A reencarnação explica as diferenças e o sofrimento no mundo?

Continuação de Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual. Texto de autoria própria, baseado num artigo do Profº José Moreira da Silva.




"Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se? Sofrendo a prova de uma nova existência.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 166)


"Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 132)


Se aceitarmos que tudo de ruim que acontece conosco é a reação por nossas falhas passadas, aí é preciso aguentar tudo calado. Aceitar e encarar as adversidades como instrumentos para a nossa "evolução", o nosso crescimento espiritual. Você deve se conformar, entender que é (ou foi) uma pessoa ruim e merece a dor. Este é, sabidamente, um dos fatores pelos quais as sociedades que adotam a teoria da reencarnação estão entre as mais atrasadas do mundo, econômica e socialmente falando. A Índia, mãe da ideia, é o maior exemplo: milhões de pessoas vivem resignadas na pobreza porque acreditam que merecem viver aquilo, que estão pagando por erros cometidos em vidas passadas e por isso nasceram como membros de castas inferiores, uma condição que terão que suportar sem reclamar por toda a vida. Conveniente para alguns, cruel para muitos.

Mas isso não surpreende: o conceito da reencarnação ensina, explicitamente, que em nosso plano convivem seres superiores, evoluídos, e outros espiritualmente inferiores e subdesenvolvidos. Segundo Kardec, por exemplo, negros e índios, entre outros, seriam encarnações de espíritos inferiores. Senão, vejamos o que o próprio tem a dizer sobre o assunto:

"Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, (...) perguntamos: (...) Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton?"
(Allan Kardec, Livro dos Espíritos, Federação Espírita Brasileira, 76a. edição, 1995, Cap. V, q.222, pp.147-148)

"O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os espíritos recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados"...
(Allan Kardec, A Gênese, Ed . Lake, São Paulo, 1a edição, comemorativa do 100o aniversário dessa obra, p. 187)

"Um chinês, por exemplo, que progredisse suficientemente e não encontrasse em sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará entre um povo mais adiantado"
(Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Edição da Federação Espírita Brasileira, Brasília, 32a. edição, sem data, pp. 206-207. A edição original de Qu"est ce que le Spiritisme é de 1859)


Bom, Kardec era francês, europeu bem nascido, por isso muito superior a índios, negros, chineses e hotentotes... O curioso é que os séculos passam e a população negra e chinesa continua aumentando, e muito... Se estamos num processo de evolução, que segundo o próprio "codificador do espiritismo" é irreversível, o número de índios, negros e chineses deveria estar diminuindo. Aliás, acho que esqueceram de avisar ao grande mestre que alguns dos maiores gênios da História, entre poetas, cientistas, pensadores e políticos tinham (e tem) origem negra, ameríndia e chinesa.

Já Chico Xavier, expoente máximo do espiritismo no Brasil, ensinava que a pobreza é uma ótima oportunidade para uma maior evolução espiritual. Dizia que alguém que vive na pobreza nesta vida poderia numa próxima voltar, além de abastado, preparado para dividir a riqueza com os mais necessitados. E ele realmente parece ter feito questão de viver na pobreza durante toda a sua vida, apesar das inúmeras oportunidades que teve para enriquecer. - Isso cativa muita gente, e convence os mais impressionáveis de que, se ele viveu o que pregou, logo, o que ele pregou deve estar certo. - Simplório? Sem dúvida. Porém... será mesmo que quem nasce na miséria deve se conformar, esperando que talvez numa próxima vida possa voltar em outra condição, se praticar virtudes agora?

Bem, é exatamente nisso que acreditam também os hindus. - O que é ser bom, neste caso? Aguentar tudo calado, aceitar passivamente as injustiças e a própria condição social, seriam sinônimos de bondade?

A História mostra que não. A Europa só evoluiu, em termos tecnológicos, culturais e sociais, levando consigo o resto do mundo, quando pessoas em condições sociais inferiores se revoltaram e foram à luta. Se tivessem um governo teocrático baseado na crença da reencarnação, como é o caso, além da Índia, de diversos países subdesenvolvidos do continente asiático, isso nunca teria ocorrido. Provavelmente iriam aguentar as vicissitutes calados, esperando pela próxima vida. É mais do que evidente, histórica e sociológicamente falando, que a crença na reencarnação fatalmente leva ao conformismo. Contraditoriamente, os reencarnacionistas falam em evolução, mas a História nos mostra que, se o ser humano aceitasse o sofrimento como consequência de um processo reencarnatório, o mundo não teria evoluído de fato.


