Fim de uma fase

Publicado originalmente por H K Merton em 02 de Julho de 2006 às 9:40 PM

O pastor Eduardo Giovanetti, da igreja batista tradicional, que agora eu frequentava, já não me agüentava mais. Eu o cobria de perguntas após todos os cultos. Ficava esperando a sua saída, na porta da igreja, e aí perguntava, perguntava e perguntava. Nunca aceitava uma explicação de pronto. Quer dizer, no começo tudo bem. Eu estava sedento por respostas que os católicos com seu modo geralmente distante e morno não podiam me oferecer. Aí encontrei essa outra comunidade, com um outro jeito de buscar esse Deus por quem eu tanto ansiava. Nesse primeiro momento, quando me sentia eufórico, até por minha inexperiência e imaturidade, aceitei uma série de coisas que me chegaram prontas, sem questionar muito. Mas, depois de pouco tempo, as indagações afloraram dentro de mim, e eu mandava uma enxurrada de perguntas fundamentais, desde Teologia clássica até História Antiga e Filosofia, pra cima da cabeça do pobre pastor. Um belo dia, ele meio que não agüentou mais e me respondeu assim: “Olha irmão, eu não sei responder a essa questão, não!! Procura aceitar essas coisas pela fé, que eu já vi muitas vidas serem destruídas, de pessoas assim tão questionadoras quanto você!

Ele me respondeu isso quando eu perguntei por que Deus haveria de castigar os pecadores, sendo que ele criou cada um com um propósito, e o propósito de alguns seria justamente fazer o mal, para que um Plano maior se pudesse cumprir. O exemplo maior seria o do próprio Judas, que teria vindo ao mundo exatamente com esse propósito, de trair Jesus. Foi para isso que ele veio, essa era sua missão. O próprio Evangelho de João nos diz que Jesus lhe deu um pedaço de pão molhado na última ceia, sendo que após este bocado, imediatamente teria entrado nele Satanás, para faze-lo cumprir seu destino. Sendo assim, Judas não teve escolha, então por que teria que ser castigado, ainda mais pagando com um castigo eterno, sem nenhuma possibilidade de perdão, nem agora nem daqui a um milhão de anos?

Mas esse pastor era muito “gente boa”. Na verdade, posso dizer que ele foi um dos grandes responsáveis por eu ter persistido por tanto tempo freqüentado a igreja. Lembro-me que uma vez, numa das reuniões de oração, uma senhora levantou uma questão recorrente até hoje em igrejas evangélicas, nos seguintes moldes: “Pastor, o Sr. não acha que as mulheres cristãs não deveriam jamais usar calças compridas, já que a Bíblia nos adverte que mulher não deve usar roupa de homem, e vice versa?” – O paciente homem olhou bem para a mulher, fez uma pequena pausa, provavelmente contando mentalmente até dez, e após um profundo suspiro, respondeu em alto e bom som, diante de toda platéia: “Irmã... roupa de homem pra mim é cueca! E roupa de mulher é sutiã...” Depois desse dia, eu passei a respeitá-lo. Esse pastor era uma figura ímpar, um cantor lírico super bem humorado. Parecia-me sério nas horas apropriadas, mas sabia com maestria evitar aquela tradicional pieguice que tantas vezes acompanha os homens de fé. Ele sem dúvida contribuiu muito para a minha decisão de me batizar.

Num belo domingo ensolarado, arrumei minha mochilinha com toalha e roupas secas. Joguei a mochila pela janela que dava para o corredor, dei a volta e saí, dizendo que voltaria antes de anoitecer. Meus pais não poderiam nem desconfiar aonde eu estava indo. Se soubessem que me resolvera ser batizado na igreja protestante, com certeza tentariam me proibir. O meu batismo foi um momento marcante em minha vida, sem dúvida, mas de uma certa maneira, me causou alguma frustração. É que o batismo era considerado condição indispensável para que o cristão pudesse se considerar “salvo”. Só depois do batismo, me diziam, é que eu poderia me considerar verdadeiramente um homem que “nasceu de novo“. O pastor explicava de um modo bastante coerente que não adiantava nada o batismo realizado pela Igreja Católica, porque a decisão de ser batizado teria que ser consciente, partir do próprio indivíduo. Este ato deveria ser encarado como uma espécie de confirmação da sua conversão ao Cristianismo, algo como uma ratificação da decisão de se tornar, daqui para frente, uma “nova criatura”. Além disso, para que eu pudesse ser considerado, efetivamente, um membro da igreja, eu teria que me batizar. Por isso tudo, eu acalentava, no meu íntimo, a doce esperança de que, após emergir das águas, eu seria realmente uma criatura completamente transformada. Um ser repleto de sabedoria, imune às antigas tentações da carne. Achava que a partir desse dia nunca mais voltaria aos antigos questionamentos, porque as respostas seriam impressas em meu espírito, e que agora estaria sereno e tranqüilo para o resto de minha vida, apenas cumprindo o meu sagrado trabalho de evangelizar ao próximo.

Bem... não foi exatamente isso que aconteceu.

O pastor já não conseguia responder à todas as minhas perguntas. E eu não estava conseguindo me enturmar muito bem no grupo de jovens da igreja; haviam certas “panelinhas”. Pô, panelinhas dentro da igreja?? Isso me parecia inadmissível! Eu até tentei voltar a freqüentar a igreja anterior, a primeira. Mas já não conseguia mais me sentir à vontade no meio daquela comunidade, com todas aquelas pessoas gritando na hora da oração... Aquilo realmente me incomodava. Por que gritar? Não está escrito que o Senhor conhece nossas necessidades antes mesmo de dizermos qualquer palavra? Além disso, o pastor batista era contrário a estas práticas:

"Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, de que vos aproveitará? (...) instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara?(...) Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar. (...) Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua. (...) Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois, ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro. (...) porque Deus não é de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos. (...) Tudo, porém, seja feito com decência e ordem". - I Coríntios 14:7 – 33

Mas, sem nenhuma dúvida, o fator mais importante a me afastar das Igrejas Evangélicas, foi o “chamado do mundo”. Eu tentei ser santo, o quanto pude. Mas eu tinha coisas a conhecer. Tinha coisas a descobrir e experimentar. O mundo me esperava e convidava para suas delícias, de portas abertas. A luta entre carne e espírito, dentro de mim, começava, finalmente (fatalmente?), a ser vencida pela primeira.





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