Mais memórias de infância

Publicado por H K Merton em 23 de Maio de 2006 às 12:35 PM

Antes de passar à minha fase adolescente, gostaria de relatar ainda certos acontecimentos ocorridos em minha infância, que, acredito, são dignos de menção, e sobre os quais ainda não tive a oportunidade de falar nesta minha narrativa. Este exercício de relembrar minha vida desde o começo, para poder narrá-la como se fosse um filme, tem se revelado muito interessante. Memórias há muito não acessadas voltam a se fazer presentes.

_______Eu mencionei, antes, que me lembro de coisas da minha vida intra-uterina. E isso, por mais incrível que possa parecer, é a pura verdade. O fato é que eu me lembro de como eram as coisas dentro do ventre de minha mãe. Minha lembrança mais vívida é a dela conversando com meu pai e com meu irmão, a meu respeito. Eu, lá de dentro, de algum modo podia “ver” as pessoas que estavam à minha volta, e entender o que diziam(!). Lá dentro era muito agradável, um conforto total, quente e macio... Claro que não costumo comentar esse tipo de coisa com ninguém, sob pena de ser taxado de maluco. E eu tenho que dizer que compreenderia perfeitamente quem me chamasse assim. Isso é fantástico demais para ser simplesmente aceito assim, sem mais aquela. Eu mesmo me surpreendo com isso, mas já desisti de tentar entender. A única coisa que posso fazer é dar a minha palavra de que estou falando a verdade.

_______Outra lembrança interessante da minha infância: com seis anos de idade fiquei doente, acometido de uma forte infecção hepática. Alguma coisa que eu comi... E eu sei que foi uma esfirra de carne que já fazia aniversário na vitrine daquele bar. Minha mãe resolveu não me levar ao médico antes de tentar um tratamento à base de chás e alimentação inócua. Lembro que vomitei muito, muito mesmo, por dois dias inteiros. Fiquei de cama. Era inverno e fazia muito frio, então fui coberto com dois bons cobertores, daqueles sulistas, pesadões, que não deixam o frio chegar perto.

_______Nesse dia, de olhos fechados, debaixo das cobertas, sozinho e amuado, comecei a ver coisas meio estranhas... Vi um ambiente escuro e úmido, pulsante, que de alguma maneira eu sabia estar localizado dentro do meu corpo. Eu estava vendo o interior do meu organismo, em alguma parte específica! E nesse lugar vi uma infinidade de corpúsculos escuros, como que monstrinhos diminutos, que devoravam paredes e tecidos vivos, que iam se desfazendo, lembrando também operários demolindo, à base de marretadas, aos poucos, um velho edifício condenado. Nesse exato momento entendi que eram vírus atacando meu corpo, embora então eu não conhecesse o significado dessa palavra.

_______Minha reação foi imediata: cerrei com mais força os meus olhos, e imaginei um exército de homenzinhos luminosos, como pequenos soldadinhos, usando capacetes e tudo, invadindo aquele ambiente e atacando os monstrinhos. Fiquei ali, debaixo do cobertor, de olhos fechados, assistindo aquela cena dantesca: num ambiente escuro, viscoso e vivo, parecido com o interior de uma caverna pulsante, se desenrolava uma batalha interminável entre soldadinhos luminosos e monstrinhos devoradores de entranhas... A luta se dava na base da pancada, mesmo. Não haviam armas. Era uma batalha inglória para os soldadinhos, porque os monstrinhos eram resistentes. Então eu, que por motivos óbvios torcia pelos soldados, mentalmente enviei mais e mais reforços, até que o exército inimigo fosse dominado e por fim totalmente dizimado.

_______Ao fim da batalha, imediatamente me senti melhor, e pulei da cama, suando em bicas, mas sem febre, bem disposto e saudável. Minha mãe, surpresa ao me ver bem disposto, disse que já se preparava para me levar ao doutor, porque eu não estava melhorando, e que ela tinha medido 40º de febre. Apesar de já ter percebido que eu estava ótimo, fez questão de medir a minha temperatura novamente, e constatou, em meio a um largo sorriso de alívio, que agora estava perfeitamente normal.


"Infecção: ação exercida no organismo por agentes patogênicos: bactérias, vírus, fungos e protozoários. Infecção é todo processo inflamatório no qual exista um agente infeccioso; os agentes infecciosos são seres vivos microscópicos.
- Michaelis.


_______ É isso. Não tenho repostas para explicar como uma criança de seis anos, que nunca ouviu falar em germes, bactérias ou vírus, e muito menos sabe alguma coisa sobre o sistema imunológico humano, pode ter “visto” uma cena como a descrita acima. Mas o mais importante é observar que, na verdade, eu é que comandei (e não tenho dúvidas disso) meus agentes auto-imunes no ataque contra os agentes invasores que atacavam meu fígado. Isso aconteceu lá pelos idos de 1973, com um garotinho meio diferente.


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