Sexo e espiritualidade

Publicado originalmente por H K Merton em 15 de Dezembro de 2006 às 11:08 PM

Neste post, vou abordar uma questão delicada. Eu não me permito ao luxo, aqui, de esconder certos aspectos da minha vida, separar o que deve e o que não deveria ser compartilhado; porque se fosse assim, minha tarefa com este blog estaria incompleta. Permito que você entre no meu íntimo e fique a vontade para usar o que lhe puder ser útil, e descartar o que não tiver utilidade.

Retomando a narrativa de onde parou na postagem anterior; foi exatamente naquela fase, quando eu participava do grupo "Satsanga Gurugi", que eu comecei a me encanar um pouco com a questão do sexo. Eu vinha de uma fase relativamente longa, - já de alguns meses, - de completa abstenção sexual, me dedicando somente ao Yoga, seu estudo e prática, ao estudo do sagrado e à meditação.

Sou um cara espiritualizado, sim, sempre fui, mas sou de carne e osso e vivo no Brasil. Embora considere que eu nunca tenha sido um “devasso” também nunca deixei de ter minhas namoradas e aventuras.

Mas preciso ser sincero comigo e com todos aqui, e dizer que enquanto vivia esse período de abstenção, eu me sentia ótimo, ao contrário do que poderia até então supor. Eu me sentia mais lúcido, desperto... Sentia-me mais conectado com a minha intuição do que nunca. Eu tinha muitas pequenas “visões” que vinham a se realizar - coisas como sonhar com alguém que não via há anos, e encontrar esse alguém no dia seguinte, ou saber quem estava me ligando só de ouvir a campainha do telefone. Sim, essas coisas são comuns, acontecem com todo mundo, mas eu percebia que, nessa fase, esses fenômenos se intensificavam, tudo estava mais claro em minha mente, as realidades sutis estavam mais fortes, reais, quase palpáveis. Eu tinha sonhos lúcidos, dos quais podia captar toques e dicas úteis, que acabava usando no meu dia-a-dia. As soluções para meus problemas pareciam surgir espontaneamente em minha mente, como se eu estivesse mais desperto e ao mesmo tempo conectado com o meu inconsciente (ou com o Inconsciente Coletivo?) do que jamais estivera antes. Nas horas de meditação, então, eu parecia flutuar! Parecia-me que mais um pouco e sairia levitando pelo quarto. Nesse período tive outras experiências extremamente importantes, de foro íntimo, como aquela que descrevi no post “Samadhi”.

E o sexo não me fazia falta! Algo para se estranhar, afinal eu era um homem jovem e saudável, habituado a uma vida sexual ativa. E comecei a me questionar: Por que o sexo é tão importante em nossas mentes? Por que achamos que não pode haver prazer maior nesta vida? Por que o sexo, por vezes, nos torna obcecados? Por que amamos e adoramos todos os seus aspectos, inclusive (e por que não dizer principalmente) os que achamos mais "sujos", o seu lado mais profano? Por que procuramos transcender a carne, justamente por meio da própria carne? Por que será que eu poderia perdoar a qualquer defeito, qualquer crime ou falha da minha amada, menos que ela seja ou mesmo tenha sido promíscua? Por que me é insuportável, no mais íntimo do meu ser, imaginá-la entregando-se a outros corpos? Por que associar símbolos sagrados ao ato sexual parece ser o pior tipo de blasfêmia que pode haver?

E por que o sexo é mais importante para uns que para outros? Para alguns é um desejo incontrolável, exerce atração irresistível, enquanto que para outros é algo perfeitamente controlável, como o desejo de comer açúcar, por exemplo. E numa pessoa dotada de grande sensibilidade, como eu, o prazer que o sexo dá, por questões que não cabem agora, será com certeza tanto mais apaixonante.

Percebi que a importância que damos ao sexo, em última análise, depende de nós, e não do sexo em si, como se ele fosse uma "entidade" independente. Há patologias e registros de dependência sexual de todo tipo, na história da medicina... Dr. Freud que o diga.