"A reencarnação explica"... Será?

Este é considerado pelos reencarnacionistas como o grande ponto forte da doutrina da reencarnação: o fato de ela “explicar” as diferenças e injustiças do mundo. E isso é tudo que uma mente questionadora procura: explicações. Mas me responda agora: qual deve ser o objetivo de um verdadeiro buscador espiritual? Explicações reconfortantes ou a Verdade, mesmo que num primeiro momento ela não pareça tão bonintinha e confortável?

O ser humano primitivo, quando queria algo, simplesmente tomava. Depois passou a viver em sociedade, e a própria natureza criou um sistema para garantir a sobrevivência no planeta. O que aconteceu foi o seguinte: milhões de espécies animais morreram porque não tinham um sistema que funcionasse. Quando surgiu um sistema que funcionou, este permaneceu. Simples como a natureza costuma ser. Esse sistema foi desenvolvido pelos animais sociais (que vivem em grupo) e é chamado de Sistema Hierárquico. Ou seja, todo grupo de animais tem um chefe. Isso funciona, porque sem um chefe (o mais poderoso ou persuasivo da turma), os animais lutam o tempo todo entre si. O chefe apareceu para manter a paz e garantir a partilha dos recursos. Foram encontradas evidências de que os seres humanos, já no período pré-histórico, ajudavam aos portadores de deficiências físicas, incapazes de caçar, a se adaptar em sociedade, a executar as tarefas essenciais do dia-a-dia. Mas antes da existência das estruturas sociais e do líder, a vida humana era uma luta constante.

O tempo passou, eras se sucederam, a sociedade humana foi evoluindo, aprimorando-se. E então, um dia, o inevitável aconteceu: alguém, há muito tempo atrás, perguntou: "porque uns nascem superiores e outros inferiores? Porque um nasce belo, saudável e rico, enquanto outro nasce feio, doente e pobre? Isso é injusto!" Aí, desenvolveu uma teoria baseada na mais elementar lógica humana para explicar todas as aparentes injustiças do mundo. Se esta vida parece injusta, nada mais reconfortante do que acreditar que haverá uma nova vida, aqui mesmo nesta Terra, onde tudo será diferente: o que me oprime será oprimido, e eu mesmo, que agora sou pobre e doente, um dia serei rico e saudável. A teoria da reencarnação surgiu para "explicar" as injustiças das diferenças de nascimento.

Observemos que o Sistema Hierárquico, explicado mais acima, funciona perfeitamente entre todos os animais sociais. Os mais aptos se destacam no grupo, dominando sobre os demais. Se você examinar o sistema hierárquico, comparando vários grupos animais, verá que é um fator positivo e resolve muitos problemas. Mas para os seres humanos, especificamente (e apenas para eles), a realidade biológica parece injusta, porque além de sociais somos racionais, espirituais e questionadores. Mesmo sendo inegavelmente especial em muitos aspectos, num particular o ser humano é igual às outras espécies da natureza: alguns nascem mais inteligentes, fortes e belos, enquanto outros nascem estúpidos, fracos e feios. Acontece que isso faz parte da verdadeira e soberbamente comprovada evolução natural que atua em nosso mundo.


Raquel Zimmermann, a nova "top one" do mundo


As disparidades sempre ocorrem no universo dos seres vivos, seja vegetal ou animal. Nossa racionalidade e sensibilidade, no entanto, reluta em aceitar este fato inquestionável. Todos nascemos com determinadas qualidades e desprovidos de outras, e nesse sistema existem superdotados e embotados. Por que uma roseira produz flores maravilhosas, enquanto outra, da mesma espécie e criada no mesmo tipo de solo, submetida às mesmas condições e cultivada igualmente, simplesmente não floresce? O mesmo se dá com as árvores frutíferas. Dentro do mesmo pomar, algumas produzem mais frutos que outras, e algumas até não produzem fruto algum. No caso das plantas ornamentais, algumas crescem belas e exuberantes enquanto outras não se desenvolvem ou se tornam retorcidas e feias. Será que isso acontece porque as plantas, na sua "encarnação anterior" foram más?? A flor nasceu torta porque na outra vida foi perversa e agora está evoluindo, para que numa nova encarnação possa nascer bonita e viçosa?

