Sexo e espiritualidade - conclusão

Publicado originalmente por H K Merton em 18 de Dezembro de 2006 às 12:04 PM

Mais uma vez eu vivi o privilégio de comprovar, por mim e para mim, que realmente há mais na vida do que a rotina massacrante do dia-a-dia, a que infelizmente acabamos nos acostumando. Creio firmemente que somos assistidos, guiados. Creio numa Força maior, que trabalha constantemente a nosso favor, e que podemos encontrar nossas respostas e soluções, se procurarmos com verdade e discernimento. “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todos os que pedem, recebem; os que buscam, acham; e a quem bate, a porta se abre.” - Mateus 7, 7-11. Continue a leitura e entenda porquê...

Conforme descrito no post anterior, eu vivia um angustiante dilema interior sobre o papel do sexo na vida do buscador. Eu tinha a espiritualidade como prioridade na minha vida, mas mesmo assim, sou um ser humano comum, feito de carne e osso. Entenda-se que para mim, espiritualidade nunca foi sinônimo de alienação, de me desligar da realidade concreta das coisas. Espiritualidade para mim nunca significou pseudo-misticismo, bitolação... Na verdade, eu nunca fui do tipo que acredita em duendes :P...

Desde muito cedo percebi também que espiritualidade é uma coisa distinta de religião, embora na maioria das vezes as duas andem juntas. De um certo ponto de vista, poderia dizer que as diferentes religiões são meios para conduzir o ser humano à espiritualidade. Encontrar essa espiritualidade, para mim, significava encontrar o significado da vida, desvendar os segredos do Universo (só isso), alcançar as respostas para as questões fundamentais, como “Por que estou aqui? Quem sou eu? De onde vim e para onde vou? Há um Deus? Quem é Ele e o que quer? E, porque eu deveria me preocupar em saber o que Ele quer?”. O sentido de tudo, enfim, e outras coisas parecidas...

Interessante notar que a Psicologia clássica, hoje, admite que o ser humano, além de um “animal racional”, como tradicionalmente classificado pela biologia, também é um “animal emocional” e um “animal espiritual”. Isso é assim desde a era das cavernas. Mesmo no período da história humana em que as prioridades absolutas eram proteger a própria pele dos inúmeros e imprevisíveis perigos, e correr atrás (literalmente) do alimento que garantiria a sobrevivência por mais um dia, o homem já tinha consciência da realidade do Transcendente. Objetos e desenhos dos períodos pré-históricos que remontam à época do surgimento do homem na Terra, encontrados abundantemente em escavações arqueológicas, demonstram que o homem, nesses períodos primordiais, já praticava rituais em honra a um Poder/Energia superior, que ele acreditava existir acima dele.

Mas então lá estava eu, um homem com um dilema na cabeça, procurando por uma resposta. Muitas vezes as respostas para essas questões internas e íntimas, dúvidas que surgem na minha mente e me perturbam por algum tempo, acabam surgindo como que espontaneamente, afloram em meio aos meus pensamentos, quando menos espero. Outras vezes, aparecem com toda clareza após uma sessão de meditação. Mas dessa vez isso não estava acontecendo. E eu não entendia o porquê. Essa questão era, com certeza, fundamental para o desenvolvimento da minha busca. Não que eu estivesse pensando em me tornar celibatário ou coisa que o valha, mas, como já dito, eu atravessava uma fase prolongada de abstinência que me trazia muitos bons frutos. Eu estava muito feliz assim, e agora podia até entender, de um jeito inteiramente novo, a opção dos monges e seminaristas. Ficar sem sexo, pela primeira vez na minha vida, não me parecia um grande sacrifício.

Mas qual o papel do sexo na vida de um buscador? Qual a sua importância, de que maneira devemos interagir/conviver com essa energia tão poderosa? De que maneira entender o sexo? Que tipo de valor ele têm? Será que deveria ser encarado apenas como meio de procriação, usado somente para “continuidade da espécie”? Ou eu deveria me liberar para curtir esse prazer à vontade, da maneira que bem quisesse, sem culpas ou medos?.. Estes eram os pensamentos de um cara chamado Henrique, andando pelo centro da cidade de São Paulo, Brasil, lá pelos idos do ano de 2001 dC. - Um cara que não se conformava por não conseguir encontrar suas respostas tão esperadas. - Foi então que...

Num finalzinho de tarde de uma sexta feira, eu estava na região central da cidade de São Paulo. Tinha ido buscar minha futura esposa no trabalho, mas cheguei cedo, então resolvi dar uma voltinha pelas ruas próximas ao edifício onde ela trabalha. Passei em frente à livraria "Temos Livros", ali na na Avenida São João, nº 526. - É uma livraria pequena mas charmosa, tradicional na região central da minha cidade.

Naquele exato momento, minha mente estava vazia e traqüila. Eu não estava pensando em nada em especial. No instante em que entrei na livraria, o fiz apenas por hábito (eu não consigo passar em frente a uma boa livraria sem dar uma entradinha, pra conferir as novidades...). Comecei a olhar as prateleiras, despreocupadamente. Antes que visse qualquer outra obra, um pequeno livro de capa vermelha, acomodado numa das prateleiras mais baixas, quase no nível do piso, me chamou a atenção: Olhei e vi que era de autoria do guru indiano pelo qual eu tinha um carinho especial, conforme já falei em outros posts: Paramahansa Yogananda.

Eu pego o livro, que ainda não conhecia, olho a arte da capa por um instante, e logo depois o abro. De primeira, abro na página 154, e imediatamente fixo meus olhos num dos seus últimos parágrafos. Bem, eu não vou falar mais nada. Meu relato de hoje termina aqui, e as conclusões deixarei a cargo dos meus possíveis leitores. Abaixo, a imagem da página em que eu abri o livro naquele dia, e, a seguir, a transcrição do trecho que li, de pronto, como se a minha atenção tivesse sido atraída para ele.


Clique na imagem para ler. - Claro, eu trouxe o livro para casa.


“O sexo tem o seu lugar no relacionamento conjugal entre o homem e a mulher. Mas se ele se tornar o fator primordial desse relacionamento, o amor bate as asas e desaparece por completo. No seu lugar aparece então a possessividade, a familiaridade excessiva, os maus tratos, a perda da amizade e da compreensão. Embora a atração sexual seja uma das condições sob a qual nasce o amor, o sexo por si só não é o amor. O sexo e o amor estão tão afastados um do outro quanto o sol e a lua.

Somente quando a qualidade transmutadora do verdadeiro amor é suprema na relação é que o sexo se torna um meio de exprimir o amor.

Aqueles que vivem demasiadamente no plano sexual se perdem e não são capazes de encontrar satisfação no relacionamento conjugal. Por meio do autocontrole, no qual o sexo não é a emoção determinante, mas apenas incidental em relação ao amor, é que marido e mulher podem saber o que é o amor real. Neste mundo moderno, infelizmente, o amor é quase sempre destruído por causa da ênfase exagerada que se dá à experiência sexual”.


- Paramahansa Yogananda ('Onde Existe Luz', Editora Lótus do Saber, 2001)


Apenas uma pergunta: semelhanças entre este caso e o que descrevi aqui são mera coincidência?


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