A opinião de que não há prazer maior nesta vida com certeza será rebatida por muitos, especialmente os que se encontram já há muito tempo trilhando sendas espirituais. O prazer do sexo é subjetivo, como todos os prazeres carnais. Comer uma barra de chocolate, por exemplo, pode ser considerado um prazer incomensurável, sobretudo por um comedor compulsivo, e/ou viciado em açúcar ou em flavonóides. Esse mesmo prazer, no entanto, poderia ser analisado por um outro indivíduo humano, de modos e hábitos menos vorazes, como uma sensação nem tão maravilhosa assim.

O fato é que toda dependência traz sofrimento. E o vício é uma doença também psicológica, como um "demônio" que, intermitente, perturba a paz do espírito, fazendo com que não consigamos pensar em mais nada.

Vício é algo que nos torna escravos. - "Pecado é o que nos impede se sermos livres" (I aos Coríntios, 6:12). - A principal característica das doenças psicológicas que nos impedem de viver nossas vidas como queremos é a dependência, uma espécie de irracional escravidão de si mesmo. Assim perdemos a noção do real, do mundo, das coisas e das pessoas que nos cercam... Todos os tipos de dependência, sejam químicas ou psicológicas, têm sempre um ponto em comum: a perda da identidade, do poder sobre nossos próprias ações, uma espécie de auto hipnose destrutiva que nos cega para o óbvio e o sensato.

Há um outro aspecto primordial no que concerne ao sexo humano, que o torna tão desejado e idealizado: O sentimento de entrega. A própria questão encerra, em si mesma, a sua solução: o grande poder do apelo sexual em nossa cultura está no fato de que, por meio do ato sexual, podemos transcender as limitações da carne, por meio da própria carne. Praticar o sexo é uma entrega profunda, é despir-se de tudo que não somos; é deixar cair, diante alguém, toda a fantasia e as máscaras que precisamos usar perante a sociedade. É como um grito de liberdade, é o momento em que podemos gritar como animais, gemer e rastejar, sem precisar manter uma pose rígida. Para a imensa maioria dos indivíduos humanos, é o único momento em que baixam a guarda. Comumente é, para estes, o único momento em que são eles mesmos.

Há ainda a questão do sentimento de estar se “dissolvendo” em outro. Naquele momento, trocando fluídos, estamos deixando de ser o que os outros imaginam que somos para nos tornarmos o que realmente somos. É uma rara oportunidade de se dissolver o ego; neste caso, em outra pessoa. Claro que dissolver o ego no Todo é muito mais sublime. Mas, quem conhece esta Arte?

Obviamente o sexo, em si, não é uma força negativa, danosa ou nociva. Porém, será sempre potencialmente perigoso, na medida em que pode se tornar um vício. Talvez por ser o mais antigo e fácil (posto que é gratuito) vício da humanidade, a maioria das religiões o condenem, o façam impuro, imoral, imundo...

O sexo representa o oposto de tudo que é autocontrole, tudo o que “deve” ser, tudo aquilo que nos foi incutido como correto, sagrado e puro, desde a mais tenra idade. Também, sendo essencialmente carnal, é obviamente a representação mais perfeita de antítese do espiritual. Nem o beberrão, nem o glutão, nem o mentiroso, nem o ladrão e nem mesmo o assassino seriam pecadores tão impuros quanto os promíscuos, os lascivos, os que se entregam de corpo e alma à luxúria, porque este é o pecado que é cometido com prazer... Com grande prazer! Em nenhum dos demais pecados, tornamo-nos tão completamente irracionais. Por meio da prática de nenhum deles é possível transcender o próprio ego, e em nenhum deles envolvemos tão completamente outras pessoas em nosso próprio pecado...

Eu pensava e meditava tanto em tudo isso, por uma razão muito simples: Porque eu estava, como disse, muito bem sem o sexo. Todas as perfeições espirituais que eu buscava, lentamente, começavam a se fazer presentes na minha vida. E agora, justamente agora, surgia Hana em minha vida. Eu me apaixonei, mas hesitava em iniciar um relacionamento e perder tudo que estava ganhando com a minha dedicação exclusiva ao espírito.


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