Eu, budista

Publicado originalmente por H K Merton em 22 de Setembro de 2006 às 8:17 PM


Eu levava a Busca REALMENTE muito a sério. De verdade. Por isso para mim não bastava apenas estudar, ler livros, participar de cursos e seminários, apreciar as religiões e filosofias como quem olha peixinhos num aquário. Eu queria encontrar a Verdade, eu queria vivê-la, experimentá-la, “me tornar um” com ela. Eu não estava disposto a escolher uma ideologia como quem escolhe a cor da roupa que vai vestir. Eu não queria “brincar” de ser budista; se eu viesse a entender que o Caminho era este, então me tornaria um monge. Pode parecer estranho, e sei que hoje meu comportamento seria diferente, mas este era o meu modo natural de ser. E lá fui eu, estudar o budismo. Mais uma vez, “enfiei a cara” nos livros sobre o assunto, para ao menos tentar entender as bases, os princípios por trás daquele modo de vida que me parecia tão atrativo. Comecei do começo, como é do meu costume.

Sakiamuni. Sidarta Gautama. O Iluminado. Buda. Não vou contar aqui a história, ao menos por hora, mas ela já foi exaustivamente contada e resumida em outros lugares. Na verdade, muito pouco se sabe a respeito desse controvertido personagem, sobre o que é histórico e o que é pura lenda. Mas me chamou muito a atenção o fato de os budistas simplesmente não se importarem com isso. Lhes basta seguir “O Caminho do Despertar”.

Depois de estudar e me encantar com a saga do Buda histórico, procurei os grandes templos, para conhecer de perto a realidade do universo budista. Conheci monges, abades e reverendos de diversas linhas: "Theravada" (do páli 'Ensinamentos dos Antigos'; escola do grupo 'Sthaviravada', fundada pelo monge Moggaliputta Tissa), "Mahayana" (do sânscrito 'Grande Veículo'; movimento surgido por volta dos séculos I/II que procura valorizar a libertação de todos os seres através da compaixão dos 'Bodhisattvas'), Vajrayana ( do sânscrito 'Veículo de Diamante'; forma esotérica do buddhismo Mahayana, baseada nos ensinamentos dos 'Tantras')... Fiz especiais amizades na "Comunidade Budista Soto Zenshu" - Templo Busshinji, no bairro da Liberdade, em São Paulo, na "Associação Religiosa Nambei Honganji" e no "Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog" – Budismo Tibetano. Mas foi no Templo "Higashi Honganji", no Bairro da Saúde, em São Paulo, que me matriculei no curso de formação em budismo. E foi nesse mesmo templo que eu conheci o homem que se tornaria para mim um verdadeiro guru, e me ensinaria, da maneira mais profunda e verdadeira possível, o que significa ser budista, na prática.

Nesse estágio, eu meditava na escola Soto Zenshu, e estudava no Higashi Honganji, com os Reverendos Neves e Imai. O ambiente dos templos era para mim simplesmente arrebatador, em termos de paz e serenidade; era simplesmente impossível permanecer nestes lugares sem me sentir invadido por uma sensação de intensa tranqüilidade e quietude. Quanto mais estudava, eu entendia que o Budismo, de um certo modo, provavelmente é o mais próximo possível da Verdade que os esforços humanos podem chegar.

Mas eu tinha problemas com a questão ritualística. Se o budismo se pretende uma “ciência” da alma, então porque tantas formas e alegorias? Isso me incomodava. Toda aquela infinidade de Budas e Bodhisattvas, todo o folclore... Havia a questão da devoção ao "Buda Amida" (divindade japonesa que governa a região da felicidade, o Céu. É um dos cinco 'Niorais' ou 'Budas da meditação'; personifica a inteligência da prédica, e a caridade no amor). A única tradição que não possui este conceito é a Theravada. Sobre esse ser mítico não há muito consenso entre as linhas budistas, mas, num certo sentido, é ensinado que dependemos dele para nos iluminarmos. Os que já me conhecem podem imaginar que eu não me sentia nem um pouco a vontade com idéias como essa. E havia ainda a questão da reencarnação**. Como e porque crer e ter como verdade indiscutível algo que não podemos saber, realmente (pelo simples fato de que nunca experimentamos)? Afinal, ciência é isto, aceitar apenas o que se pode provar. Se fosse para aceitar preceitos tradicionais puramente pela fé, eu nunca teria deixado o Catolicismo, que era a religião dos meus pais. Minha idéia de ser padre não vingou por causa desse tipo de coisa, lembram-se? Até que ponto eu era capaz de engolir alguma coisa que já chegava pronta e mastigada, como verdade absoluta?