E quanto aos animais? Na criação de carpas do meu amigo, uma nasceu com uma nadadeira defeituosa. Ela tem dificuldades para nadar e principalmente para subir à superfície e buscar alimento. As outras comem tudo rapidamente, e ela precisa esperar uma ou outra migalha que desça no fundo do tanque para poder comer. Por conta disso, o seu desenvolvimento foi comprometido e ela cresceu menos que suas irmãs. Por que isso aconteceu? Na outra vida ela foi um peixe ruim? Ou será que na próxima ela vai nascer saudável, para compensar o sofrimento desta vida??

Evidente que não! A genética explica todos esses fatos! E no caso dos seres humanos não é diferente! O fato é que sempre vão existir pessoas superiores e inferiores umas às outras, num ou noutro aspecto, neste mundo. Isso faz parte de um outro processo evolutivo a que estamos submetidos, todos nós, humanos, animais e vegetais: aquele que foi descoberto por Charles Darwin. Este sim, é real. E, sinto dizer aos que apoiaram suas esperanças nessa crença, não tem nada a ver com reencarnação. E essa superioridade de uns sobre outros é individual, não racial, embora cada uma das classes biológicas humanas possua características distintas. Tanto que existem pessoas embotadas e inteligentes em todas as raças. Assim como existem "feios" e "belos" em todas, e assim por diante.

Você, fisicamente falando, é o resultado de muitos fatores genéticos combinados. Quais as chances de a Raquel Zimmermann ter se tornado o sucesso que é se tivesse nascido no Zimbabue? E se tivesse nascido com uma forte tendência genética à obesidade? É quase certo que nunca seria famosa, porque o padrão de beleza que impera no mundo, hoje, é “branco e magro”. Mas isso já foi diferente no passado. Cleópatra, considerada a mulher mais bela do mundo na Antiguidade, era uma mulher de pele escura e nada magra. No período renascentista, as mulheres que mais faziam sucesso eram as “rechonchudas”. O padrão atual é Raquel Zimmermann, mas ele pode mudar no futuro. Sorte da Raquel ter nascido nesta época, porque simplesmente sua condição física e sua capacidade de ficar à vontade diante das câmeras lhe valeram fama e fortuna.

Agora, dizer que a Raquel nasceu assim porque foi melhor numa outra encarnação do que alguém que nasceu no Zimbabue ou com uma tendência genética à obesidade é puro preconceito e elitismo. Você está dizendo, ainda que indiretamente, que a Raquel é melhor do que uma criança do Zimbabue, e não só por causa das circunstâncias, mas também moralmente. Você está dizendo que ela é rica, bonita e desfila bem porque é moralmente superior a quem nasceu no Zimbabue. Você pode tentar negar, dar voltas, mudar o foco do assunto (especialidade dos reencarnacionistas quando se toca nesses pontos-chave), mas é exatamente isso que a doutrina da reencarnação ensina. Que uma pessoa saudável, rica e bela, é moralmente superior a uma pessoa deficiente, feia e pobre.


"É por isso que a idéia da reencarnação é o pensamento mais preconceituoso, excludente, elitista e arrogante que eu conheço para explicar fatos naturais."

Profº José Moreira da Silva


E há um exemplo ainda mais claro para abordarmos a mesma questão: por que um ser humano sente compaixão por outro? Por causa de um fator chamado empatia: porque se põe no lugar do próximo, e assim pode sentir o que ele sente, num certo nível. Mas a empatia depende muito da sensibilidade de cada um. Tem gente que nunca consegue se por no lugar do próximo. Estes se mostram muito insensíveis, na maior parte do tempo. A reencarnação procura mostrar que os insensíveis ainda terão que nascer e renascer muito para desenvolver a sensibilidade para com o sofrimento alheio.

