De volta ao espiritismo - conclusão

Publicado originalmente por H K Merton em 15 de Outubro de 2006 às 12:14 AM

No post anterior eu disse que o "Perseverança" é o maior centro espírita do Brasil. Segundo algumas fontes, ele é o maior do mundo, o que não chega a ser uma coisa espantosa, se considerarmos que o Brasil foi o país onde a nova doutrina de Kardec encontrou maior aceitação. Não poderia haver lugar melhor para concluir minha pesquisa.

Através de uma visita prévia, fiquei sabendo que ali haviam atividades todos os dias da semana, em diferentes horários. Quando lá cheguei pela primeira vez, fiquei surpreendido com a excelente infra-estrutura e o tamanho das instalações. O Centro Espírita Perseverança fica no Bairro Jardim Santa Clara, em São Paulo, na Rua Pe. Maurício, e não seria exagero dizer que mais da metade dessa rua (que não é pequena - algo em torno de 900/1.200 mts) é ocupada por esse complexo de imóveis interligados, em ambas as calçadas, tudo pertencente ao Centro. Lojas de roupas ('Amigos do Bem'), lanchonetes (duas, grandes), livraria, um gigantesco salão de palestras, sala de oração/mentalização, uma grande loja de conveniências(!)... Tudo isso sem contar o prédio de 5 andares que ocupa praticamente toda uma quadra, onde funciona o complexo principal (Que estava fechado na ocasião da minha primeira visita, devido ao horário).

Na segunda vez que fui ao centro, tive que me dirigir exatamente a este edifício, onde é feita a triagem inicial. E dessa vez me impressionei ainda mais: com a limpeza, a organização do lugar e dos trabalhos, a maneira eficiente e correta com que os visitantes e freqüentadores são atendidos. Logo na entrada, fui recebido por monitores uniformizados. Estão na entrada e em todos os pontos estratégicos, usando jalecos de cor roxa, sempre dispostos a ajudar.

Eles então me pedem que me dirija ao “Salão de Passes”, antes de qualquer coisa, e que deveria tomar uma enorme fila que se formava no grande hall de entrada. Era uma quinta feira, dia de feriado, e havia muitos milhares de visitantes e frequentadores. Mas a coordenação impecável dos monitores organizava essa grande fila, silenciosa e comportada, por longos corredores até o tal salão. O salão de passes era um lugar imenso, onde eu imagino caibam mais de 800 pessoas sentadas. E eu não chego a ficar 15 minutos na fila, que anda muito depressa: o movimento para entrar e sair do salão é contínuo, entra uma grande turma, passa por uma sessão de passes de mais ou menos 5 minutos e sai por outra porta, enquanto a turma seguinte entra. Tudo perfeitamente calculado.

No interior do salão reina uma agradável penumbra; há apenas uma fraca iluminação indireta, proveniente de mortiças lâmpadas azuis de algumas luminárias na parte frontal. Essa fraca luz ilumina, relaxante, a grande parede frontal, onde há uma pintura representando Jesus no centro e o Dr. Bezerra de Menezes ao lado direito. Logo abaixo há uma fonte, com pedras e uma suave cascata d'água; um som muito harmonioso, junto com música em baixo volume (Ave Maria de Schubert). Alguns monitores, estrategicamente posicionados nos corredores, orientam entrada e saída. Num microfone, um senhor repete a cada minuto: “Entidades amorosas zelam por vocês. Vocês estão sendo agraciados ao entrar nesse recinto, com bênçãos de amor, paz e alegria...”.

Depois da sessão de passes, cada participante é encaminhado ao seu destino, conforme seus próprios objetivos no Centro. Em cada uma das muitas salas do edifício, são realizados os mais diversos trabalhos, voltados à necessidades específicas, como vários tipos de tratamentos de saúde física e espiritual. No meu caso, como queria conhecer, fui convidado a assistir uma palestra de Dona Guiomar de Oliveira Albanese, a legendária médium fundadora e dirigente do centro.

Na segunda-feira seguinte, lá estava eu, pouco antes do horário de iníco da palestra. Novamente, milhares de pessoas apinhavam a rua e as dependências do centro. Ainda tive tempo para conhecer a livraria, a lanchonete e a loja de conveniências. Só há uma palavra pra descrever todas essas instalações: excelente! Estrutura de primeiro mundo, produtos e atendimento de qualidade. Fico sabendo que a quase totalidade dos atendentes são voluntários. Trabalham graciosamente, sua única paga é o bem do próximo. E são bons no que fazem.

