Sinais

Publicado originalmente por H K Merton em 11 de Janeiro de 2007 às 5:10 PM

A experiência que vou contar agora é extremamente significativa. E muito importante para mim. É algo difícil de se avaliar, ou mesmo entender. E é muito pessoal. Por isso peço sobriedade a todos.

O ano é 2001. Como não poderia deixar de ser, eu andava um pouco decepcionado com essa história de Avatares e grandes mestres (depois de Osho, Sri Mataji, Ramana Maharishi, Sai Baba...). Mas, como já deve ter ficado claro, o orientalismo, em especial o Hinduísmo e as disciplinas do Yoga haviam me marcado profundamente. Eu achava muito sentido e coerência na sua maneira de entender a vida e Deus:

“Deus está em tudo - Qualquer forma de adoração é válida - Todos os caminhos acabam levando, inevitavelmente, ao mesmo Lugar - Não há o binômio Criador/criatura, só há Deus, e Deus é tudo - O homem exalta Deus como onipresente, onisciente e onipotente, mas ele ignora Sua Presença nele mesmo! - Cada religião esquece que Deus é todas as Formas e todos os Nomes, todos os atributos e asserções”...

Essa linha de pensamento me soava tão plácida, tão agradável e reconfortante... Diz que não precisamos ter trabalho algum... Bem no fundo, me dizia que toda aquela história de Busca era desnecessária, inútil. Tudo que eu tinha a fazer era relaxar... A vida por si só se encarregaria de me levar ao Caminho que eu tanto procurava... Tudo era permitido, não havia nenhuma necessidade de observância de regras morais de nenhuma espécie, nem disciplina alguma...

Mas algo estava errado... Se o Caminho é assim tão fácil, tão natural, se ele se abre espontâneamente para todas as pessoas, e a realização é o destino inevitável do homem, então por que há tanta infelicidade no mundo? E principalmente por que, por quê quando eu me colocava só e em silêncio alguma coisa dentro de mim gritava que havia muito a ser feito ainda, que nada é assim tão fácil e que o meu prazo estava se esgotando - e não havia mais tempo a ser perdido?

Um dia, as palavras saíram de minha boca, quase que contra a minha vontade: “Eu tenho algo a fazer, mas não sei o que é! Eu não encontrei ainda o meu caminho, não sei o que vim fazer aqui, e o meu tempo está se esgotando!..” Falei isso pro meu amigo Cleber Rocha (com quem poerdi contato - se algum dia vier a ler isso, um salve pra você, querido!), uma das raras pessoas para quem eu ousei abrir essas minhas intimidades, em toda minha vida. Ele me respondeu: "Mas o que mais você poderia fazer, afinal?"

Essa pergunta ressoou em meus ouvidos por muito tempo... Na hora da meditação, quando a agitação dos pensamentos se acalmava, ela surgia, desafiadora: “O que eu tenho que fazer?”... Já me pegava considerando a possibilidade de desistir de tudo. Toda uma vida buscando repostas, agora já me encontrava além da casa dos trinta, e mesmo assim nunca tinha sentido nem sombra das certezas que eu tanto desejava.

Sei que muitos me consideram maluco, por ter me atirado assim, de corpo e alma, tantas vezes abrindo mão dos prazeres desta vida, em prol de buscar algo que, em última análise, eu nem mesmo sabia se existia. Mas ao menos vocês, amigos do blog, tentem entender: Este era eu! Este sempre fui eu! Se não podia enxergar qual caminho seguir, ao menos uma coisa eu sabia: Devia continuar. Tive minhas fases de desânimo, e a que estou contando agora foi uma das piores, mas a certeza de que a Busca não seria inútil nunca me abandonou. Está em mim querer encontrar o que há além, o que não pode ser visto do lugar onde nos encontramos.

Uma vez eu disse que, se um dia eu viesse a perder completamente a minha fé na existência de uma Realidade maior, eu me atiraria do alto do edifício mais alto que pudesse encontrar. Assim, ao menos poderia realizar o sonho de voar, ainda que por alguns segundos, antes de me despedir deste mundo insensato. Isso faz parte da minha natureza, eu fui feito assim. Acreditar que a vida é apenas isso, que não passamos de sacos de carne e sangue, desfilando nossas insanidades por aí, significaria para mim o pior dos tormentos.

