Projeção astral e EQM - parte 2

Publicado originalmente por H K Merton em 6 de Dezembro de 2006 às 7:03 PM


A sigla I. I. P. C. significa “Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia”. Esse instituto supostamente se dedica ao estudo dos fenômenos espirituais, em especial as experiências de “desdobramento” ou “projeção astral” (ou ainda ‘viagem astral’). Esta foi a primeira organização a se criar, em solo nacional, voltada a esse tipo de atividade. Hoje, fazendo uma breve pesquisa no Google, podemos encontrar umas duas dúzias de similares. Não quero parecer maldoso, mas os motivos me parecem óbvios: a coisa dá dinheiro.

Quando você assiste a uma palestra de apresentação do IIPC, descobre que a única coisa gratuita ali é a própria palestra. Por uma hora e pouco, os caras tentam convencê-lo de que o fenômeno da projeção astral consciente é real. Quer dizer: todos temos a capacidade de abandonar o corpo biológico, em espírito (ou alma, atman, self, corpo sutil, corpo etéreo, etc...), que eles chamam simplesmente de "consciência", e sair voando por aí, à vontade, para onde quer que desejemos. Usando todo tipo de teorias, comparações e elucubrações mirabolantes, além de citações de casos diversos, tentam fazer a cabeça da assistência, para logo a seguir, oferecer um “Curso de Projeção”, no qual seria possível aprender todos segredos para se “projetar” à vontade.

Dominar essas técnicas significaria conquistar um poder incrível, o tipo de coisa com que se sonha quando criança, e que podemos ver, por exemplo, nos filmes do Harry Potter. Imagine estar aqui, agora, e no minuto seguinte poder estar passeando no Japão, ou então conhecer as pirâmides do Egito, ou apreciar o interior da Capela Sistina ou as obras do Louvre, por exemplo. E tudo de graça, afinal, o espírito não precisa de passagens ou ingressos para entrar onde quer que seja, além de ser, claro, invisível e indetectável. Quer saber se o presidente Lula sabia ou não das armações da turma do "mensalão"? Fácil: é só se “desdobrar” e ir fazer uma visita à Casa da Dinda, invisível, para ouvir as conversas. Algumas coisas que você iria ver e ouvir por lá, com certeza o fariam definir o seu voto, por exemplo. Imagine toda uma nação dominando esses poderes incríveis: Seriam os eleitores mais conscientes do mundo! Claro que isso também poderia ser usado para o mal, mas deixa pra lá...

Agora voltando ao planeta Terra, para participar desses cursos, é preciso pagar, e os valores não são nada accessíveis. Espiritualidade só pra quem pode pagar! O mais interessante de tudo é que eles afirmam que podem provar tudo o que alegam, mas preferem não fazê-lo! Por que? Fácil: Eles têm um lema, que seguem à risca: “Não acredite em nada do que estamos dizendo aqui. Faça os nossos cursos, aprenda as técnicas e comprove por si mesmo!”...

Legal, né? O único detalhe é que, como já disse, para fazer os cursos, é preciso pagar, e caro. Só por curiosidade e pra poder chegar a uma conclusão definitiva, eu participei de alguns desses cursos (eles acontecem em módulos) - E faço questão de quebrar o segredo e falar pra vocês como eles são: Os candidatos são colocados deitados em cima de colchonetes e induzidos a um relaxamento profundo, através de música suave e técnicas de alongamento e respiração. Depois de um tempo, o instrutor simplesmente pede a todos que se desliguem das sensações físicas e foquem suas atenções em suas consciências, e que tentem deixar seus corpos. Ele explica que é algo como dormir, mas mantendo a consciência ativa. Todos são deixados assim por um período de tempo determinado, que vai aumentando aula após aula. E é só isso. Claro que sempre tem uma senhorinha mais impressionável no meio da turma, que começa a chorar, no meio da prática, dizendo: “Oh! Acho que estou conseguindo! Eu saí do meu corpo!..” – O instrutor sorri e diz: “Parabéns! Continue assim!”... E o resto da turma logo se impressiona também: “Olha, ela conseguiu!”...

Isso é tudo. A grande maioria, que não consegue nada, é aconselhada a continuar com as práticas em casa, diariamente, que logo, logo, vão obter resultados. E se não conseguirem, é porque não estão fazendo direito, afinal, o processo não é assim tão fácil. Pergunta: “Mas na palestra disseram que era tudo muito simples, e que essas capacidades estariam ao alcance de qualquer pessoa!” – Reposta: “Sim, todos têm essa capacidade, mas uns encontram mais dificuldade para relaxar do que outros!”...

