Começando do começo... a Arte das artes

§ Publicado originalmente por H K Merton em 9 de Maio de 2006 às 4:30 PM

Eu sou um cara meio estranho... Não sei bem porquê, assim como não sei um monte de outras coisas que gostaria muito de saber. Mas, como está escrito: “Tudo tem o seu tempo certo para acontecer debaixo do céu" (Eclesiastes 3, 1). - Interessante observar que o texto bíblico especifica: debaixo do céu. – Do que podermos subentender que em outros planos de existência o tempo talvez não exista, ou não faça diferença. Acho isso extremamente animador, afinal, aqui neste mundinho somos todos escravos deste tirano implacável: o tempo. Bem, aqui estou eu me abstraindo do assunto...

_______Dizia que sou uma pessoa um pouco estranha; ao menos deve ser essa a impressão que a maioria das pessoas têm a meu respeito. Para mim mesmo, porém, penso que se todos fossem iguais a mim, a vida seria muito melhor... O fato é que eu sempre fui um inconformado. Nunca consegui, embora por algumas vezes tenha mesmo tentado, ser “mais um boi na boiada”. E aqui, agora, começo a compartilhar a minha história. Talvez esses escritos venham a ser úteis para alguém, algum dia...

_______Aos 4 anos de idade, eu passeava na pracinha com minha querida mãe, e conversávamos animadamente. Eu não me lembro do assunto, mas me lembro das imagens, das cores, do tom da voz dela... Minha memória é absolutamente inacreditável, tenho inclusive lembranças da vida intra-uterina(!). Você duvida? Não importa, já estou acostumado. Acho que só esse assunto já renderia, no mínimo, um post bem longo. Mas, voltando ao assunto: era uma tarde, provavelmente por volta das 17h30, quando, no meio da conversa, ela me disse: “Então, filho, no dia em que eu já tiver morrido, você...” – O final da frase eu não me lembro, provavelmente porque essa revelação por si só me chocou demais para que pudesse prestar atenção a qualquer coisa que viesse a seguir. Rapidamente retruquei: “um dia você vai morrer?” – um fio de esperança no fundo da voz, esperança de que tivesse ouvido mal, de que não tivesse compreendido bem, – mas a reposta veio ainda mais aterradora, e implacável: “Claro, um dia todo mundo vai morrer!”.

_______Eu estava diante da pior notícia que já tivera recebido em toda a minha curta vida até aquele momento. Mas a resposta para minha próxima pergunta é que iria mudar, definitivamente e para sempre, minha até então doce e simples vida. A pergunta foi: “Até eu?” – E a resposta: “Sim, até você, todo mundo!”...

_______Bem, este foi o começo de tudo. Este foi o princípio da Busca. Claro que com 4 anos eu não podia ainda entender muito das coisas. Ou será que naquela época eu entendia mais do que hoje? Bem, posso dizer com certeza que todo o conhecimento que eu pude adquirir, ao longo de décadas a fio de busca, práticas espirituais as mais diversas, estudo e meditação, me levariam a uma conclusão mais ou menos por aí. Como diz a tradição oriental:


"Quando eu não conhecia a Arte, uma árvore era apenas uma árvore,
uma nuvem era apenas uma nuvem.

Quando eu comecei a aprender a Arte,
uma árvore já não era mais apenas uma árvore,
uma nuvem não era mais apenas uma nuvem.

Agora que eu entendo a Arte,
uma árvore é apenas uma árvore,
uma nuvem á apenas uma nuvem"


_______
Mas afinal, eu ainda não sabia ler. Demoraria ainda um ano para aprender isso... E não podia sair de casa sozinho ainda, para ir atrás de respostas. Minha única fonte de pesquisa na infância eram meus pais, cada um com a sua sabedoria. Ou a falta dela, sei lá. Mas... Sabe o que me deixava realmente confuso? Eles pareciam não estar nem aí! Quer dizer, eu realmente não podia entender: uma pessoa sabe que vai morrer e simplesmente não tem tempo a perder com isso? Não pensa em compreender, em se preparar para o desfecho inevitável? Bem, meus pais levavam suas vidinhas, tranqüilos, despreocupados, e quando eu começava a perguntar das coisas, simplesmente desconversavam, mudavam de assunto ou diziam que não adiantava se preocupar, que quando eu crescesse iria entender tudo... Infelizmente, eles estavam muito errados. Quanto mais crescia, menos entendia.

