Kiai!!!!! - conclusão

Publicado originalmente por H K Merton em 26 de Julho de 2006 às 1:44 PM



Um ano desse treinamento físico e mental ultraintensivo, a que fui impiedosamente submetido, seria o equivalente a, no mínimo, 5 ou 6 anos de treinamento comum. Afinal, eu fazia quatro treinos por dia, fora as aulas extras, direcionadas. Os praticantes normais, em geral, fazem apenas um treino por dia, três vezes por semana. Também fazia dois treinos aos sábados, um de manhã e outro à tarde, e um especial todos os domingos, dos quais só participavam os faixas pretas e eu(!). Além de tudo isso, o tipo de treinamento que eu fazia era muito mais rigoroso que o normal, porque eu era um estagiário no dojô, aspirante a senpai.

Sim, eu realmente aprendi muito. Mas não vou falar aqui da minha evolução como artista marcial. Quero me ater à importância espiritual deste período em minha formação como ser humano. Também não vou agora me aprofundar na análise do que vem a ser o Bushidô (pretendo fazer isso mais tarde, quando este resumo da história da minha busca estiver concluído - o mesmo vale para todas as doutrinas que conheci de perto). Por ora, gostaria de compartilhar ainda algumas curiosidades da minha vida de kōhai:

Nove meses se passaram. Como disse antes, a sede administrativa do dojô Tanaka Karatê Dô funcionava num prédio de quatro andares: térreo, primeiro, segundo e terceiro andares, além de uma vasta sacada no topo, onde treinamentos também eram realizados. No térreo funcionava a recepção, sendo que o salão da frente, isolado, pertencia à uma agência dos Correios. Os treinamentos ordinários eram realizados regularmente no primeiro andar. Os exames para faixa preta e graduação dos senpais, além dos treinamentos especiais, aconteciam sempre no segundo andar.

Mas o que havia no terceiro andar... Era um completo mistério para todos, até mesmo para os alunos mais antigos! Nunca ninguém era autorizado a subir lá, e muito menos transpor a velha e pesada porta de pinho, que eu até então só tinha visto, fechada, nas poucas vezes que precisei subir ao topo do prédio, para a limpeza ou para algum treino diferenciado. Como o meu Shihan era o perfeito mestre conservador, que valoriza ao máximo as antigas tradições, circulavam entre os alunos inúmeras “lendas” a respeito do que havia no chamado “andar proibido”. Até porque, lá o nosso mestre se mantinha trancado por tardes inteiras. Diziam que ele ficava trancado lá meditando, por horas a fio, e que ali dentro havia apenas um enorme salão vazio, repleto de castiçais e incensários. Conhecendo-o como conhecia, tenho que dizer que esta hipótese, se confirmada, não me surpreenderia. Diziam também que o Shihan era uma espécie rara de vampiro japonês, que tinha mais de quinhentos anos, e que ficava deitado num caixão recarregando energias... E como gaiatos nunca faltaram nesta terra, tinha um cara que falava que lá ele recebia amigos e muitas garotas, que ficava na farra o dia inteiro, daquelas da pesada, com bebidas, drogas e rock´n roll. Pura sacanagem...

O fato é que minha imaginação de moleque de 16 anos, claro, ficava atiçada com essas histórias todas, sobre um homem que eu tinha aprendido a amar como um pai, e que era misterioso em sua própria natureza.

Acho honestamente que fui um ótimo kōhai; servi o mais fielmente que pude por todo o longo tempo em que lá estive. Como disse no post “Uma nova descoberta”, eu havia perdido um ano na escola (Shihan me lembrava constantemente que teria que retomar os estudos, pois não poderia ser um senpai sem a formação universitária em educação física), por isso eu treinava e trabalhava no dojô em período integral, das 6h45 até algo em torno de 22h30, pois após o último treino ainda permanecia para organizar e arrumar a sala de treino. Num belo dia, ao chegar para o treino da tarde, no dojô sede do Ipiranga, ao cumprimentar a recepcionista, ela me deu o aviso inesperado: “O Sr. Tanaka o espera no terceiro andar” (!!). - Eu não pude deixar de pedir a ela que repetisse a afirmação, pois o que acabara de ouvir me parecia impossível! Ela apenas sorriu e confirmou. Claro que ela sabia de toda a mística envolvendo “o andar proibido”.

Uma excitação enorme tomou conta de mim! Torrentes de pensamentos explodiram na minha jovem cabeça! Eu sabia que aquilo era uma honra enorme para um kōhai! Ou então eu tinha feito algo muito errado, e uma bronca homérica me aguardava...

Como a ordem era para subir antes de fazer qualquer coisa, sequer parei no primeiro andar para guardar meu dogui. Como sempre cumpria as ordens ao pé da letra e de imediato, subi de pronto, dogui dobrado e amarrado com minha faixa (que já era azul), à maneira tradicional, às costas. Chegando lá, verifiquei a porta com cuidado... estava aberta(!). Entrei com um cuidado ainda maior, pisando devagar... Afinal, entrava em solo misterioso, completamente desconhecido: tudo era novo e eu não sabia o que me aguardava.