Nessa época, logo que fui morar com Hana, havíamos transformado nossa casa numa espécie de templo hindu, mas com referências também budistas e cristãs. Num dos cômodos da nossa casa, retiramos todos os móveis, colocamos um tapete no chão e muitas almofadas espalhadas. No centro, montei um cavalete com um quadro com uma imagem de Jesus místico, e na parede um belo retrato de Krishna sobre uma flor de lótus. Num pequeno altar que montamos, fixo no outro canto da sala, dia e noite queimávamos pequenas velas e incenso suave. A idéia era termos um lugar em nossa casa para nos sentirmos em paz, para meditar e/ou orar. Ficou muito bonito...

Nessa fase, em que andava atormentado pelas questões fundamentais da minha vida mais do que nunca, chegou um dia em que me recolhi para uma oração, e depois permaneci por um longo tempo em meditação profunda, esperando por respostas. E pedi, falando mais ou menos assim:

“Onde está a Verdade? Por que não consigo encontrá-la? Já tive em minha vida todas as provas de que precisava para saber que não estou me iludindo, ao persistir na Busca. Mais importante, eu sinto isso em cada fibra do meu ser, em cada uma das micro-partículas que compõem o meu corpo e no mais profundo do meu espírito... Mas eu não sei, agora, o que devo fazer. Não sei que direção devo tomar, nessa procura que parece não ter fim... Não sei mais o que fazer para encontrá-Lo, meu DEUS! Conheci muitos lugares, muitos mestres, muitos caminhos... E também muitos erros... O entendimento que me deste me ajudou a discernir muitas coisas, me permitiu ver o engano em diversas partes, mas ainda não posso ver o Teu real Caminho...”.

De olhos fechados permaneci ali, prostrado em cima daquele tapete, diante das imagens de Jesus e Krishna, por um longo tempo. "Olhava" com intensidade para dentro de mim mesmo, procurando angustiadamente por um sinal, uma resposta para as minhas dúvidas. “O que eu devo fazer? Qual é o meu caminho?”...

Finalmente me levantei e me retirei. Era uma tarde de sábado. Na sala vizinha, sentei no sofá e liguei a TV. Estava um pouco frustrado porque nada havia acontecido, nenhuma resposta havia surgido na minha mente, como muitas vezes me acontece após as sessões de meditação. E aí...

Não haviam se passado ainda 5 minutos, quando ouvi o ruído de alguma coisa caindo, e algo como vidro se quebrando, na “sala de meditação”! Hana não estava em casa, eu estava sozinho. Nessa época, eu não tinha nenhum animal de estimação, que pudesse provocar algum ruído no outro cômodo. Desliguei a TV e apurei a audição: Tudo quieto. Pensei em esquecer e voltar a ligar a TV, mas algo me dizia: “Vá ver...”

Levantei do sofá e voltei para a sala de meditação. E devo ter ficado pálido:

O cavalete com o quadro da imagem representando Jesus havia caído, tombando para o lado, e parou apoiado na parede. Acontece que o quadro de Jesus, ao cair para o lado, bateu exatamente em cima do retrato de Krishna, derrubando-o. Este caiu e se desfez no chão, em vários pedaços. Não só o vidro se espatifou como também a bonita moldura dourada havia se quebrado em muitas partes...

Fiquei estático. Seria minha resposta chegando, mais claramente do que jamais eu poderia sequer imaginar?

O que aconteceu, afinal?




Segue a minha análise, tão fria quanto possível:

1. Eu estava sozinho em casa, estava no outro cômodo e as portas estavam trancadas. Portanto, não existe a menor possibilidade de alguém ter derrubado o cavalete com a moldura de Jesus.

2. Naquela sala, que eu usava para fazer meditação, não passava nenhuma corrente de ar.

3. O cavalete onde o quadro de Jesus estava colocado era bastante firme, pesado e seguro. Além disso, a moldura do quadro era de madeira maciça bastante grossa, revestida de metal, além do vidro de proteção, um conjunto também pesado. Portanto, posso dizer que nunca, jamais, essa estrutura iria cair apenas pela ação do vento, mesmo que fosse muito forte, ou algo do tipo (isso se houvesse vento no local, o que, como já expliquei, não era o caso).

4. Pra quem não sabe, eu sou artista plástico, pinto telas e às vezes fabrico minhas próprias molduras. Sei que elas são fortes. Mas todo o quadro com a imagem de Krishna, a base, a moldura e o vidro, se quebraram completamente, apenas com aquela pequena queda, de uma maneira que não poderia mais ser consertado.

Depois de recolocar o cavalete com o quadro de Jesus na posição normal, fiquei parado por um tempo, com o que restara do quadro de Krishna na mão, tentando compreender o que havia acontecido, tentando racionalizar, mas não havia como explicar aquilo de um modo racional!

Então era isso? O Caminho definitivo a ser seguido era mesmo Jesus? será que chegava a hora de abandonar as minhas influências hindus?..



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