Mas o fato é que as diferentes sociedades também influenciam nesse grau de sensibilidade. Quanto mais avançada uma civilização, maior à capacidade de seus indivíduos se colocarem no lugar do outro. Quanto mais avançada é a cultura de um indivíduo, mais sensível ele é. Os europeus estão entre os que mais se preocupam com os direitos dos animais, por exemplo. Naqueles países acontecem até protestos públicos e grandes passeatas nas ruas em defesa dos direitos dos ratos de laboratório. Isso acontece, entre outras razões, porque as suas necessidades mais básicas já foram supridas. Eles não precisam se preocupar com o que vão comer hoje à noite e nem com o que vestir ou onde morar. O sistema de saúde pública funciona bem, o sistema educacional é bom e o transporte público eficiente. - Mas as crianças dos países miseráveis sofrem tanto, com a carência dessas necessidades essenciais, que não conseguem pensar em ninguém, a não ser nelas mesmas. A capacidade de se importar com a dor do outro fica naturalmente reduzida. Se eu não tenho o que comer ou onde morar, fica difícil me indignar com os maus tratos que os ratinhos brancos sofrem nos laboratórios. Agora, se a reencarnação fosse um fato, e visasse a evolução da alma, ninguém nasceria em condições que promovessem a insensibilidade e a violência, em sociedades menos evoluídas, - que na verdade ajudam a desenvolver mais esses fatores negativos.

É claro que alguém que nasceu miserável e desajustado tem mais motivos para se revoltar e se tornar um ser humano pior. Não afirmo que isto seja uma regra, porque não é. Mas estamos falando de estatística, aqui. Já é comprovado estatisticamente, inclusive por pesquisas da ONU/ACNUR, que nos países onde a desigualdade social é maior, os índices de criminalidade são maiores. Num país onde a justiça social é altamente satisfatória, como a Suíça ou a Holanda, os índices de violência são próximos de zero!

Só que aí, alguém que cometeu crimes, - por ter nascido num meio propício, sujeito a condições genéticas e psicológicas que o favoreceram a isso, - na próxima encarnação vai ter que sofrer ainda mais, por causa dos erros cometidos nesta vida. Ou seja, mais uma vez, as chances dele piorar mais ainda se tornam cada vez maiores; e assim num crescente infinito! É um círculo vicioso sem fim, e o contrário também vale: alguém que nasceu no seio de uma família rica e compreensiva, num país onde há justiça social e os direitos do cidadão são respeitados, tem muito mais chances de se tornar uma pessoa boa (às vezes uma pessoa dessas se torna um criminoso também, indo contra todas as probabilidades, mas esses casos representam uma minoria no quadro geral). - Com isso ela ganharia oportunidades cada vez maiores para reencarnar cada vez melhor, até finalmente alcançar os planos mais elevados. Onde está a justiça??

Um sistema como esse simplesmente não funcionaria. Insisto que a única maneira dele funcionar seria se a memória fosse preservada. Se eu me lembrasse porque estou sofrendo tanto, aí sim iria me esforçar para melhorar. - E a esse respeito, já ouvi muito que "Deus nos tira a memória por misericórdia. Seria insuportável lembrar o que fomos e do mal que fizemos"... E aí eu respondo: nos fazer esquecer de quem somos e do porquê de estarmos sofrendo tanto? QUE TIPO DE MISERICÓRDIA É ESSA??

E de novo, a reencarnação se mostra elitista. Ela está dizendo, de fato, que quem é mais sensível é mais evoluído moralmente do que quem não é. Ignora todos os fatores sociais, naturais, genéticos e biológicos que levam uma pessoa a ser como é. - O que você é está determinado pelo seu corpo, sua família, sua sociedade e sua história. Não por alguma coisa ocorrida em outra vida que foi apagada da sua memória. O próprio Buda, que apoiava a teoria dos renascimentos por ter nascido na Índia, questionou estas questões, e no final disse que não temos um ego de fato. Ele disse que o que somos é uma relação de vários fatores que, se analisados com seriedade e desapego, o mais sensato é não falar das realidades pós matéria. Isso simplesmente não nos cabe. Por isso é que o budismo primordial, aquele ensinado por Sakiamuni, não ensina reencarnação. Os ensinamentos da fase final da sua vida simplesmente não abordam a jornada da alma após a morte. Tudo que há é o silêncio.



