O Primeiro Pilar

Publicado originalmente por H K Merton em 01 de Junho de 2006 às 10:55 PM



Aos meus 14 anos retomei, com maior intensidade, minha busca por alguma coisa que eu não tinha a menor idéia do que seria, e que por falta de um termo melhor, chamava "Deus". Nessa época voltei a freqüentar Missas, com maior frequência: todos os domingos, sem falta. Embora nunca tenha feito a catequese da Igreja, para entender exatamente o que estava fazendo, eu participava da Comunhão. Comungava e assistia à missa com fé, queria porque queria encontrar Deus, e o único caminho que conhecia era aquele. Persisti por algum tempo. Orava com freqüência. Haveria de persistir, até conseguir uma resposta. Era frustrante não poder encontrar essas repostas de imediato, mas eu entendia que deveria ter paciência, que um dia o próprio Senhor, em pessoa, haveria de me responder.

_______Passei por todas as dificuldades e experimentei as mesmas dúvidas que a maioria dos católicos nos primeiros passos: não entrava na minha cabeça a idéia de Deus Pai e Jesus serem um só e o mesmo. E eu não fazia a menor idéia de o que viria a ser o Espírito Santo. Só ouvia falar nele quando o padre dava a benção: “Em nome do Pai...”

_______Nessa época, eu li a biografia de São João Bosco, que ganhei de um tio (o marido daquela tia do centro espírita...), o que fortaleceu ainda mais a minha determinação em ser padre. É, eu ainda queria! Fiquei mais ou menos um ano nessa, de ir à Missa todo domingo, participar da Eucaristia, frequentar ocasionalmente o grupo de jovens da paróquia, ler os livrinhos do catecismo... Bem, o tempo foi passando, e conforme passava, eu sem obter os resultados desejados (nada menos que um contato direto com Deus), desanimava... Devia estar faltando algo! Constantemente me perguntava: "onde estará a Verdade?" Existiam outros caminhos no mundo... Será que os espíritas, enfim, não estariam com a razão? Afinal, eles tinham "provas" do que diziam; eu mesmo tinha visto as fotos. Aquelas, das "materilaizações ectoplásmicas"... E as outras tantas religiões do mundo, das quais esporadicamente ouvira falar?

_______Bem, o fato é que, por alguma razão, eu tinha ao menos uma certeza: Jesus era a resposta. Não me perguntem o porquê da certeza. Essa convicção simplesmente estava dentro de mim. Lembram dos posts anteriores? Pois é. Desde a mais tenra infância eu estabeleci uma espécie de intimidade com esse tal Jesus Cristo, algo especial, como se ele tivesse de fato me soprado ao ouvido: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida...”. Realmente não sei explicar, mas eu sabia que o meu caminho, fosse qual fosse, teria que ter a ver com ele. Sentia por esse Homem, Deus ou seja lá o que fosse, um Amor ardente, incondicional, arrebatador. Não sei explicar a razão, não sei mesmo, mas só olhar a sua imagem representada já me emocionava. Orava para as pinturas e estátuas com tanta fé que quase podia sentir a sua presença, literalmente, ouvir a sua voz... Mas comecei a entender que no rumo em que estava não alcançaria Deus. Definitivamente não estava chegando aonde desejava, apenas assistindo Missas. A Celebração Eucarística parecia-me apenas um senta-levanta-ajoelha sem fim, o padre falando com um sotaque lituano (Vila Zelina = colônia lituânica) tão forte que eu não podia entender quase nada do que falava. E depois, voltava pra casa, freqüentemente frustrado. Isso não estava me ajudando muito, não era o suficiente. Precisava de mais. Tinha que avançar, dar o próximo passo na Busca.

_______Foi quando tomei uma decisão: conhecer a Bíblia. Minha família não tinha uma, então eu peguei o meu dinheiro de mesada e tomei o primeiro ônibus para o centro da cidade. Passeando pela Rua Benjamin Constant, encontrei uma a loja das Edições Paulinas, e entrei. Havia lá um sem número de edições e versões da Bíblia: as grandes, as enormes, as com capa de couro preta ou marrom, as ricamente ilustradas com obras de mestres renascentistas, as decorativas, a tradicional com gravuras do Gustave Doré, as com acabamento em ouro... Tinha também alguns modelos com capa protetora, com zíper em volta, que vi pela primeira vez e achei muito interessantes... Mas o meu dinheiro só dava para comprar uma edição em formato de bolso.

_______Encontrei uma que me agradou, com uma capa de curvim cor café com leite, e as palavras “Bíblia Sagrada” impressas em branco, na capa. Paguei e saí da loja experimentando uma felicidade incontida. No meio da rua mesmo, caminhando, me pus a ler as primeiras páginas. Não, ainda não o livro do Gênesis, eu não queria perder nada, por isso comecei pelas primeiras notas introdutórias. Eu sabia que no livro em minhas mãos estava o cerne da religião cristã, a maior do planeta, a religião dos meus pais. E sabia que a íntegra do texto, ali contido, representava, na opinião de muitos, nada mais nada menos que a própria Palavra de Deus escrita. Como pude ter demorado tanto para adquirir um exemplar?

_______Dentro do ônibus me acomodei e fixei meus olhos naquelas pequenas e finas páginas, sobrecarregadas de uma letrinha miúda. Já tinha resolvido de antemão que a leria do princípio ao fim, como se fosse um romance, e não aleatoriamente, como a maioria das pessoas. Mas a realidade é que eu nem de longe desconfiava, e nem nas minhas mais desvairadas fantasias poderia imaginar o efeito que aquela grande coleção de palavras haveria de provocar em mim...


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