Onde? - conclusão

Não me lembro exatamente da primeira vez em que ouvi falar dos essênios. Eu, que vivia sempre atrás de novas publicações e traduções da Bíblia a fim de aprimorar meus conhecimentos a respeito das possíveis distorções dos significados das palavras originais, em hebraico, aramaico e grego, já conhecia a teoria de que Jesus teria sido um membro da comunidade essênia antes de iniciar sua vida pública. Mas lembro-me bem, sim, de uma da matéria principal da edição 195 (2003) da antiga versão da revista Superinteressante, que trazia uma chamada sensacionalista na capa, para dizer o mínimo (costumavam fazer isso todo fim de ano, colocar chamadas sensacionalistas na capa envolvendo o nome de Jesus, - uma maneira de garantir boas vendagens em banca). O título era: “São Paulo Traiu Jesus?” em letras garrafais (Oohhhh!..). Aí você compra a revista, lê a matéria e vê que ali, na verdade não há nada de novo, apenas opiniões pessoais sendo divulgadas com estardalhaço, sem nenhum fundamento sólido...


Escultura num centro de estudos essênios norte-americano


Mas foi nessa matéria que tomei conhecimento da existência de uma tal 'igreja essênia brasileira', o que me motivou a pesquisar mais sobre o tema. - O que não era uma tarefa fácil no ano de 2003, já que os membros desse movimento, - que nessa época, aqui em São Paulo, não passavam de algumas dezenas - eram extremamente 'ostras', quer dizer, não gostavam nadinha de aparecer. Parece que preferiam de viver assim, como que fazendo parte de numa ordem secreta fechada, mantendo sua filosofia e seu modo de vida envolvidos numa espécie de aura de mistério...

Depois de muito buscar, consegui o endereço de e-mail do psicólogo Fernando Travi, fundador e dirigente principal da 'Igreja Essênia de Jesus Cristo' no Brasil. Através de conversas cada vez mais freqüentes por e-mail, depois de algum tempo passamos a conversar por telefone. Na época eu não sabia, mas isso que consegui foi um verdadeiro feito (algo que falei nos meus e-mails deve ter tocado o cara). Digo isso porque hoje sei o quanto é difícil a comunicação com esse homem. E foi por indicação e incentivo dele (Fernando Travi) que conheci os polêmicos evangelhos apócrifos “Essênio da Paz” e o "dos Doze Santos”; livros que constituem as principais bases da doutrina essênia atual. Digo atual, porque os essênios, enquanto facção religiosa judaica, já existiam desde antes do nascimento de Cristo.


Breve resumo sobre a "igreja essênia":

Na época de Cristo haviam muitas facções e seitas religiosas no judaísmo. Das conhecidas, as principais eram as dos fariseus, saduceus, sicários, zelotes e os próprios essênios. Estes últimos constituíam uma comunidade que se distinguia das demais por, entre outras coisas, esperar para muito breve o dia do Juízo Final. Alguns essênios eram celibatários, e outros se casavam apenas para procriar, coabitando com suas esposas somente o tempo necessário para que elas engravidassem, voltando logo depois à vida celibatária. Contrários à forma como era praticada a religião no Templo de Jerusalém, recusavam o sacrifício de animais e rejeitavam a prática de juramentos para reforçar suas afirmações. Praticavam banhos e banquetes rituais e defendiam a vida em comunidade, a partilha dos bens e a dedicação ao estudo e à oração. Foram liquidados por Roma em 68 dC, e na verdade nunca foi achado nenhum elo concreto entre Jesus e os essênios. Daí a afirmação do famoso teólogo Geza Vermes, à qual a quase totalidade dos pesquisadores do assunto fez coro: “O essenismo está morto".