Chega a hora do início da palestra, e eu me dirijo ao salão de palestras (ainda maior que o salão de passes, devem caber ali umas 1500 pessoas sentadas). Algo interessante aconteceu nesse dia: Havia fila para entrar no salão, e uma senhora “furou” na minha frente, na maior cara de pau. Imediatamente eu penso: “Que falta de educação!” Mas lá dentro, até pela ordem de entrada, nos sentamos lado a lado, e acabamos fazendo amizade. Ela acabaria me servindo de cicerone e guia do Centro, nas outras oportunidades em que eu lá retornei, me dando dicas e me apresentando a vários membros importantes da comunidade.

Hora de assistir à palestra. Conhecer Dª Guiomar, que ao lado de Divaldo Franco é um dos maiores nomes do espiritismo brasileiro, conseqüentemente mundial, e suas idéias. Isso seria de suma importância para os meus objetivos. Dentro do salão completamente lotado, com muitas pessoas sentadas no chão, alguns monitores sobem ao palco e começam a entoar canções religiosas. O público canta junto, fervorosamente. Reconheço vários hinos da Missa Católica, várias canções em honra de Nossa Senhora. Há muita fé no ar, pessoas com o desejo sincero de "evoluir", encontrar coisas boas, fazer a coisa certa.

Depois de alguma espera, ela entra, absolutamente idolatrada. Aplausos frenéticos. Muitos vão às lágrimas. A senhora ao meu lado chora. Lá está Dona Guiomar, comparada por muitos a Chico Xavier. Já idosa, quase 70 anos, sobe ao palco de um pulo. Cheia de energia, saúda a todos. Bem humorada, conta piadinhas. Canta. Todos cantam junto. Depois da música, finalmente, a palestra começa. Ela retira de uma pilha em cima de uma mesa uma folha de papel. E lê. É um bilhete que havia recebido:

Dona Guiomar, eu gostaria de saber se, como espírita, eu faria errado em beber álcool, só um pouquinho, socialmente, numa festa de Natal ou aniversário, por exemplo... Assinado, Fulano de Tal". A palestra seria em cima desse tema, então.

Resposta: “Você, Fulano de Tal, como bom espírita, não deve jamais beber nada que seja alcoólico, nem um pouquinho, nem champanhe no Natal. Por quê? Porque quando se trata de bebida alcoólica, o primeiro gole é seu, mas o segundo já não é mais. Tenha certeza que cada vez que você ergue um copo de cerveja, 'alguém' (espírito obsessor) já está ao seu lado, pronto para usufruir desse prazer. E ele fará de tudo para que você beba mais e mais. Por isso é que cada um tem uma reação diferente quando fica bêbado. Um fica alegre, outro violento. Isso depende do obsessor que foi atraído. Se for um espírito violento, você se tornará violento. Se for um espírito triste, você se tornará depressivo...” E por aí vai...

Ela lê ainda outras cartas, todas relacionadas a temas parecidos: vícios e fraquezas humanas. E a conclusão é sempre parecida. Culpa dos espíritos obsessores.

A palestra chega ao fim. Dona Guiomar pede a benção do espírito do Dr. Bezerra de Menezes e dos "espíritos superiores", e se despede com mais música. Para a minha surpresa, uma monitora sobe ao palco e pergunta a todos, pelo microfone: “Quem tem a ‘senha pro abraço?’” A senhora ao meu lado me explica que abraçar Dona Guiomar é sinônimo de benção, além disso é possível aproveitar esse momento para fazer uma pergunta pessoal. Dezenas de pessoas se levantam para a “fila do abraço” – Jovens, velhos, homens, mulheres... - Os outros devem sair. A palestra está encerrada. Ainda tenho tempo de perguntar àquela senhora, minha nova amiga: “Você já ‘abraçou’? O que ela disse?” – A resposta veio rápido: “Só coisas boas...

E assim, depois de conhecer por dentro, estudar a fundo, concluir (muitos) cursos, ler as suas principais obras, participar de muitas e muitas reuniões e até ter me submetido a "tratamentos espirituais"... finalmente cheguei às minhas conclusões a respeito desta controvertida religião, que na verdade só existe, sob a forma que denominamos popularmente de "kardecismo", em terras brasileiras: o espiritismo.