Shihan Tanaka era um Sensei de outros tempos, mestre de uma arte que hoje não tem mais lugar em nossa sociedade. Alguém que estabelecia como uma das regras para a entrega da faixa preta um teste no qual o aluno deveria se postar diante de um grande alvo de madeira, e se concentrar. O Shihan, à distância de uns vinte metros, entortava um arco “kyudô” e mirava uma flecha bem no peito do aspirante (que assinava um termo de responsabilidade em caso de acidentes!!). Eu sei que parece mentira, mas isso realmente acontecia, e esse tipo de teste era exigido como prova de coragem, determinação e domínio dos reflexos(!). Claro que não é qualquer aluno que está disposto a passar por exames desse tipo, e, além disso, o próprio Shihan resolveu parar com extremos como esses a partir da ocasião em que um dos aspirantes cometeu um movimento equivocado, escapando por milímetros de receber uma flechada que poderia ter sido fatal. Esse era o homem que me vinha golpear ruidosamente o abdômen com uma shinai (espada de bambú), ao final de sessões de 500 abdominais completos. O mesmo que exigia o condicionamento/calejamento de todos os músculos envolvidos em luta, como punhos, abdominais, antebraços e canelas! Tudo isso justificava a importância e a tensão daquele momento diante da velha porta.

E devo dizer que o que vi, ao abrir a porta, não frustrou minhas expectativas. Você vai saber agora, em primeira mão, o que havia no interior do legendário andar proibido do dojô sede Tanaka Karatê Dô!..

Ao adentrar finalmente o tão misterioso aposento, vi que o espaçoso salão era completamente preenchido por uma espécie de intrincado labirinto, formado por muitas divisórias de madeira, com múltiplos corredores, que imaginei, levavam a diversas salas, usadas para fins diversos. Mas havia um corredor principal, no meio dos outros, um pouco mais largo. O mais impressionante era que todas as paredes divisórias que constituíam esse labirinto, eram, literalmente, cobertas por fotografias, de cima a baixo, do começo ao fim. Me aproximei e vi do que se tratavam: Eram fotos de todas as fases do meu Sensei. De cara, na entrada, algumas particularmente interessantes: Shihan ainda jovem, usando apenas a calça do dogui, ostentando um exuberante físico a la Bruce Lee, posição “Zen Kutsu Dachi”, estilhaçava com o punho esquerdo (e ele não era canhoto) uma pilha de blocos de concreto! Numa outra, dois homens seguravam um outro bloco, maior, enquanto Tanaka voava num espetacular “ushiro-mawashi” (chute giratório), para destruir o bloco em vários pedaços. Numa outra ainda, das que mais me impressionou, havia um grão mestre no melhor estilo "Tao Pai Pai", com a cabeça raspada, cavanhaque e aqueles longos e finos bigodes brancos, pendendo pelos lados da boca. Traje samurai tradicional, sentado em posição de alerta, observando enquanto meu Sensei, ainda muito jovem, decepava um tronco preso verticalmente numa base de pedra, com golpe de “Shuto Te” (faca de mão). Movimento impressionante!

Meu Sensei era o maior, mesmo! Àquela altura, me esquecera completamente de mim mesmo, sentindo-me transportado no tempo e no espaço, observando aquelas fotos! Haviam centenas, talvez milhares delas. De relance percebi uma outra onde se via o Shihan, seminu, postado sob uma pesada cachoeira, olhos fechados, em postura “Kiba Dashi” (cavaleiro de ferro); e uma ainda mais a frente mostrava uma fileira interminável de kōhais que corriam num imenso campo coberto de neve (provavelmente Oeste do Japão). De repente, do corredor principal, ecoou uma voz conhecida, firme e forte como sempre! O Shihan me chamava, impaciente.

Segui o som pelo corredor, passando, num estado quase letárgico, por aquelas paredes revestidas com tantas e tantas fotografias incríveis. Finalmente alcancei o final do corredor, meu coração aos pulos. Cheguei numa sala ampla, ricamente decorada com móveis e ornamentos orientais, com uma grande tela com a palavra "Karatê" em "kanji", numa pintura artística "shodo” na parede principal, atrás de uma longa mesa ornamentada. Sentado detrás desta mesa, o Shihan me esperava. Quando me viu, desenhou-se levemente no seu rosto algo que poderia ser interpretado como um sorriso (coisa rara). Eu devia ter feito alguma coisa muito certa... Ficamos ali, separados por aquela mesa enorme, por longos segundos. Por fim, ele fez um gesto para que eu me aproximasse. Eu o fiz, e ouvi dele o mais completo inesperado: “Eu tenho muita esperança em você. Você está indo muito bem, sua evolução me agrada. A partir de hoje, você começará a dar aulas para os iniciantes, e eu vou começar a remunerá-lo”.

Emoção! Emoção! Emoção! Não posso explicar a dificuldade que era agradar aquele homem! Só consegui contestar que ainda era faixa azul (neste estilo de karatê, a faixa azul é segunda, logo depois da branca). Ele franziu o cenho e respondeu: “A única função da faixa é segurar as calças. Hoje mesmo você será testado, e estou certo que vai passar direto para a verde (isto é, pulando a faixa amarela)”.

Nem preciso dizer que ganhei o dia!! Logo mais, à noite, passei no exame, que incluiu o “jyu kumitê” (luta de contato = porrada). Desse dia em diante, me tornei uma espécie de kōhai-senpai. Meu progresso era realmente incomum, graças ao treinamento ultra-intensivo.

Assim eu passei um ano e tanto de minha vida, aprendendo, na prática, o real sentido da filosofia Karatê. Vivenciando as tradições. Sentindo, literalmente na pele, o valor e a importância do mais puro estilo de vida Bushidô... Por que terminou? Por que não continuei neste caminho, e porque não estou nele até hoje? É uma pergunta que me faço até hoje. Como essa história terminou? No próximo post...


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