De volta ao espiritismo - parte 3

Publicado originalmente por H K Merton em 10 de Outubro de 2006 às 10:26 AM

Claro que eu não deixaria que uma primeira impressão me afastasse assim, de modo tão definitivo, de uma religião seguida por tantos amigos e pessoas interessantes que conhecia. Ainda mais porque essa religião parecia trazer casos importantes, de evidências concretas, da continuidade da vida após a morte do corpo físico. Desde a minha infância a religião espírita me intrigava, e eu não iria me deixar convencer por uma só experiência negativa. Portanto, resolvi seguir a indicação de uma amiga e fui conhecer um outro médium, que segundo me informaram era clarividente e capaz de se desdobrar no plano astral, além de ser um ótimo palestrante. O nome dele era (e é ) Moisés Esagüi. “Haverá uma palestra no Centro, com o Moisés, no próximo sábado, às duas e trinta!” – Disse essa amiga espírita - “Ótimo. Iremos juntos!” - foi a minha resposta.

Chegado o dia, lá estava eu (Não vou divulgar o endereço). O Centro era uma casa, um grande e bonito sobrado antigo, transformado numa espécie de escola, com uma sala de espera na entrada, uma pequena biblioteca e um pequeno salão de palestras logo depois. O lugar estava apinhado de gente. Logo ao chegar, fomos interpelados por algumas moças, que serviam como ajudantes, que nos deram fichas para preenchermos com nossos nomes, endereços e telefones. As palestras aconteciam no salão, naquele momento completamente lotado! Pessoas se espremiam também num corredor do lado de fora da casa, disputando um lugarzinho na janela do salão! Do lado de dentro, todas as cadeiras ocupadas, e muita gente acomodada pelos cantos, no chão, e outras em pé, encostadas na parede do fundo. Minha amiga e eu tivemos também que nos ajeitar em pé, no último espacinho vago, logo atrás da porta. Apesar de apertados, dali teríamos ótima visão e audição da palestra toda.

Depois de algum atraso, entra o tal Moisés Esagüi. Sujeito magro, baixo, franzino, cabelos escuros encaracolados. Óculos com lentes finas, de aros dourados, e um ar tranqüilo. Usava calça social e camisa de flanela xadrez. Cumprimenta a platéia com uma voz suave, e com uma fala pausada e muito mansa, quase sussurrada, ele anuncia que o tema da palestra seria Projeção Extra Corpórea. Ouve-se um coro de “Oooooooohhhhh...” baixinho, ecoando pelo ambiente. Olho para os lados, todos os olhos estão brilhando. O homem é quase idolatrado!

Ele resolve iniciar a palestra dando um exemplo do que é possível se fazer por meio da projeção ou desdobramento astral: Conta que certa noite foi acordado em sua cama por espíritos superiores, que precisavam e pediam a sua ajuda para auxiliar um detento, que se encontrava desesperado em sua cela, se preparando para cometer suicídio. E que então ele, Moisés Esagüi, saiu do corpo físico e se transportou à velocidade da luz até a cela onde o condenado já estava com uma corda enrolada no pescoço, pronto para dar termo à própria vida. Como não sabia o que fazer para demover o homem de sua triste determinação, teve uma idéia brilhante: Tomar uma forma visível, de alguém que o coitado com certeza iria ouvir e respeitar. E assim, o (super) médium se plasmou ali, dentro de uma cela de penitenciária, com a forma física de Jesus Cristo!

Mais uma vez eu ouço um “Oooooooohhhhh...”, dessa vez ainda mais entusiasmado. Os olhinhos dos presentes brilham ainda mais. “Isso explica tudo”, continua o palestrante – “Toda vez que alguém diz que viu santos, anjos ou etês, vocês podem ter certeza que se trata de algum espírito brincalhão pregando uma peça. Lógico que eu só fiz isso pra poder salvar a vida daquele pobre homem. Quando ele me viu, sob a forma física de Jesus, na mesma hora achou que era um Sinal dos Céus e desistiu da idéia de se matar... Hoje ele é evangélico...


Aaaaaaaaaaahhhhh...”, fazem todos. Eu olho para minha amiga. Ela me espia de canto de olho. Uma moça sentada numa das cadeiras da primeira fila diz: “Então quer dizer que você pode sair do corpo, tomar a forma que quiser e aparecer pra qualquer pessoa?” – Ao que Moisés prontamente responde, fazendo pose de importante: “Ah, sim... qualquer um pode fazer isso, se souber como! Aliás, a partir deste mês eu vou começar a ministrar um curso sobre desdobramento astral, com um custo bastante acessível. E pra quem já faz o curso de ‘cura por imposição das mãos’, comigo, tem um desconto de 20%! Mais informações com minhas secretárias, no final da palestra”... Todos se mostram super empolgados, e alguns já começam a perguntar pela quantidade de vagas. Eu só observo e penso “Meu Deus, como é fácil enganar tantas pessoas, que, a seu próprio modo, estão buscando, como eu...” Imediatamente algo me diz que não. Estas pessoas não estão buscando como eu. Elas simplesmente querem se sentir confortáveis. Querem eleger como mestre ou guru alguém que lhes diga o que querem ouvir, que morrer não é o fim, e que elas são eternas. Querem alguém que lhes diga que elas têm superpoderes, que não precisam lutar para conquistar coisa alguma, ou trilhar um Caminho estreito. Querem um caminho largo, fácil, agradável... A Verdade? A Verdade pra elas é um fator secundário, de menor importância.

Eu já ia embora, afinal não tenho tempo a perder, e a única coisa que poderia aprender ali seria a arte da enganação. Mas, antes, resolvi provar pra minha amiga que ela estava se iludindo, naquele lugar. O “grande médium” agora falava da presença dos espíritos obsessores, que estão por todos os lados, que eles aparecem em todos os lugares, sempre ao nosso redor, prontos para nos prejudicar, nos “puxar” pra um nível vibratório inferior. Que a maioria das doenças físicas e vícios era provocada por esses espíritos sofredores e blábláblá... Uma senhora no canto da sala disse que sentia fortes dores nas costas, que os médicos não conseguiam diagnosticar, e perguntou se o palestrante podia “ver” alguma coisa. No mesmo instante ele disse que sim, estava vendo uma presença negativa nas costas dela. Novo “Oooooooohhhhh...”. A pobre senhora se apavorou, mas o "nobre" homem rapidamente lhe assegurou que depois iria explicar para ela, em particular, o que teria que fazer para se livrar do espírito inconveniente. Então eu puxei minha amiga e sussurrei ao seu ouvido: “Vou fingir que estou mal”. Ela me olhou, confusa. Entortei o pescoço para o lado direito, e comecei a encenar uma expressão de dor.

Dou minha palavra a vocês, não foi preciso mais nada: Em menos de cinco minutos, Moisés Esagüi, observando minha expressão e minha postura, disse: “Por exemplo, tem um rapaz aqui dentro que está com um espírito bem ao seu lado, agora, que o obriga a pender o pescoço para o lado. Isso acontece porque...

Eu ri alto, endireitei o pescoço e puxei minha amiga pra fora da sala. Chegando na sala de espera, uma das secretárias, uma loura bonita, me perguntou pela fichinha com meus dados, e eu respondi: “Não vou entregar meus dados pessoais pra vocês”. Já do lado de fora, perguntei pra minha amiga: “POR QUÊ? POR QUE VOCÊ É ASSIM TÃO INGÊNUA?”?..



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