= Espiritismo, eu gosto:

# Espíritas costumam demonstrar boa vontade no sentido de aceitar/conviver com tipos diferentes de fé;

# O sistema moral e ético proposto pelo espiritismo, para ser vivenciado na prática, no dia-a-dia, me parece justo e coerente;

# Existem alguns alegados casos de contatos com espíritos que a ciência não consegue explicar. Particularmente, acredito na possibilidade de contato com os espíritos dos mortos. Para mim, a grande questão aí não é saber se o fenômeno é real ou não, e sim, se as mensagens são confiáveis ou se este seria mesmo um caminho benéfico;

# No caso do Centro Perseverança: essa instituição mantém creche, programas de auxílio aos necessitados e promove campanhas humanitárias. Em todas as várias vezes que lá estive, em nenhum momento me foi pedido dinheiro. - Todas as atividades se mantém por meio do patrocínio de simpatizantes e da iniciativa privada. A subsistência deste e de outros grandes centros se baseia na colaboração de pessoas que acreditam ter sido ajudadas espiritualmente, e que agora se propõem a ajudar. Todos os funcionários do Centro são voluntários, e todos trabalham satisfeitos e parecem felizes. Algo que, para mim, tem muita importância.


= Espiritismo, não gosto:

# Apesar de ter começado com ideais científicos, o espiritismo hoje é somente religião, nada além disso. E com os seus próprios dogmas. Embora não aceitem o termo (dogma) e critiquem os católicos por causa disso, para o espírita a reencarnação é um dogma, assim como a necessidade da "evolução espiritual" através desse processo depurativo reencarnatório, a mediunidade, a inexistência dos milagres (Deus interferindo na natureza em favor dos seres humanos), a negativa da divindade de Cristo e muitos outros. Todos estes são dogmas, isto é, princípios de fé que sao ensinados através de livros e que devem ser aceitos. No que se refere aos contatos com o além, por exemplo, somos sempre advertidos de que, se não tivermos fé, não conseguiremos nada(?). Que tipo de ciência depende da fé? Se você pedir a algum médium dirigente de centro uma prova da sua capacidade de comunicação com os mortos, ele provavelmente vai exigir que você tenha fé. Muitos (que conheci) até se ofendem diante de uma postura investigativa. Ora, se um fato é um fato, ele pode ser comprovado por A + B, independente de eu acreditar ou não, certo?

# Exatamente por esse caráter, - a necessidade da aceitação de certos princípios, ditos científicos mas que não admitem qualquer comprovação empírica, - o espiritismo acaba se tornando um paraíso para o charlatanismo. Qualquer pessoa pode sair por aí afirmando que mantém contato com mundos espirituais, e sempre vai ter quem acredite. O Brasil, deste povo extremamente crédulo, é solo fértil para esse tipo de coisa. Haja vista minhas próprias experiências. Posso afirmar, sem medo de errar, que atuam em centros espíritas muitíssimos falsos médiuns, sejam desonestos ou puramente insanos, iludindo milhares de 'seguidores' ingênuos por este país afora;

# Nos cursos que fiz e nas muitas palestras que assisti, percebi que dentro do espiritismo existe o hábito já bastante enraizado de se alterar, propositalmente, o conteúdo, o sentido e até a forma dos textos bíblicos para adequá-los á doutrina de Kardec. Isso funciona com os mais simples, mas não com alguém que conheça bem as Escrituras. - A verdade, sem enfeites, é que a Bíblia condena as práticas espíritas, e o faz explícitamente: este é um fato inegável. - Ninguém é obrigado a acreditar na Bíblia, mas daí a querer mudar o sentido da sua mensagem vai uma longa distância. Eis algo que me desagrada profundamente, porque é uma postura desonesta;