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Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual

Nesta abordagem sobre a reencarnação, faço questão de publicar a adaptação de um artigo analítico bastante aprofundado que li há alguns anos, num site cético (infelizmente não me lembro qual), escrito pelo Profº José Moreira da Silva. Eu copiei, salvei e arquivei o texto, porque o achei coeso, racional e bem sintetizado, sem deixar de ser sensato. Aborda principalmente os aspectos morais, éticos e lógicos envolvidos num sistema filosófico/religioso que adotasse a teoria da reencarnação. Em homenagem ao meu caro amigo e leitor, Mizi, vou publicar esse material antes de contar a história do reencarnacionista que escreveu uma ótima contestação à teoria da reencarnação, que mencionei no final da postagem anterior. A postagem a seguir é uma adaptação do artigo do Profº José Moreira da Silva, com excertos meus.


Aprendizado, evolução e consciência. O Eu e a memória




Eu tenho um cão. Não foi fácil, mas ele aprendeu a fazer as suas necessidades fisiológicas no lugar certo. Sabe por quê? Porque eu o pego no ato e o repreendo, falando alto e firmemente: “Não pode!”, e então o levo para o local adequado. Esse método funciona porque o cão percebe o que está fazendo e associa a desaprovação com o ato praticado. Com o tempo e a repetição, ele aprende a não usar outro local para suas necessidades, a não ser o que eu indiquei. Mas se você vir o cachorro fazendo suas necessidades em um local proibido, esperar uma hora e só depois repreendê-lo, isso não vai funcionar. Ele não vai aprender nada desse jeito. Por quê? Porque ele não sabe a razão de estar sendo repreendido! Sendo assim, puni-lo seria pura perda de tempo e até crueldade. O mesmo acontece com uma criança. Se uma criança não souber porque está sendo repreendida, se ela não se lembra o que fez de errado, a "bronca" será, obviamente, cruel e injusta. Portanto, também às crianças convém admoestar em tempo hábil.

Reencarnação: segundo essa teoria, analogamente, eu estaria na mesma condição do cão punido uma hora depois da travessura. Estou pagando crimes que eu nem sei que cometi. E se eu não me lembro de nada, a punição será sempre cruel e injusta para mim.

Outro exemplo prático: suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Você não entende nada da condução de veículos automotores; então procura um professor: na primeira aula ele começa a lhe ensinar tudo o que você tem que fazer. Passam uma tarde inteira juntos, praticando. Mas aí você vai dormir e, no dia seguinte, você acorda tendo esquecido tudo que o professor ensinou! - Ora, esse professor teria que começar tudo de novo, do zero...

Claro, se você esqueceu tudo, o aprendizado volta à estaca zero, simplesmente porque a aprendizagem é um processo cumulativo. É mais do que óbvio que você nunca vai evoluir dessa forma. Você nunca poderia aprender nada, se continuasse perdendo a sua memória, de uma existência para outra. Aprendizado é como a adição: todo dia você vai acrescentando conhecimento e experiência, até chegar no ponto desejado. Esse total é o que você aprendeu até agora, o seu grau de evolução, seja intelectual ou moral. Mas sem memória ativa não pode haver aprendizado.

O detalhe que faz toda a diferença é que a memória é bem mais importante do que costumamos imaginar. A memória representa o componente mais básico das nossas consciências. Em última análise, poderíamos dizer que a memória é aquilo que somos, o que você é, o seu "Eu" real, o seu "Self". Se você retira a memória de um indivíduo consciente e pensante, esse indivíduo simplesmente deixa de existir, ele se torna como um vegetal.

Agora imaginemos que o "indivíduo X" viveu criminosamente, por algum tempo. Ele pode perfeitamente, em algum momento da sua vida, vivenciar uma retomada de consciência e mudar o seu proceder a partir daquele ponto. Consequentemente, se ele resolve mudar de atitude, toda a sua vida muda para melhor. - O que possibilitou essa mudança? Uma decisão pessoal. - O Sr. X vinha agindo de uma determinada maneira, mas depois de algum tempo se arrependeu e reviu suas atitudes. Sim, nós podemos nos arrepender de um mal feito, por vários motivos: ao vermos um semelhante que sofre por nossa causa, por entendermos que somos também responsáveis pelo bem da coletividade, por compaixão, por medo de punição ou simplesmente por entendermos que fazer o bem é, em algum nível, mais gratificante do que praticar o mal.

