O grupo "Satsanga Guruji"

Publicado originalmente por H K Merton em 13 de Dezembro de 2006 às 8:37 PM

Assim eu consegui, inesperadamente, o que tanto queria: Fazer parte de um grupo onde todos tinham os mesmos interesses que eu. E verdade seja dita: Nos dias de hoje, quando o assunto é espiritualidade desprovida de religião, encontrar quem se interesse é cada vez mais difícil.

Esse grupo, como disse no post anterior, era formado por 4 pessoas:

1 – Hana = Minha futura esposa, uma buscadora autêntica. Ela era (e é) uma mulher naturalmente espiritualizada, pura e amorosa, bem humorada e ao mesmo tempo séria na busca, com várias experiências em comum comigo. Ela também já tinha estudado Gnose, era uma seguidora da filosofia do Yoga e praticante de meditação transcendental. Ela era na época uma espécie de ”pós-hippie”, com um estilo assim meio despojado, do tipo que usa tênis all-star e jeans megadesbotados, mas com uma certa “chiqueza” natural, um jeito nobre de se portar, de andar, falar (ela me conquistou pela voz) – ô voz linda!.. Sempre carregando uma daquelas bolsas de crochê, feitas com cordão cru, com uma ou duas caixinhas de incenso e retratos de São Francisco dentro. Conhecedora de diversas disciplinas orientais e um ser humano altamente sensível. Desde a primeira vez que a vi, pareceu-me que havia uma espécie de luminosidade especial em torno dela.

2 – Roberto = Um dos yogues mais dedicados que eu já conheci em toda a minha vida. Um cara extremamente perspicaz, com duas universidades na bagagem e partindo para a formação acadêmica em Yoga. Apesar de ele ser o tipo de cara que muitas pessoas chamariam de pomposo (por causa do alto grau de erudição nos assuntos que nos interessavam, como Yoga, orientalismo e História antiga), depois de conhecê-lo bem, percebe-se que é uma pessoa extremamente humilde. Uma figuraça. Espero um dia ter a oportunidade de falar mais sobre ele.

3 – Beatriz = Na verdade, a pessoa de quem partiu a idéia e a iniciativa de formarmos um grupo. Era no apartamento dela que se realizavam as nossas reuniões e encontros. Versada também em Yoga (sua irmã é professora de Hatha) e iniciada em Krya, trazia uma bagagem de muitas vivências, inclusive internacionais, em instituições diversas. “Formada” no IIPC em projeção astral e uma grande conhecedora das diversas linhas de pensamento espiritual do oriente e do ocidente.

4 – Eu = Leiam os posts anteriores e saibam quem sou eu :D.

Como a base espiritual de todos nós era o Yoga, denominamos o nosso grupo de “Satsanga Guruji”: a primeira palavra, em sânscrito, quer dizer “boa companhia”, ou “comunhão espiritual”, e a segunda, era uma alusão ao querido guru Yogananda, já que, indiretamente, foi por intermédio dele que acabamos nos conhecendo.


Nos reuníamos sempre aos sábados. Fazíamos sessões de meditação coletiva, trocávamos livros, discutíamos sobre as diversas linhas espiritualistas e religiosas. Às vezes, um de nós trazia uma questão especial para o grupo, e o tema era desenvolvido em conjunto. Às vezes chegávamos a um consenso, outras não. Também fazíamos grandes planos para o futuro. Um deles era montar uma pousada em Parati, uma espécie de hotel e “spa” multifuncional, que agregaria relaxamento, Yoga, dieta vegetariana e meditação. Infelizmente, Beatriz, a única do grupo que possuía as condições financeiras para levar o projeto adiante, acabou mudando de idéia.

Esse período foi produtivo no sentido de aprender coisas novas e trocar experiências diretamente com outros buscadores, mas principalmente, me serviu para conhecer maneiras diferentes, de pessoas diferentes, de entender e interpretar a espiritualidade e o desejo de fazer o certo. Eu percebia que embora todos ali acreditassem em praticar o espiritualismo desprovido de dogmas ou religião, cada um tinha prioridades diferentes. Cada um acreditava em fatores totalmente diversos, como sendo os mais essenciais na Busca. Eu achava que o principal era manter o contato com o próximo. Tentar ajudar, do modo possível, a quem precisasse de ajuda. Fazer o bem, visitar orfanatos, casas de caridade, corredores de doentes graves nos hospitais e levar conforto aos desesperados, por exemplo. Essa era a idéia que eu tinha de prática espiritual perfeita. Praticar o verdadeiro Yoga, para mim, incluía necessariamente estar próximo do próximo.