Bem, não preciso dizer o que eu acho de toda essa história de instituições e escolinhas para ensinar a “viajar” no astral... O que mais me choca nisso tudo é a credulidade das pessoas. A “galera” que freqüenta essas palestras e cursos parece que quer ser enganada! Como se acreditar nessas coisas funcionasse para elas como uma espécie de anestesia, um consolo para as dificuldades e decepções dessa vida... Muitos que vêm aqui devem conhecer a lista “Voadores”, por exemplo: Muito blábláblá e nada de confirmações concretas de tudo que é alegado. Acho triste.

Mas, e quanto ao fenômeno em si? Não é porque alguns irresponsáveis se valem desses artifícios para explorar a ingenuidade alheia, que devemos descartar toda e qualquer possibilidade da existência de casos reais de projeção extracorpórea. Minha própria esposa vivenciou uma situação de projeção consciente, quando ainda era adolescente. Ela viu o seu próprio corpo deitado, logo abaixo dela. E eu posso deixar aqui a minha palavra de que ela é uma pessoa idônea. Na verdade, uma das mais idôneas que eu já conheci em toda minha vida, incapaz de inventar uma história assim. Além disso, há os casos de EQM (Experiência de Quase Morte, quando um paciente permanece clinicamente ‘morto’ por um certo tempo, voltando depois à vida, contando que teve experiências místicas fora do corpo): Existem muitíssimos casos documentados de fenômenos ocorridos nesse sentido, muitos inclusive com celebridades nacionais. O velejador Lars Grael é um desses casos, o apresentador punk João Gordo (por incrível que pareça) é outro. No futuro, eu pretendo apresentar, em detalhes, alguns desses casos. Uma pesquisa feita em 1982 pelo Instituto Gallup dos Estados Unidos mostrou que aproximadamente 8 milhões de pessoas, ou 4% da população americana teria experimentado sensações físicas de quase morte! E quem seriam essas pessoas? Gente com boa saúde mental, o que elimina a possibilidade de delírios ou distúrbios, e de formação cultural e religiosa muito diversa, o que elimina a possibilidade de um fenômeno localizado em algum estrato social.

Mas dos casos ocorridos em nosso país, um dos mais famosos e respeitados, inclusive por pesquisadores internacionais, é o da radialista Cida Cavalcânti (capa da revista Superinteressante nº 216), que diz ter passado por 3 experiências de quase morte. A mais importante teria sido a ocorrida após um acidente automobilístico em 1994, no Estado de Santa Catarina. Ela afirma ter visto seu próprio corpo sendo resgatado após o desastre. Como ela também afirma que agora consegue se “desdobrar” na hora em que quiser, e “viajar no astral” à vontade, eu resolvi pedir ajuda a ela. Mandei-lhe um email, cujo conteúdo segue abaixo, na íntegra:

"Cara Cida,

Desde os quatro anos de idade eu tenho buscado pelo caminho da espiritualidade, desde que recebi, diretamente de minha mãe, a chocante informação de que nossas vidas não são eternas, inclusive a minha. Ao saber da fatalidade da morte, iniciei uma procura desesperada pelo Criador, aquele Deus absoluto de que todos falavam. (...) Essa busca parece não ter fim, e embora tenha sido repleta de felicidades, também me levou a muitíssimas frustrações. Escrevo porque (...) sempre me interessei pelo fenômeno conhecido como E.Q.M., e também pela chamada projeção extra-corpórea da consciência. Embora eu tenha vivenciado algumas experiências que não posso explicar, até hoje não consegui encontrar ninguém que pudesse realmente me dar informações dignas de crédito ou ao menos coerentes sobre o assunto. O que conheci foram instituições que me receberam com frases do tipo: “Sim, nós temos a chave para o ‘processo’. Basta fazer um pequeno ‘curso’ conosco, pelo qual o Sr. Pagará a módica quantia X e assim aprenderá as ‘técnicas’ e os ‘métodos’ que lhe possibilitarão se projetar conscientemente para fora do corpo físico, e ainda conhecer outros planos de realidade...”Quando pergunto se esses supostos ‘mestres’ teriam como ao menos tentar comprovar que estas experiências são reais (o que eu tenho certeza, seria muito fácil para alguém que realmente domina tais capacidades) tudo que ouço são evasivas, do tipo: “Experimente e comprove por si mesmo” – Uma postura bastante conveniente...Depois de tanto tempo nesta Busca, chega o momento em que começo a me desencantar com a idéia de que possam existir evidências da vida espiritual (...) Se na sua experiência você entendeu que deveria ajudar outras pessoas a encontrar a mesma paz que você encontrou, ajude-me. Basta uma palavra sensata e verdadeira. Isso é tudo que eu espero
"

