Os Sinais continuam?

Publicado originalmente por H K Merton em 23 de Janeiro de 2007 às 12:02 PM

O que poderia significar aquilo? Jesus sempre fora meu “mestre” preferido, sempre nutrira pela sua figura um carinho especial. Mas as religiões ditas cristãs, como um todo, haviam me decepcionado demais para que eu pudesse sequer considerar a possibilidade de, assim, de repente, me tornar “cristão”... Será que era isso o que a Sabedoria Infinita havia planejado para minha vida? Tinha que haver alguma outra resposta...

Meditação... A meditação sempre fora uma das ferramentas mais importantes na minha Busca. Nada parecido com isso eu jamais encontrara dentro das tradições cristãs. E sem a meditação eu não teria chegado até aquele ponto do Caminho.

Numa bonita tarde de inverno (quase certeza que era uma sexta-feira), sozinho em casa, pouco depois das 15 horas, eu entrei no meu “quarto de meditação”. Sentei-me no chão, como sempre costumava fazer, na postura de “Vajrásana” (sentado sobre os calcanhares, joelhos sobre o tapete e as mãos sobre o colo), posição em que eu era capaz de ficar por longos períodos de tempo. Algo me dizia que naquele dia eu iria precisar de um bom tempo no estado de “suspensão das agitações mentais”, que tanto bem me fazia. Eu precisava entender o que estava me acontecendo, e qual deveria ser o meu próximo passo.

Eu tinha sempre o hábito de (nada que tivesse aprendido em algumas das escolas por que passei, mas sim uma espécie de “ritual” pessoal meu), antes de iniciar a meditação, me “despir” de todos os “supérfluos”, de tudo que de alguma forma me apertasse ou pudesse provocar qualquer desconforto durante a prática: Anéis, relógio, óculos (eu usava, na época), correntinhas...

E assim fiz, naquele tarde. Tirei meus óculos, o meu relógio e uma corrente de prata que naquela época eu usava no pescoço, com uma pequena medalha também de prata, que tinha alguns símbolos orientais gravados, cujo significado eu nem conhecia. Acomodei esses objetos sobre o tapete, ao meu lado, e fechei meus olhos. Agora que tinha vivenciado o impressionante episódio com o quadro de Jesus, já não usava mais os mantras indianos para o relaxamento mental, estava começando a optar sempre por uma oração, principalmente o Pai nosso. E em todas as vezes, fechado e sozinho no meu quarto, em completo silêncio e livre de preocupações externas, me admirava mais com a absoluta perfeição dessa oração. Tudo que precisamos saber e pedir está ali. Aproveito esse post pra falar um pouco sobre o tema:


“Pai nosso, que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome...”


A começar por chamar ao Deus Todo-Poderoso, Criador do Universo, simplesmente de Pai. Isto, embora a maioria das pessoas hoje não imagine, foi uma das maiores revoluções provocadas por Jesus. Até então, a idéia de usar a expressão “Abba” para se referir ao poderoso e terrível “Senhor dos Exércitos”, o Deus “Vingador de Israel”, soaria como blasfêmia para a maioria das correntes religiosas reinantes entre o povo judeu. Pra ser ainda mais específico, a palavra “Abba”, no hebraico, representa a maneira como as crianças chamam seus pais, significando algo assim como “papai”, ou “paizinho”. Uma demonstração inacreditável de intimidade, por parte de Jesus, para com o Deus absoluto que os Judeus tanto temiam. Antes dele, em diversos escritos do Antigo Testamento, o espaço reservado para se designar a palavra com que chamar Deus era deixado em branco, tanto medo tinham de sequer escrever o Santo Nome. Criaram muitas formas, títulos, ideogramas parar se referir ao Senhor, porque se consideravam indignos de pronunciar o Seu nome ou sequer de escrevê-lo. Aí surge um Galileu errante e sem formação sacerdotal, mas que mesmo assim ensinava os mestres na sinagoga, chamando a este mesmo Senhor temível de “Abba” – Paizinho. Isto é o que podemos chamar de uma profunda revolução espiritual, verdadeiramente; porque é uma revolução interior, do tipo que transforma, de dentro pra fora, o comportamento humano.


“...venha a nós o Vosso Reino...”


Nos convida à reflexão sobre o significado do termo “Reino de Deus”, algo realmente muito profundo, mas está claro nos evangelhos que ele não se referia (somente) a um plano superior em algum lugar mais elevado, mas sim a um estado interior do ser humano - "O reino de Deus está no meio(ou dentro, conforme alguma traduções) de vós" (Lc 17, 21).


“...seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como nos Céus...”


Assim como na tradição budista e também na hindu, o seguidor é exortado a anular o próprio ego, se despir de todo orgulho e se entregar, com humildade e confiança diante da sabedoria do Criador. A minha própria vontade costuma me levar sempre à destruição e ao engano. Faça-se na minha vida a Tua vontade, meu Pai, porque só Tu é que sabes o que é melhor para mim.