Hana concordava comigo, mas Roberto e Beatriz discordavam. Achavam que para auxiliar quem quer que fosse, seria preciso primeiro alcançar a nossa própria perfeição. “Como podemos ajudar alguém, se nós mesmos ainda precisamos de ajuda? Quem somos nós para ajudar quem quer que seja? Isso é arrogância da sua parte...

Eu acabava concordando, em parte, mas algo dentro de mim me dizia que a coisa não era bem assim...

Desse modo, Roberto e Beatriz preferiam aperfeiçoar seus corpos e mentes por meio de práticas yogues cada vez mais avançadas. Viviam refinando as suas técnicas respiratórias e as de purificação corporal. Dedicavam-se duramente ao treinamento de disciplina física. E se aprofundavam no estudo da vida e obra dos chamados grandes mestres, principalmente o Ramana Maharishi, de quem ambos eram devotos.

Ainda quero falar mais do Ramana, em momento oportuno, ele é um cara muito importante para a história da espiritualidade mundial. Falando de um jeito bem resumido, a doutrina do Ramana diz que o mais importante de tudo é você se conhecer, olhar para dentro de si mesmo, completamente “desarmado”. Esse seria o único meio de atingir a tão desejada iluminação, a única maneira de conhecer a “verdadeira Verdade”. Essa frase dele resume bem o conjunto dos seus ensinamentos:

“A verdade de si mesmo é a única que vale a pena ser buscada e conhecida. Realização não é nada a ser adquirido. Ela está sempre aí, mas obstruída por uma tela de pensamentos. Realização é simplesmente a perda do ego. Destrua o ego pela procura da sua identidade. Uma vez que o ego não é nenhuma entidade, ele automaticamente desaparecerá, e a realidade irá brilhar por si mesma. Este é o método direto, enquanto todos os outros se concretizam somente através da retenção do ego”

Resumindo ainda mais: Destrua o ego e veja a Verdade.

E aí? Bem, eu concordo com isso. Concordo totalmente e já tive o privilégio de comprovar isso na prática. Por isso o endereço do meu blog era “Sou Nada”. Esse “eu”, que é igual a nada, a que me refiro, é o ego, que precisa ser transcendido, ultrapassado, para que a verdadeira essência do ser apareça. Nosso verdadeiro eu encontra-se dentro de nós mesmos, em algum lugar lá no fundo, sufocado pelas ilusões e preocupações transitórias do mundo, e é preciso trazê-lo à tona. Existem vários meios para isso. Terapia é um (dos mais lentos). Meditação é outro, mas nem todos se dão bem com isso. Essa é outra longa história, que fica para uma outra ocasião.

O único (grande) problema que eu tenho com a doutrina do Ramana é exatamente este: Ele prega que ninguém pode ajudar ninguém, de fato, porque cada um deve buscar as próprias respostas, por si mesmo. Cabe a cada um a busca pela iluminação, que é uma realização pessoal e intransferível. Sim, isso é verdade, eu não posso abrir a cabeça de ninguém e enfiar lá dentro, à força, as coisas que eu já comprovei, por mim mesmo, como boas e verdadeiras. Mas o problema é que a maioria dos seguidores do homem acaba levando isso ao pé da letra, o que não acho legal. Um seguidor do Ramana, ao conhecer o meu blog, por exemplo, diria que o que eu faço aqui é inútil. Que eu tenho que seguir a minha própria busca e deixar cada um se virar por si mesmo. Eu reafirmo: Isso é verdade, mas só em parte.

Imagine se todos os buscadores se fechassem em si mesmos. Tudo seria muito mais difícil. A troca de experiências é importante. Mais do que isso, é vital! A experiência dos que já estão há mais tempo no caminho muitas vezes serve para auxiliar outros. Dizem que se conselho fosse bom não se dava de graça. Acho esse dito um dos mais imbecis que já inventaram! As melhores coisas da vida são de graça!! A começar pela saúde, a amizade, o amor de nossas mães ou o de nossos filhos... Posso dizer que já tive minha vida salva, literalmente, por seguir um bom conselho de um amigo sincero.

Além disso, se todos seguissem o princípio de “viver cada um pra si”, o que seria do Amor em nossas vidas? Amor, que a meu ver é o resumo de tudo...



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