Escolhas

Publicado originalmente por H K Merton em 29 de Setembro de 2006 às 8:49 PM




Se eu quisesse ser um padre cristão, teria que fazer voto de pobreza. Se eu quisesse ser um monge budista, teria que abrir mão de todos os confortos materiais, de um modo até mais radical, e também fazer voto de pobreza. Eu não me interessava intensamente, de verdade, por nada, absolutamente nada, que não fosse a Busca essencial. Eu não conseguia me concentrar em nada além disso. Tinha outros interesses, claro, mas nada tão a sério. E não me conformava em ver a indiferença das pessoas com relação às coisas que tão obviamente eram as mais importantes da vida. Quando comecei minhas práticas meditativas, por exemplo, tomei conhecimento de uma outra realidade, um estado de mente mais elevado, superior. Fiquei empolgado com a minha descoberta, e quis compartilhar com o mundo! Mas qual não foi minha surpresa (e decepção) ao descobrir que ninguém estava muito preocupado em evoluir, descobrir-se, “conhecer a si mesmo”, como já aconselhara Sócrates, aproximadamente 2.500 anos atrás. Cada ser humano ao meu redor simplesmente parecia satisfeito em viver sua curta e medíocre vida, sem se importar com nada além de conseguir e manter um bom emprego, para poder pagar contas - as contas das coisas consideradas indispensáveis, simplesmente porque era assim o costume dos humanos, desde tempos imemoriais.

Então era isso: Nascer, crescer, se reproduzir e morrer. E tentar fazer isso da maneira mais confortável possível. E pensar não é muito confortável. Estudar, para a maioria, só para conseguir um diploma. Diploma para conseguir um bom emprego. Bom emprego para poder comprar coisas. Coisas que atraem mulheres. Mas, na minha sociedade, eu só posso ter uma mulher. E sobre isso, pra falar a verdade, ainda que eu pudesse ter mais, acho que não ia querer. Sei muito bem que uma mulher só na vida de um homem já é mais que suficiente. Talvez alguns homens pensem o contrário, que seria divertido ter muitas mulheres, mas é só porque quando dizem “mulher”, não estão pensando em esposas, no sentido da palavra, mas sim em escravas sexuais, todas lindas e cheias de glamour, sempre dispostas a satisfazer os desejos do seu “amo”.

Bem, então, se a vida é só isso, então qual a diferença entre ter e não ter? Qual a diferença entre os ricos e os pobres?

Desde cedo eu enxerguei muito claro que a única diferença entre as classes sociais é que uns vivem em gaiolas de ouro, outros em gaiolas de arame e alguns em gaiolas de bambu. Todos escravos de um sistema desumano e irracional. E o pior de tudo é que a maioria nem sequer se dá ao trabalho de questionar essa situação miserável.

Tudo bem, você pode argumentar que viver numa gaiola de ouro tem lá as suas vantagens. E eu reconheço que talvez sim. Até porque o problema não está no dinheiro em si, mas na forma como temos que vender nossas almas ao diabo para poder tê-lo. Isto é, para um cara que não nasceu rico, qual a única maneira segura e honesta de ficar rico? TRABALHO, TRABALHO, TRABALHO... 12, 14, 16, 18 horas por dia (olha que eu sei do que estou falando). Se alguém aí conhecer uma outra maneira, além de ganhar na loteria ou dar o golpe do baú, sou todo ouvidos. Isto é que eu chamo de "vender a alma" por dinheiro, simplesmente porque você deixa de ser si mesmo em prol de gerar riqueza. O dinheiro exige de você todo seu tempo, todas as suas energias, seu pensamento, tudo que você tem de melhor, enfim. Assim você até consegue ficar rico. Em troca da sua alma...

Literalmente, troca-se a evolução do ser pela involução do ter. Por que será que os grandes homens de todas as religiões, praticamente sem exceção, ou eram ou se fizeram pobres?

“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha que entrar um rico no Reino do Céu” - Matheus 19:24 e Lucas 18:25.


É uma afirmação clara, explícita, taxativa. Sim, sim, eu sei que uma série de “gurus da nova era” já se desdobraram para tentar suavizar essa frase, dizer que talvez o “fundo de agulha” em questão fosse o nome com que chamavam um determinado tipo de porta nos muros da cidade de Jerusalém, outros dizem que a palavra “camelo” significaria um tipo de corda usado na época, etc, etc... Mas eu não tenho mais o direito de acreditar em alguma dessas fábulas, agora que o meu conhecimento é suficiente para entender e saber, acima de qualquer sombra de dúvida, que a afirmação quer dizer exatamente o que parece que ela quer dizer.

E além disso mesmo que houvesse a mais remota possibilidade de o sentido dessa frase fosse algum outro, mais suave e menos discreto, o que não há, ainda assim seríamos obrigados a considerar que essa não foi a única afirmativa de Jesus no sentido de condenar os que dedicam suas vidas a construir riqueza. Ele diz que não podemos ter dois senhores, Deus e o dinheiro, porque haveremos de amar um e odiar outro (Matheus 6:24 - Lucas 16:13); além de nos exortar a guardar nossos tesouros no Céu, e não na Terra, “porque, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração”, e deixa muito clara a sua posição em relação às riquesas deste mundo: “Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação” - Lucas 6:24. / “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens e dá aos pobres. Depois, vem e me segue” - Matheus, 19:20-21.

A verdade nua e crua é que há muitas e muitas passagens muito claras no Novo Testamento condenando os ricos, e de forma inapelável. - Isso me lembra o título de um livro muito interessante que eu li: 'Coisas que Eu Gostaria que Jesus Nunca Tivesse Dito'...

Mas um tal de Sidarta Gautama, chamado Buda, também andou afirmando coisas bem parecidas com essas. Ele, ao descobrir que no mundo existiam miséria, doença, dor e sofrimento, deixou seu título de nobre e todas as suas riquezas, para se empenhar de corpo e alma na busca da libertação. Francisco de Assis, quando ouviu o chamado do próprio Cristo, abandonou tudo que tinha (até as roupas do corpo); ele, que havia nascido rico, para dedicar-se em tempo integral à “reconstrução” da Igreja e o serviço aos pobres. Assim também diversos “homens santos” hindus, assim também Mahatma Ghandi, Ramana Maharshi, Teresa de Calcutá, etc, etc, etc...

Parece que todos que viram a Verdade, de alguma forma, simplesmente deixaram de dar importância ao dinheiro, aderiram a um estilo de vida absolutamente minimalista, e foram muito mais felizes. Seres humanos realizados, mesmo.

Quanto a mim, ainda que de uma forma quase inconsciente, aos poucos, fui deixando de lado minhas expectativas de sucesso material, em prol daquilo que realmente me interessava. Conclui o ensino médio e resolvi dar um tempo com os estudos. Arranjei um trabalho como bancário, em meio período, e fui cuidar de fazer o que tinha nascido para fazer: Procurar o Autor da Vida.


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