Para minha surpresa, a resposta veio nos seguintes termos:

"Henrique, olá,

Ajudar de verdade, não é passar a mão na cabeça e fazer cafuné. Às vezes, para ajudar, é preciso dar uma porrada na cara de alguém, para que essa pessoa acorde para a vida. Enquanto eu fiquei me sentindo vítima do mundo, me lamentando, eu era um horror de pessoa, triste, baixo astral. Precisei tomar uma porrada da vida para abrir os olhos, de fato, abrir a mente e o coração. Mas não creio que você queira um acidente automobilístico como eu tive: cair 50 metros de altura, fraturas na coluna e outras tantas escoriações para poder acordar para a vida.Em primeiro lugar, calma, controle a ansiedade. Eu só posso falar da espiritualidade pelas minhas vivências. Para mim, eu garanto que tem vida fora do corpo biológico. Mas eu fui buscar essas evidências experimentando, sim, por mim mesma. Só assim, eu tenho certeza de que é real, não é conversa de alguém. (...) você é quem deve buscar suas respostas. Eu acreditei em mim e nas minhas experiências, e não nas experiências dos outros. E pare de ficar procurando uma 'muleta' para se apoiar, querendo provar a existência de Deus. Daí você não consegue e fica frustrado. Não existe ninguém que tenha provado isso. E para que você quer provas? Para se sentir protegido? Por que você precisa de alguém ao seu lado para se sentir seguro? E por que, nessa idade, você não perdoa a sua mãe por ter te contado a verdade? Ou você preferia ter sido enganado por ela? Se você ficar procurando motivo pra drama na tua vida, você vai achar. Está na hora de olhar o lado positivo das coisas que te acontecem (...) E não fique esperando cair do céu todas as respostas prontinhas no teu colo. Vá atrás. Faça cursos, sim. É uma maneira saudável de obter conhecimento.E as respostas coerentes e dignas de crédito, que você menciona, e diz que não as recebeu, é porque quer todas de uma vez, e fica bravo se não te dizem o que você quer ouvir. Primeiro, paciência, rapaz! Vá buscar conhecimento nos livros (tem vários, muito bons), nos cursos, também. (...) Não fique esperando um “mestre” comprovar para você. Você diz que eles deveriam ter facilidade. O que é isso, Henrique??? Você está pensando que são mágicos de circo, que fazem aparecer e desaparecer coisas? Esse assunto é muito sério e Amparador nenhum doa energia para demonstrações públicas. Quem tem que buscar é você, com suas próprias experiências. E “postura conveniente” é a tua, de querer passar para os outros a responsabilidade de dar respostas para os teus questionamentos. Está mais do que na hora de amadurecer. Olhe no espelho; converse com a pessoa refletida lá e mexa-se!

Um abraço da Cida."


Bom, pra quem já me acompanha neste blog há algum tempo, não preciso dizer que fiquei pasmo com essa reação. Se ela não tivesse citado o meu nome, eu iria imaginar que tinha enviado essa resposta para a pessoa errada, por engano. Afinal, ela está respondendo a uma série de perguntas que eu não fiz e me acusando de um monte de outras coisas que eu não sei de onde tirou!! Esperar respostas prontas?? Isso é uma coisa que eu nunca fiz. Culpar a minha mãe por ter me enganado??? Isso é que eu chamo de distorção! Depois ela me aconselha a ler livros, fazer cursos, buscar por mim mesmo, sendo que eu já tinha dito que isso é exatamente o que eu tenho feito, com a máxima seriedade, a minha vida inteira!!

Pois é, tudo que pedi foi uma resposta sensata, e isso foi tudo que não consegui. Por algum motivo, ela parecia ter se ofendido com as coisas que eu falei. E foi só a partir daí que, fazendo uma pequena pesquisa na internet, descobri que ela própria também dá palestras e ministra cursos em instituições diversas...



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