A descoberta do protestantismo

Publicado originalmente por H K Merton em 26 de Junho de 2006 às 10:52 AM


A "Igreja Cristã Evangélica" no começo da década de 1980

Eu lia e lia a Bíblia. A todo instante, o volume sagrado era aberto e orações eram feitas. A Bíblia foi minha primeira biografia, os judeus meu primeiro povo e as palavras de Jesus, assim como as de Moisés e as dos outros profetas, eram as coisas mais importantes para mim. Eu lia muitas outras coisas também (sempre fui um leitor inveterado, da bula do remédio ao panfleto deixado na caixa de correio), mas todas as essas outras coisas eram exatamente isto: outras coisas. Apenas sonhos e pensamentos humanos, enquanto que na Bíblia estava a sagrada Verdade das verdades. Era assim que eu pensava no tempo da minha adolescência.

_______Exatamente nessa fase da minha vida, quando concluía a leitura dos Evangelhos, com quatorze para quinze anos, eu atravessava um momento muito difícil em minha vida. Meus pais enfrentavam uma dura crise conjugal, os negócios iam mal para o meu pai, o clima estava mais do que pesado em minha casa e os reflexos me afetavam diretamente. Minha mãe, a quem fui sempre tão ligado, por toda a minha infância, de repente parecia ter se tornado a minha pior inimiga. E você começa a achar que o mundo inteiro está contra você.

_______O fato é que, dentro da minha casa, tudo que havia eram brigas. Meu pai começou a freqüentar bares e chegar alterado em casa, tarde da noite. Daí, mais e mais discussões e troca de ofensas, que iam ficando cada vez mais feias. Foi uma fase "barra pesada", mesmo. E a Bíblia, a maior companheira.

_______Numa noite chuvosa de quarta feira, eu, magérrimo, sentado, deprimido, à porta da frente de minha casa, folheando minha pequena Bíblia, como sempre. Em pensamentos divagava sobre o quanto gostaria de encontrar minha egrégora, a minha turma, minha tribo... Quando chegaria o dia em que finalmente iria encontrar outras pessoas que pensassem como eu, interessadas nas mesmas coisas, preocupadas em encontrar Deus, antes e acima de tudo? Meus amigos da escola só estavam preocupados com futebol e namoradinhas. Eu até que tinha uma vida social interessante, para alguém que está cursando a oitava série: era um garoto popular, gostava de uma bagunça e das festinhas, era o rei dos "correios elegantes" nas quermesses. Meu espírito de liderança fazia de mim “o cara” a ser seguido pela turminha da escola. Mas a minha preocupação, na verdade minha obsessão, era bem outra: ia muito além das trivialidades da vida comum. Eu nascera diferente, e não conseguia fugir disso, mesmo que às vezes tentasse. Estava dentro de mim pensar mais, muito mais do que todos à minha volta.

_______Impossível ignorar um desejo irreprimível, uma necessidade crescente de querer ver além. Voltando das aulas, sentava em silêncio para meditar, Bíblia em meus braços, olhos fechados, tentando enxergar respostas para as perguntas que me martelavam a mente, sem piedade: “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?”...

_______Como já mencionei antes, nessa época eu ia sempre à Missa no domingo, participava de alguns encontros da igreja e até freqüentava reuniões da TFP (Tradição, Família e Propriedade): um dia ouvi, de dentro de casa, um coro de vozes juvenis que bradavam em tom vigoroso: 'Viva Nossa Senhora!!'... Saí para ver o que acontecia e me deparei com um grupo de rapazes de cabeça raspada marchando pela rua, ostentando estandartes com a cruz e símbolos cristãos. Pensei logo que poderiam ser a 'minha galera'. Corri atrás dos caras e pedi informações. Daí, passei a frequentar a sede da TFP no bairro de Vila Mariana, em São Paulo. Lá, assistia algumas palestras e filmes educativos, participava de jogos, gincanas e brincadeiras.

_______Mas não me sentia completo. Minha sede por conhecimento, minha desesperadora necessidade de buscar os caminhos do espírito não estavam, de modo algum, sendo supridas. Eu já estava disposto a abdicar de uma série de coisas que gostava, se fossem me impedir de avançar neste caminho. Por exemplo: eu, que sempre fui apaixonado por Rock´n Roll, me obriguei a parar de ouvir Iron Maiden, uma das bandas prediletas, depois de entender o significado da letra de “666 The Number of The Best”. Black Sabbath também deixou de constar na minha lista de favoritas, quando soube que até o nome da banda significava “sábado negro”, em outras palavras, a missa negra, celebrada em honra e louvor de Satã nos rituais de magia negra da Idade Média. Nenhum dos meus amigos sabia dessas coisas, eles simplesmente curtiam o som sem pensar em nada, mas eu estudava a História Antiga apaixonadamente; com enfoque na história das religiões, claro.

_______Bem, então era esse o panorama: eu, obstinado em encontrar Deus, para encontrar a Vida e a Verdade. Possuidor de muita fé. Memória e QI privilegiados (excluída a falsa modéstia). Mas não conseguia me encontrar. Sentia-me solitário. Não podia encontrar mais ninguém que se importasse, assim como eu. As baboseiras adolescentes não me satisfaziam, e não me conformava com a alienação dominante no meu mundo. Todos os meus amigos e familiares, todas as pessoas que eu conhecia, pareciam conformadas demais com tudo que não sabiam. O que todos eles faziam me parecia muito mais um vegetar do que com viver verdadeiramente. Nas palavras dos Evangelhos, Jesus parecia me desafiar: “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará...” – Se eu pudesse conhecer a Verdade, então seria verdadeiramente livre...

