Onde??


O ano é 2002. Posso dizer que, depois dos acontecimentos que relatei nos últimos posts, eu realmente me convenci de que o próximo passo deveria ser me reaproximar mais do Cristo e da sua doutrina, que, como eu já disse, sempre me agradaram. O desaparecimento da minha medalha, eu entendi, de um modo muito pessoal, como mais um “aviso” nesse sentido. “Procure Jesus...”...

Eu entendia que isso era o que devia fazer. Mas como? Meu problema não era a idéia em si, mas sim as diversas instituições religiosas que se auto proclamam “cristãs”. Com estas, eu nunca consegui me identificar. E não foram apenas os sérios problemas de adaptação (como os que me acompanham há algum tempo já sabem), mas também, e principalmente, uma incompatibilidade total entre o meu modo de pensar e os costumes e tradições comuns a cada uma destas correntes religiosas.

O catolicismo, mesmo sendo a mais antiga religião cristã, concentrava também o maior número de “desinteressados-tô-nem-aí” por metro quadrado que eu conhecia. Até os céticos são mais apaixonadamente interessados em defender a sua posição ideológica do que os católicos, ao menos a maioria deles. Somem-se a isso alguns escândalos com padres pedófilos aqui e acolá, a história comprometedora do passado da Igreja e a sua intolerância para com certas realidades dos nossos tempos (como a importância do uso da camisinha, por exemplo), e está pintado o quadro de uma religião que eu, apesar de respeitar, nunca iria seguir, ao menos no sentido de me tornar um seu membro.

Quanto aos assim chamados "evangélicos", principalmente representados pela atual enxurrada de comunidades neopentecostais que toma conta do meu país, eu os via como um grande grupo de “bitolados”, mestres em criticar e julgar a toda e qualquer pessoa que se atreva a pensar diferente deles. Com os caras era assim: “Nós estamos ‘salvos’. Vocês, pobres pecadores, estão todos condenados a passar a eternidade sofrendo no fogo do inferno...” Pretendem seguir a Bíblia (uma coleção de livros que começaram a ser escritos há quase 5 mil anos atrás) ao pé da letra, mas fazem questão de ignorar os ensinamentos realmente mais profundos daquele que chamam mestre, como este: “Quem não é contra nós, está ao nosso favor”.

Gostam de berrar suas orações o mais alto que podem, e ainda com o auxílio de microfones e potentes amplificadores com super caixas acústicas, durante seus cultos, assustando qualquer pessoa que não conheça a religião. Gostam de falar todos ao mesmo tempo, em seus louvores, falar em "línguas estranhas", atabalhoadamente, desorganizadamente, enquanto pulam e soltam gritos de "Aleluia!" e "Glória!", desobedecendo assim (completamente) os princípios bíblicos que eles tanto se gabam de seguir:

"Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, de que vos aproveitará? (...) Instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? (...) Assim vós, se com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar! (...) Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua. (...) Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois, ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, Cale-se o primeiro. (...) Porque Deus não é de confusão e sim de Paz. Como em todas as igrejas dos santos. (...) Tudo, porém, seja feito com decência e ordem". - I Coríntios 14:7 – 33

Muitos espíritas se dizem os “verdadeiros cristãos”... Mas eu sabia, sem nenhuma dúvida, no meu íntimo, que eles definitivamente não são cristãos. Por mais que Kardec tenha se esforçado por tentar adaptar o texto bíblico à sua própria doutrina, não há como negar que Jesus nunca falou em reencarnação, nem nunca pregou a comunicação com os mortos como maneira válida para "evoluir" ou se aproximar do Pai, preceitos básicos do espiritismo.

Nas religiões orientais eu encontrei muitas verdades, muitas dicas extremamente úteis, diversas ferramentas para serem utilizadas ao longo do Caminho. Mas não encontrei ali o fim em si. Na verdade, assim fora toda minha experiência até aquela data: aprendendo coisas boas e úteis em diversos lugares, descobrindo e guardando conhecimentos que seriam importantes na minha formação enquanto buscador. Mas a Verdade, mesmo, as respostas fundamentais que eu tanto procurava, nada...