_______Acho que o principal motivo de ter ficado tão abalado, ao tomar conhecimento da finitude da vida, foi o fato de que naquela época minha vida era simplesmente maravilhosa! Eu era o mais feliz dos meninos. Minha vida era absolutamente (hoje eu sei) meditativa; eu vivia todo o tempo no Agora, preocupado apenas e tão somente em dar e receber amor; da minha mãe, do meu pai, - que cantava para eu dormir, - do meu gato, que brincava comigo o dia inteiro, dos meus brinquedos... Então, morrer por quê? Como assim???

_______Então foi isso. Minha Busca começou, muito parecida com a de Sidarta Gautama, ou Sakiamuni, o Buda histórico. Como ele, que depois de descobrir que existiam a morte e o sofrimento, nunca mais teve paz, até atingir a iluminação, também eu.




Duas diferenças importantes:

1. Ele descobriu isso quando era já um jovem.

2. Eu ainda não atingi a iluminação...


** Para ler a continuação, clique aqui.


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12 comentários:

Marco disse...

... concordo você é estranho! :)

Marco

Anônimo disse...

Parabéns cara! Interessante o detalhe dos onze.

H K Merton disse...

Alguns meses depois, agradeço a participação de vocês, Marco e Anônimo, e pergunto: que detalhe dos onze??

flip-top disse...

o detalhe dos onze deve ser o horario que a mensagem original foi postada - 11:11 h. eu acho...

H K Merton disse...

FLIP-TOP,

Agora EU fiquei impressionado... :O

Não tinha reparado nisso, mas sei que há toda uma mística ao estilo lenda urbana envolvendo esse número.

Cris disse...

Esse foi o primeiro post?
Que lenda urbana?

Ontem reli seus textos sobre espiritismo.
Engraçado como cada vez que lemos, nossa visão muda.
Quando vc escreveu, eu pensava de um jeito.
Ontem absorvi a leitura de um modo diferente.

H K Merton disse...

Sim, este foi o primeiro post.

Sobre o número, eu não entendo bem, mas sei tem uma espécie de mitologia envolvendo o horário 11h11... Por incrível que pareça, o meu primeiro post foi publicado nesse horário exato.

Anônimo disse...

acabei de começar a ler o blog e já adorei!

H K Merton disse...

Obrigado, anônimo, e seja bem vindo(a), seja lá quem você for!

Marcelo Novaes disse...

Merton,


Não há nada de estranho em vc, como não havia em Thomas Merton [os mais ortodoxos católicos têm certa dificuldade em digeri-lo, assim como a Pierre Teilhard de Chardin...; aliás, heterodoxos não parecem ser muito palatáveis a quaisquer instituições...].


Estranho seria não buscar.
E isso, ninguém estranha.



[Mundinho paradoxal...]




Abraços.

Marcelo Novaes disse...

Merton,



Vamos examinar algumas coisas.



Primeiro: vc encontrou perplexidade e/ ou "estupor", imobilidade dos pais frente às tuas questões metafísicas. Isso é o mais esperado, quando a criança propõe esse gênero de questão. Felizmente, vc não encontrou "deliberado boicote", sabotagem ou retaliação por ser "estranho". Não foi eleito pra ser vítima de bullying na escola, por exemplo. O que também é o comum e o esperado na nossa sociedade.



Assim sendo, eu diria que essa sua estranheza foi vivida de forma bastante benigna. Auspicioso início de jornada.


Mártir é o que "vê sozinho" ["testemunha solitária de uma verdade"]. E expia o que os outros não espiam [isso é mais do que um mero trocadilho...]. Na infância, vc não foi "punido por ver". Não conseguiram acompanhá-lo. Mas vc não partiu de uma premissa mais problemática [algo muito triste...], como "ter medo de Deus", por exemplo. [Completo acuamento]. Vc podia falar com Papai do Céu [o veremos cantando na próxima postagem...]. Isso é muito bom. Há aqueles que, por conhecerem o "Deus dos Exércitos" do Antigo Testamento, desde a primeiríssima infância, temem aos pais, a Deus e ao Demônio de forma praticamente equivalente. Não têm pra onde correr...




Repito, então: auspiciosa estranheza...









Abração.

H K Merton disse...

Olá, MARCELO,

Bem vindo ao começo da minha modesta saga...