“...o pão nosso de cada dia dai-nos hoje...”


Viver e permanecer no agora. Não se preocupar, ou se preocupar menos com o dia de amanhã. Parar de fazer tantos planos para o futuro, esquecendo o presente. Confiar em Deus, a cada novo dia, entender que há nessa vida mais do que comer e beber, que representam, aqui, todas as nossas necessidades materiais:

“Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo". (Matheus, 6:25 a 34)


Segundo uma infinidade de mestres yogues, este é o maior segredo para a iluminação espiritual: Viver o agora!


"...perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores...”


Lei do karma. Lei do retorno. Simplesmente justiça. - Chame como quiser, não há Regra mais perfeita do que essa, não há caminho mais perfeito para a paz na Terra, para se alcançar uma vida pacífica e feliz em sociedade. Minhas falhas serão perdoadas, se eu souber perdoar também às falhas alheias. Alguém aí discorda que esse princípio é justo?


"...e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”.


No fim, pedimos ajuda para nos mantermos no caminho correto, e proteção contra todos os males. Perfeita. Irretocável. Esta é mesmo a Oração das orações, e além de tudo é uma aula da verdadeira doutrina do Cristo. E eu só tinha voltado a prestar atenção nisto por causa do que tinha me acontecido. Quanto eu estava perdendo, sem perceber!..

Voltando agora ao meu relato de hoje:

Iniciei a minha meditação, e não sei por quanto tempo permaneci ali quieto, sentindo minha mente se libertando, pouco a pouco, da “ciranda” de pensamentos obsessivos, que, infelizmente, é o nosso estado mental normal; e aproveitando a indescritível sensação de entrar num estado de meditação profunda. Me desliguei de tudo, sentindo uma paz incomensurável e preciosa tomando conta de mim. Quando voltei ao estado mental normal, me levantei devagar, ainda meio entorpecido pela experiência. Ao abrir a janela do meu quarto, fiquei surpreso ao perceber que o sol já estava se pondo, tingindo o céu numa composição de cores maravilhosas, em que predominavam os tons em vermelho... Eu devia ter ficado meditando por mais de três horas!

Fazia um friozinho agradável, e eu me permiti ficar por um tempo ali na janela, apreciando a despedida do “irmão sol”, sumindo devagarzinho no horizonte, por detrás dos prédios da Av. Paulista. Que paz profunda eu sentia naquele momento, como se não houvesse problema algum neste mundo...

Dentro do quarto já começava a ficar escuro, então acendi a luz, e recolhi minhas coisas do chão. Coloquei o relógio no pulso, coloquei meus óculos... E... cadê a minha corrente? Eu tinha certeza de tê-la colocado junto com meu relógio e meus óculos. Procurei muito bem, apalpei o tapete com as mãos, num gesto irracional, como se a corrente de prata com a medalha pudesse estar ainda no mesmo lugar, invisível. Nada. Olhei embaixo dos móveis, olhei nos quatro cantos do quarto. Nada.

Eu estava sozinho em casa, trancado no meu quarto. Ninguém tinha entrado, ninguém tinha saído. Eu permanecera todo o tempo ali dentro, sentado no tapete, sem sair para nada. E eu tinha absoluta certeza de que tinha tirado a corrente do meu pescoço e a colocado bem ao lado do meu corpo, junto com o relógio e os óculos. Mas agora ela não estava mais lá! Havia desaparecido!? Como isso seria possível? Voltei a procurar. Vasculhei todo o chão, e até abri todas as gavetas, olhei todas as prateleiras, mesmo tendo absoluta certeza de que tinha tirado a corrente do pescoço e colocado no chão... Nada!

À noite, quando minha esposa chegou, ainda pedi ajuda para procurar. Buscamos em todos os cômodos da casa, em todos os cantos, cada fresta foi vasculhada. Mais uma vez, nada!..

Fiquei desorientado, e um pouco assustado. Lembrei que aquela medalha, que eu carregava sempre no pescoço, trazia gravado um símbolo pagão oriental, e uma série de inscrições parecidas com ideogramas chineses, cujo significado eu desconhecia. Eu a usava porque tinha sido presente de uma amiga, e eu a achava interessante, exótica. Muitas pessoas me perguntavam qual o significado daquela medalha, achavam bonita, mas eu nunca fiz questão de pesquisar sua origem e significado. E agora, ela desaparecera. Para sempre!

E agora? Mais um Sinal? Será que o que acabara de acontecer tinha alguma relação com o evento envolvendo a imagem de Jesus? Eu devia dar atenção ao ocorrido ou continuar a minha vida sem me importar muito com isso?..





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