“Não acrediteis em coisa alguma apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em coisa alguma só porque é dita e repetida por muitos. Não acrediteis em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não acrediteis em coisa alguma só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la como verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa própria experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas, a isso aceitai como Verdade. E daí pautai a vossa conduta!" - Kalama Sutra, 17:49

Apesar destas famosas afirmativas do próprio Buda, na prática não era isso o que acontecia na maioria das ordens budistas que eu conheci. Nunca foi da minha natureza seguir rituais às cegas, sem saber exatamente o que estava fazendo e porquê.

Eu havia manifestado, claro, meu interesse em me tornar monge a este admirável homem que mencionei, o reverendo Neves. Num belo dia ele me olhou bem nos olhos e me disse: “Gafanhoto (brincadeira, ele falou meu nome, mesmo ;-)), há uma coisa importante que você precisa saber: Mesmo que você venha a se tornar um monge, lembre-se que nada em sua vida vai mudar tanto, isto é, nada ‘especial’ vai acontecer simplesmente por você fazer votos e raspar a cabeça. Nossas vidas como monges não são tão diferentes da sua como cidadão comum. Eu, por exemplo; minha rotina é cuidar da horta, ir ao banco pagar as contas do templo, cuidar de diversas questões administrativas, ministrar aulas aos novatos e leigos... Nada muito diferente da sua vida. Ando ocupado o dia inteiro com a minha rotina. Se o seu objetivo é realmente encontrar a Verdade, saiba que não chegará mais perto dela entrando para o Templo. Nem deixando de entrar. A Busca pela Verdade é algo pessoal. Posso lhe assegurar que há monges que não tem a menor idéia do que seja essa Verdade que você procura, apenas estão no serviço religioso por comodidade, ou por amor as tradições. Então, lembre-se: Se você quiser se juntar a nós, no serviço, será muito bem vindo. Você é um garoto especial (desculpem a falta de modéstia, mas eu não achei que deveria suprimir um elogio sincero, que ganhei de um homem sincero). Mas lembre-se que encontrar a Verdade não está, necessariamente, relacionado à vida monástica”.

Não preciso dizer que minhas esperanças se desvaneciam novamente. Eu não estava interessado em ser monge para dar continuidade a uma tradição, por mais bela que fosse. Eu queria... Bem, vocês já sabem o que eu queria.

E assim terminou a minha fase budista. Mas não a minha amizade com os reverendos, que continua até hoje.

"Por mais que um grande fogo incendeie o universo de bilhões de mundos, devemos atravessá-lo para procurar ouvir o ensinamento, alegrando-nos na Mente Confiante, mantendo-a e praticando-a. Isto porque, mesmo que muitos bodhisattvas desejem ouvir este ensinamento, ainda assim é muito raro conseguí-lo. Caso alguém venha a ouvi-lo e seguí-lo, jamais retornará até atingir o Estado da Iluminação Suprema" - Sutra Maior de Amida

** A palavra reencarnação é usada com frequência para se referir aos renascimentos. No entanto é geralmente aceito pelos instrutores budistas atuais que, em vista das doutrinas budistas de Anatta (não-eu) e Anicca (impermanência) a idéia comum atual de "reencarnação" é um conceito incompatível com o ensinamento budista. O renascimento (ou emanação) descrito pelo budismo é, em vez disso, uma herança de agregados impermanentes, não de uma verdadeira identidade permanente.



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