_______E naquela noite chuvosa de quarta feira, eu sentado à porta de minha casa, deprimido, olhando para o vazio, a rua deserta: acho que eram umas dezenove horas e trinta e tantos minutos. Arde dentro de mim, mais intensamente do que nunca, o desejo de encontrar o meu lugar, a "minha família" verdadeira. E simplesmente saio andando pela rua, passeando sob a fina garoa e a luz dos postes. É um caminhar meditativo, mente elevada... Desço a rua da casa onde morava, sem direção certa, simplesmente porque para lá havia caminhos que eu ainda não conhecia muito bem. Acho que era o meu desejo inconsciente de descobrir coisas novas. Depois de sair do perímetro conhecido, andei pouco mais de um quilômetro, se tanto. Bíblia nas mãos. Ganhei o bairro vizinho, que eu nunca tinha visitado. Passei por ruas novas, lugares desconhecidos, imaginando como poderia um lugar tão próximo ser tão novo, e me parecer tão diferente. De repente, a chuva começou a engrossar, e eu precisei me abrigar sob o beiral de uma casa para não me encharcar. Dali iria voltar, pois essa caminhada meditativa já havia se prolongado o bastante, eu supunha.

_______Como tinha andado o tempo todo completamente absorto em meus devaneios, ora olhando para o chão e ora para o chumbo do céu carregado, só naquele momento me permiti nivelar o olhar e realmente olhar onde estava. E talvez pudesse também dizer, porquê estava: eu simplesmente olhei para frente, e ali estava ela! Ali, exatamente à minha frente, do outro lado da rua molhada, uma casa simples, térrea, pintada de branco, com portões e uma porta no corredor lateral abertos. Por esta última eu podia ver uma suave claridade que saía do interior, denunciando atividade lá dentro. Bem acima da porta de entrada frontal, que estava fechada, palavras pintadas em arco me sorriam: “IGREJA CRISTÃ EVANGÉLICA” (exatamente como mostra a foto acima, que para minha surpresa eu consegui descobrir na rede).

_______Um arrepio percorreu minha coluna. Eu havia saído da minha casa, caminhando sem direção, desejando mais do que tudo encontrar o meu caminho e a minha “verdadeira casa”. Simplesmente caminhei por ruas desconhecidas sem saber para onde estava indo, pensamentos mundanos ausentes. De repente, a chuva me obriga a parar, e o que vejo? Bem diante de meus olhos está um templo, do qual nunca ouvira falar! Atravessei a rua, passei pelo portão, ganhei o corredor e entrei pela pequena porta lateral. Algo parecido com uma igreja católica, só que menor e muito mais simples. Havia paredes brancas e pequenas janelas em arco, mas não haviam imagens de santos esculpidas nem pintadas nas paredes. Não haviam crucifixos. Apenas uma espécie de palco, com um púlpito á frente de uma pequena assembléia.

_______Na parede do fundo, uma pintura representando um rio ladeado de árvores e um céu muito azul, com raios de sol descendo de nuvens brancas. Arranjos de flores para enfeitar. Bancos de madeira com genuflexório, iguais aos católicos. Mas aquilo não era uma igreja católica, com certeza. No púlpito, um rapaz bem jovem comentava alguma passagem dos evangelhos, e cerca de oito ou nove outros jovens ouviam atentamente. Entrei um pouco tímido: um moço de barba rala e olhar bondoso me viu e sorriu para mim. Sentei num dos muitos bancos vazios. A palestra não demorou nem cinco minutos para terminar; eu havia chegado no final... Todos se levantaram, eu também. O moço de barba se aproximou e me disse: “Seja bem vindo! Você pertence à alguma congregação?”, eu disse: “Sou católico...”, e ele tornou: “Seja bem vindo! Às quartas-feiras temos esses encontros, para oração e estudos bíblicos. Aos sábados e domingos temos cultos. Volte para nos visitar!”... - Um outro rapaz se aproximou e também me deu boas vindas.

_______Por alguns minutos conversamos, os três; eu comentei que morava ali perto e da maneira incomum como chegara ali. Ficaram todos impressionados, foram extremamente simpáticos e disseram que, se eu estava procurando por Deus, aquele certamente era o meu lugar. Senti uma força muito positiva no lugar e naqueles que me recepcionaram. Encontrei tudo que eu não tinha na Igreja Católica: uma recepção amiga e calorosa, pessoas empenhadas em encontrar Deus verdadeiramente e o desejo de partilhar e ajudar outras pessoas nessa mesma busca. E o pouco que ouvi da palestra achei muito bom! O preleitor era claro e objetivo, diferente dos padres lituanos que eu até então conhecia. Voltei para casa pensando que o rapaz de barba poderia muito bem interpretar João, o discípulo amado de Cristo, em qualquer filme holywoodiano. A aparência tranqüila, o olhar amoroso, o desejo transparente de ajudar o próximo. Sim, eu iria voltar.

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Nota: há vinte e poucos anos, a cena religiosa no Brasil era bastante diferente da atual. Os assim chamados “evangélicos” (termo ainda não muito usado) constituíam uma pequena minoria, perdidos em meio à massa da maioria católica. Havia pouquíssimos templos de igrejas protestantes, e todas as menções que eu até então ouvira a respeito dessas pessoas eram críticas ferozes e preconceituosas. A vaga idéia que eu tinha dos assim chamados “crentes” era a caricatura do “bitolado” de terninho e Bíblia debaixo do braço, para o qual tudo é pecado. Daí o meu espanto em conhecer aqueles jovens descontraídos, de jeans e camiseta, praticando uma maneira, - para mim, - totalmente nova de buscar a Deus.

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