# Conheço histórias de pessoas esquizofrênicas. Entre vários outros, conheci o caso de uma moça que "ouvia vozes", e que por indicação de uma vizinha procurou o espiritismo. Lá, foi imediata e fortemente aconselhada a "desenvolver a sua mediunidade". Sua mãe questionou muitas vezes junto aos médiuns, se tinham mesmo certeza do que estavam afirmando, e a resposta foi sempre positiva, que ela ficasse tranqüila, pois o caso da filha era mesmo de "obsessão espiritual", acima de qualquer dúvida... Isso aconteceu no próprio centro Perseverança, e eu conheço pessoalmente esses médiuns. Depois de sofrer por anos a fio, sendo atormentada dia e noite por audições apavorantes, a moça finalmente procurou um psiquiatra, que diagnosticou um quadro de esquizofrenia clássico. Algumas semanas tomando o medicamento adequado e as vozes desapareceram para sempre. Ela se libertou e hoje é uma pessoa tranqüila e saudável, que não quer nem ouvir falar em espiritismo;

# O 'Livro dos Espíritos' traz uma coleção de grandes disparates: afirma, por exemplo, que os negros, os chineses e os índios seriam 'raças inferiores', ou que exitiria uma civilização muito avançada encarnada e instalada em Marte, entre muitos outros desse tipo. - Quando os textos se aventuram no campo científico, então, é um absurdo atrás do outro. - As explicações são no sentido de que o espiritismo também erra, e que vai se aperfeiçoando com o tempo... Mas, sejamos honestos, como assim? Afinal, teria sido um espírito muitíssimo "evoluído" a soprar tamanhas asneiras no ouvido do Kardec! Então, se esses são os mais evoluídos, fico imaginando a confiabilidade e a validade dos contatos com os 'desencarnados', de modo geral...

# Será que eu devo pautar a minha vida com base em princípios ditados por 'entidades' que eu simplesmente não tenho como avaliar?.. E a doutrina espírita ensina a reconhecer os espíritos evoluídos: "São gentis, recatados, falam polidamente..." - Me perdoem mais uma vez, mas os maiores canalhas e patifes deste mundo sempre falaram muito bem costumam ser super educados... A coisa que malandro mais sabe é ser bom de lábia! Então, se esse é o parâmetro para se separar o que é confiável e o que não é, a coisa fica muito difícil...

# Essa história de que somos induzidos a fazer o mal por 'espíritos obsessores'... Não desce! Desculpe, Dª Guiomar, mas eu gosto de tomar a minha cervejinha, vez em quando, um copo ou dois, e tenho a mais absoluta certeza de que ninguém "se encosta" em mim quando faço isso. Conheço pessoas que têm problemas com álcool, sim, mas posso também garantir que isso não acontece por conta da influência de espíritos, e sim porque eles tem uma predisposição genética a qualquer tipo de vício. São os adictos. A ciência (de verdade) explica...


Um capítulo à parte: Chico Xavier

Antes de encerrar, tenho que deixar aqui registrado um ponto importante. Eu sempre vi na figura de Chico Xavier um exemplo de vida, e foi principalmente esse exemplo que me levou a querer conhecer a doutrina por ele representada. Os efeitos de conhecer a sua vida e a sua obra, em minha vida, e as coisas que descobri ao estudar a vida de tão famoso personagem, me levaram a escrever um artigo específico.

Como bom questionador que sempre fui, empreendi uma investigação aprofundada em busca da verdade por trás do grande mito Chico Xavier. Por se tratar de assunto extenso, e para evitar que este post ficasse muito grande, postei minhas conclusões a respeito deste assunto específico em separado, as quais podem ser lidas aqui. - Aos verdadeiros buscadores da Verdade, eu recomendo a leitura.


Conclusões

Finalizando, digo que respeito os espíritas. Tenho boas amizades dentro deste universo. Aceito a possibilidade da reencarnação em casos específicos, mas me furto de aceitar a doutrina de Kardec, que ensina que todos nós, inescapavelmente, teremos que passar por esse processo para atingir planos mais evoluídos. A vida me ensinou a acreditar no Perdão Incondicional de Deus, conforme Jesus ensinou nos verdadeiros Evangelhos (não o 'segundo o espiritismo')...

Acredito na comunicação com espíritos, em alguns casos. Respeito os trabalhos de pesquisa séria nessa área e sempre acreditei nas intenções dos buscadores que se aprofundam nesses assuntos, embora também tenha percebido que, como eu, a maioria deles acaba por se decepcionar e mudar de rumo depois de algum tempo. Infelizmente, não são só as boas intenções que importam, como muitos espíritas costumam afirmar: o joio se mistura facilmente com o trigo, e nem sempre é fácil separá-los. Os rumos que o espiritismo anda tomando, definitivamente, não me agradam.


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