Eu sei que alguns encontram muita dificuldade para entender essa minha postura, e se perguntam por quê. Por quê, até esse ponto, depois de ter conhecido as principais religiões cristãs, depois de ter estudado a sério o budismo (até fui candidato a monge) e o hinduísmo, depois de ter conhecido o espiritismo, depois de ter conhecido e estudado a fundo tantos “grandes mestres” que levam esperança para milhares de pessoas ao redor do mundo, depois de ter estudado a vida dos grandes filósofos e ter feito parte de uma série de grupos espirituais, grandes e pequenos; depois de ter conhecido de perto e estudado em algumas das maiores escolas esotéricas do mundo (como Gnose e Rosa Cruz), eu ainda não estava satisfeito? Afinal, o que eu queria? Do que eu precisava? Por que me comportava como um cético, alguém que na verdade não tem fé em nada??

Eu respondo, do jeito mais suscinto possível: eu só queria ter certeza! Eu queria saber! Saber, acima de qualquer dúvida, se eu estava ou não no caminho certo, saber se estava mesmo fazendo aquilo que deveria fazer, se estava seguindo na direção certa. Quando eu era garoto, me lembro de colocar uma garrafa vazia em cima de um muro no meu quintal e pedir: “Meu Deus, se eu estou fazendo o certo, se é isso mesmo que o Senhor quer para minha vida, me mostra agora, claramente! Derruba essa garrafa e eu terei a certeza! Se eu tiver certeza, serei capaz de fazer qualquer coisa para cumprir a Tua vontade! Te seguirei até o fim, entregarei a minha vida! Eu só preciso saber...”

Mas nada acontecia. E a minha busca continuava... Chegaram a me dizer que essa Verdade que eu tanto procurava, não iria encontrar em lugar algum, nunca. Hoje, eu posso dizer que essas pessoas estavam erradas.

***

Eu agora procurava um modo de “seguir” Jesus sem ter que pertencer a nenhuma das religiões cristãs tradicionais, com as quais eu já tinha me decepcionado. Claro que, antes disso, eu já tinha tentado a solução mais fácil e a que me parecia a mais óbvia: “Seguir” Jesus e sua doutrina do “meu jeito”, mesmo. Sozinho, sem me preocupar com religião alguma, simplesmente cuidando de mim mesmo, estudando e praticando na medida do possível, por conta própria. Bom, na verdade, de um certo modo, isso era o que eu tinha feito a minha vida inteira, mas eu não estava satisfeito. Sentia um impulso muito forte no sentido de fazer algo mais. Algo que eu ainda não sabia exatamente o que era.

“Seguir sozinho” era insuficiente. Eu sentia falta de alguma coisa, como alguém que sente a falta de um ente muito querido, quando ele está longe dele. Apenas crer e tentar fazer o que achava certo, sem pertencer a nenhuma comunidade ou congregação, sem fazer parte de um todo, simplesmente não era suficiente para mim, principalmente porque eu sempre voltava a tropeçar e cair no materialismo, no desânimo, nas dúvidas... Uma frase muito usada pelos batistas para salientar a importância da união entre os irmãos me parecia fazer muito sentido: “Uma brasa sozinha, longe da fogueira, acaba se apagando”. Eu experimentava isso na prática. Sozinho, depois de um tempo, minhas certezas se tornavam dúvidas, os meus aprendizados pareciam se diluir num mar de dificuldades e interrogações...

Quando me dava conta, estava novamente me sentindo perdido, passageiro numa embarcação sem velas, sem bússola pra saber onde ficam Norte e Sul. Além disso, se a proposta era me voltar para o Cristo, já que a própria vida parecia me levar nesse sentido, eu me lembrava de que o próprio deixou a seguinte orientação: “Onde houverem dois ou mais reunidos em meu nome, ali estarei eu também, no meio deles”. Uma observação sobre essa passagem: Esse “no meio deles”, da frase, poderia ser traduzido também como “dentro deles”“Estarei dentro deles”. É como quando diz: “O Reino de Deus está no meio de vós”. – outra tradução válida seria: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lucas, 7:21...)... Interessante, não? Isso muda muita coisa...

Certeza maior da importância da união entre os que buscam eu tive quando participava das reuniões para oração em grupo. Dou a minha palavra de que orar sozinho e orar em grupo são experiências completamente diferentes. Maomé diz: "A oração em grupo é 27 vezes melhor do que a individual". Concordo. Oração em grupo é uma experiência realmente transformadora.

O fato e o tema central desse post é que, finalmente, pesquisando e procurando, como sempre, eu encontrava uma nova solução, que me parecia muito interessante: Chamava-se "Igreja Essênia". Será que eu havia encontrado, de uma vez por todas, aquela que poderia ser a resposta há tanto tempo buscada? Bom, eu me desviei demais do assunto, e vou ter que deixar essa resposta para nosso próximo encontro...



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