Apesar disso, algumas pessoas (o maior exemplo é o próprio Fernando Travi), se propõem não só a tentar seguir, hoje, a antiga doutrina, como também se autoproclamam descendentes diretos dos antigos essênios, autores dos Manuscritos do Mar Morto. Mas os essênios modernos dão mais ênfase a aspectos que, segundo Travi, representam a essência da doutrina: o respeito à natureza, o vegetarianismo (radical) e a purificação como caminho para a cura de problemas físicos e espirituais. "É um conhecimento esotérico", afirma Travi, que diz se basear também em "revelações" que teria recebido.


Um essênio norte-americano


Nos EUA, berço do chamado essenismo moderno, a 'Igreja Essênia de Cristo' mantém uma espécie de "spa espiritual", além de página na internet, que utiliza para divulgar a doutrina e vender livros e fitas. No Brasil, o movimento ganhou impulso nos últimos cinco anos, e, ainda segundo Fernando Travi, reúne hoje algumas centenas de adeptos em vários estados do país. Para os próximos meses, ele prevê uma expansão, baseada no lançamento da tradução para o português dos principais textos da seita. Mas adverte: a preparação de um essênio é longa, árdua e exige muita disciplina. Não pára nem quando o candidato está dormindo. "Ao nos deitarmos à noite", diz Travi, "devemos estar prontos para continuar nosso aprendizado, recebendo informações através do inconsciente”.

A história e os detalhes a respeito dos Essênios originais e da atual 'igreja essênia' são muito complexos, e este é mais um daqueles temas a que eu pretendo voltar com maior profundidade depois de terminada essa primeira fase do a Arte das artes, em que apenas me atenho a contar minha história e relatar minhas impressões pessoais a respeito de tudo o que vi e vivi na minha busca até hoje. Para saber mais, clique aqui e aqui.

Bem, o fato é que, a essa altura do campeonato, eu já começava a aprender a respeitar os Sinais e tentar entendê-los, por ter já percebido que eles são das mais importantes ferramentas na Busca espiritual. E estou convencido de que, mais uma vez, eles vieram, da maneira como passo a narrar:

Afinal ganhei a confiança do líder nacional da Igreja Essênia no Brasil (depois de várias semanas de conversas por telefone), e ele me contou que os membros da comunidade costumavam se reunir em determinadas tardes de sábado, para estudar, meditar e orar em grupo, numa grande parque na região sul aqui de São Paulo (dessa vez não vou deixar o endereço, porque se trata de uma informação sigilosa, que me foi confiada e que vou respeitar). Marcamos um encontro, no qual eu finalmente seria apresentado ao grupo e às suas atividades, e no qual teria acesso às informações mais detalhadas sobre as práticas e sobre como me iniciar no essenismo.

Não deu certo. No dia, fiquei doente, com uma gripe fortíssima, daquelas que não se consegue nem sair da cama, e tive que faltar no encontro.

Fiquei chateado, entrei em contato durante a semana pedindo desculpas e explicando o porque da minha falha. Consegui marcar para uma outra data, uma outra reunião, dali a algumas semanas.

No dia tão esperado, tudo certo, lá fui eu ao encontro dos misteriosos representantes do essenismo no Brasil. Cheguei só até metade do caminho. Carro quebrou.

Mais uma vez, um sentimento de frustração tomava conta de mim. Nesse meio tempo, meu interesse só fazia aumentar, e eu aprofundava meus estudos sobre os essênios. Me atraía muito saber que eles acreditavam na reencarnação, que eram vegetarianos (como eu e Hana), que agregavam elementos do hinduísmo e de budismo à sua doutrina. Além disso, praticavam meditação e adotavam como um de seus livros sagrados o apócrifo “Evangelho de Tomé”, que eu tinha, lia sempre e gostava muito. A muito custo, consegui convencer o “sacerdote” que mais uma vez eu não tinha podido comparecer ao encontro por motivo de força maior, mas que o meu interesse era real...

