o condenado no corredor da morte, quando chega o dia da execução. Um amargo na boca, uma sensação de desamparo. Tontura, náuseas... Não há ajuda, não há esperança.

Quase chegando na esquina, me encontrava dominado por um desespero crescente. Minha visão parecia turva, e em tudo que via eu confirmava que realmente as cores das coisas não eram as cores de sempre. Tudo me parecia meio "desbotado"... Olhei para o céu, e vi que o tom amarelado agora escurecia, mudando aos poucos para um cinza profundo. A sensação aterradora aumentava dentro de mim.

A horrível presença negativa atrás de mim, de repente já não estava mais só atrás. Eu a sentia ao meu redor, à minha frente, tudo ao mesmo tempo. Como uma fina neblina, trazia sons quase inaudíveis, mas apavorantes. Senti que o Mal me havia alcançado, como um tigre, daqueles indianos, que a gente vê nos programas do Discovery Channel, quando alcança um antílope: Implacável. Não havia saída. Não havia escapatória. Só o terror de um jeito que eu não podia entender e que não posso agora descrever. Um pavor novo e total tomou conta de tudo.

Não vou perder tempo tentando explicar. O fato é que eu acho que de onde estava, o próximo passo seria uma visita (permanente?) àquele lugar que conhecemos como inferno. Então eu fiz a única coisa que poderia, e eu tenho que dizer que não sei porque fiz isto, já que naquela hora já não conseguia pensar direito, tinha perdido minha capacidade de raciocinar: Me ajoelhei, ali, no meio da rua, abri bem os meus olhos, que se encontravam meio entorpecidos, como que anestesiados, assim como todo meu corpo. Ergui minha cabeça, olhei para o mais alto que pude, pro céu, e gritei(!!) – "JESUS!!!" Gritei uma, depois duas vezes. Logo em seguida, tudo escureceu de vez. "Apaguei".


Abri meus olhos. Estava na minha cama, o dia claro, raios de luz entrando pelas frestas da cortina. Uma sensação maravilhosa, indescritível, como imagino que deva ser a Felicidade mais completa, me invadindo, maior do que eu mesmo. Olhei para o teto, e parecia que podia ver através dele. Entendi que Ele tinha me ouvido! Eu vinha andando por lugares ruins, fazendo escolhas ruins, mas eu O chamei, e Ele me ouviu. Um sorriso involuntário no meu rosto, imensa serenidade me invadindo... Ainda deitado, falei baixo várias vezes: "Obrigado, obrigado... É você mesmo, a resposta. Obrigado por me mostrar. Agora eu despertei. Serei o mais fiel que puder. Obrigado, eu também o amo...".

Foi assim que encontrei uma série de respostas, daquelas que eu procurava há décadas. Interiormente, intimamente... Abandonei uma série de crenças inúteis na minha vida, "coisinhas" que pareciam inofensivas, ali, incrustadas no meu subconsciente, mas que agora eu sabia que me faziam mal (e sobre as quais falarei em tempo oportuno). Foi assim que eu descobri que nem tudo que parece, é. Descobri que a resposta é não, nem todos os caminhos levam a Roma. Não é verdade que todas as religiões falam a mesma coisa, de modos diferentes. Nem todas as opções que se apresentam em nossas vidas são boas. Sim, eu posso optar, e optar significa escolher entre coisas diferentes. O mal existe, e existem caminhos bons e caminhos ruins a serem escolhidos, neste nosso plano.

Diferentes caminhos levam a diferentes lugares, isto é um fato incontestável, assim como uma amoreira não produz figos e uma figueira não pode produzir amoras. Mergulhar na Luz ou nas trevas é uma questão de escolha. Graças a Deus.

Desde esse dia... A minha vida ficou muito mais difícil! Mas também ficou muito mais fácil. Bem vindo ao mundo dos paradoxos, ao qual eu acabava de chegar... Este é o meu humilde testemunho: O Cabeludo Barbudo, que tem um sorriso incrível, veste branco, mas é a pessoa mais "heavy metal" que eu já conheci. O seu poder não é brincadeira.



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