Terceiro encontro marcado. Eu sem carro. Tínhamos resolvido ir, eu e Hana, de transporte coletivo, mesmo, embora esse local ficasse realmente muito distante do lugar onde morávamos (mais de duas horas sacudindo dentro de ônibus precários – pensei que seria uma boa oportunidade para demonstrar nossa real boa vontade). Antes de sair de casa, Hana me olhou bem nos olhos, como ela costuma fazer quando acha que alguma coisa está errada, e disse: “Você acha que devemos ir mesmo?” – Perguntei o porquê da indecisão, e ela respondeu: “O encontro é num parque. E se chover?” (?!)... Eu não prestei muita atenção ao que ela disse, e expliquei que a residência de um dos membros da comunidade ficava bem próxima do parque, que quando chove as reuniões são feitas lá.

Saímos. Tomamos o primeiro ônibus. Descemos no terminal urbano Praça da Bandeira, para tomar o segundo coletivo, que nos levaria para um lugar distante aproximadamente uns dois quilômetros do ponto do encontro, que pretendíamos concluir a pé (olha a determinação). Então sabíamos da demora pra chegar num local tão longe, e contando com algum imprevisto, saímos mais cedo de casa. Devia ser em torno de 14 horas, quando chegamos no terminal. De lá, só um ônibus servia para nos levar ao nosso destino.

Espera dez minutos. Nada. Quinze, vinte minutos. Nada. Quarenta minutos. Uma enorme fila tinha se formado atrás de mim e de Hana. Agora já começava a ficar tarde para o horário combinado do encontro. Fui até o fiscal, perguntei qual o horário do próximo coletivo da linha tal. Reposta: “Ele está atrasado mais de 30 minutos, moço. Já entramos em contato na empresa, deve ter havido algum acidente. Essa linha nunca atrasa... Pior que o do horário seguinte também já deveria ter chegado...”

“Alguma coisa me diz que devíamos voltar. Não vamos encontrar nada de bom nesse lugar” – me diz Hana. Eu olho para ela, confuso. “Vamos esperar só mais um pouco”, insisto.

O céu agora começava a escurecer, e uma fina garoa começava a cair. Esperamos ainda mais uns dez minutos, e o ônibus finalmente chegou. Agora já não seria mais possível chegar ao encontro na hora marcada, mas eu insisti para irmos mesmo assim, eu queria mesmo muito conhecer aquele movimento. Entramos no ônibus, que superlotou, devido ao atraso.

No meio do caminho, o céu se torna completamente negro, e uma forte tempestade desaba de repente, de tal maneira que pelas janelas não se podia ver mais absolutamente nada. Mesmo assim, quando chegamos no ponto, descemos. Eu estava obstinado. Andamos por cerca de um quilômetro, castigados por um pesadíssimo volume de água, que por cima vencia facilmente o guarda-chuvinha que Hana, previdente, tinha levado na bolsa, entrando por todos os lados, e por baixo, respingava do chão e nos encharcava até à altura dos joelhos. Demorou ainda um bom tempo até que eu finalmente me convencesse de que com aquela chuva não encontraríamos mais ninguém na praça, e como eu não tinha o endereço da tal casa próxima do parque nem o nº do celular de nenhum dos membros da comunidade, simplesmente não havia mais o que fazer. A minha atitude estava sendo muito parecida com a de alguém que dá murro em ponta de faca. Desistir e voltar... Não havia nenhuma outra alternativa.

Ao chegar novamente em casa, me coloquei só e quieto por um tempo, e então pude perceber sem nenhuma dúvida que eu havia recebido mais um Sinal, e muito claros: Não era isso que eu tinha que fazer, não era essa a resposta, nem esse o rumo a ser tomado. - Como ter certeza de que o Sinal era para desistir, e não mais um teste para a minha força de vontade? Bem, os Sinais são assim: quando eles acontecem, você simplesmente entende, e sabe. Quando você, leitor, vivenciar um deles (se é que isso já não aconteceu, o que eu duvido) vai saber do que estou falando, acima de qualquer dúvida.



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