Certo. Mas esse tipo de mudança para melhor também só é possível de ocorrer quando o indivíduo faz uso da memória. - Se eu não me lembro de algo ruim que fiz, como poderia optar pela mudança? Somente se eu me lembro do que fui, de tudo que fiz de ruim e das consequências dos meus atos é que posso me arrepender. É assim que algumas pessoas resolvem procurar por alguém que prejudicaram, para se desculpar ou tentar compensar, de algum modo, o mal que causaram, e se comprometer a nunca mais repetir o mesmo erro. Eis a verdadeira evolução espiritual.

Dependendo da sociedade em que nascer, você será uma pessoa totalmente diferente. Se você tivesse nascido no Japão, hoje seria outra pessoa, não só com costumes diferentes, mas também com valores de moral diferentes dos de outros povos. Se tivesse nascido nos EUA, na África, na Europa ou no Alaska, idem. Tendências naturais fora do seu controle equivalem a pelo menos 90% do que você é, e este é um fato científico fartamente comprovado em estudos diversos. Mas a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem o uso da sua memória. Imagine se num dia você ensina ao seu filho sobre quem ele é, sobre a sua família, suas raízes e sua cultura, e também sobre o certo e o errado. Além disso, nesse mesmo dia ele aprende, por experiência própria, que colocar a mão sobre a chama acesa no fogão é algo muito perigoso. Bem, ele aprendeu coisas importantes nesse dia. - Evoluiu enquanto ser consciente. - Mas agora imagine que, no dia seguinte, ele simplesmente acorda sem se lembrar de nada! O que aconteceria? Tal criança não seria capaz de nenhum progresso, não seria possível acontecer evolução alguma na vida de uma pessoa assim, e ela viveria até o fim da vida repetindo sempre e sempre as mesmas experiências, sem aprender nada, nunca.

Nós somos aquilo que lembramos que somos, e isso não é teoria, é um fato científico. Alguns talvez se lembrem do filme "Como se Fosse a Primeira Vez", protagonizado por Drew Barrymore e Adam Sandler. Num determinado momento da história, o mocinho vai procurar a mocinha (que tem um transtorno de memória crônico adquirido num acidente) numa clínica especializada, e lá encontra um paciente cuja memória recente dura apenas alguns segundos. Os dois se cumprimentam e se apresentam, mas, após alguns segundos de conversa, o homem volta a se apresentar. Os dois novamente se apertam as mãos e dizem seus nomes, para logo em seguida... O homem se esquece e volta a se apresentar! A cena é hilária, mas esse tipo de transtorno existe e na vida real não tem nada de engraçado. Uma pessoa com uma doença desse tipo é como um zumbi, um morto vivo. - Exatamente como seria a alma humana, migrando de uma vida para outra, indefinidamente, sem nunca se lembrar o que foi ou do que fez em sua existência anterior: marcando passo na mesma situação, indefinidamente, incapaz de usar a experiência adquirida para melhorar. É assim que, inexorável, inevitável e obviamente, a teoria da reencarnação, enquanto processo evolutivo, cai por terra.


Karma ou carma

Muitos reencarnacionistas acreditam no karma ou carma. Outros tantos dizem que não, mas na realidade o conceito de ação e reação cármica (que é bem diferente da lei de ação e reação da física), isto é, a crença de que vamos todos receber a paga pelo que fizemos, nesta vida ou na outra, está sempre presente. Muitos reencarnacionistas dizem que não é assim tão simples, que a questão toda faz parte de um complicado processo evolutivo. - Mas esse processo sempre envolve um conceito mais ou menos idêntico ao do carma. - Um conceito impossível de aceitar, se fizermos uso do nosso discernimento, pura e simplesmente, livre de apegos à qualquer doutrina humana. Vejamos:

O carma seria como uma força invisível e irresistível que está sempre como a registrar tudo que você faz, a cada momento, para depois manipular circunstâncias para que você sofra ou alcance bênçãos, dependendo do mal ou do bem que fez, nesta ou noutra vida. Um sistema incompatível com o livre arbítrio e muito menos com os conceitos cristãos do perdão incondicional e da gratuidade. Deus perdoa, desde que você pague. Isso é perdão? Jesus falou em "perdoai as nossas dívidas". O que é perdoar uma dívida? Esquecer essa dívida, deixar para lá, como se ela nunca tivesse existido, ou obrigar o devedor a pagar o que deve, de um jeito ou de outro? Se a sua dívida tem que ser paga, de qualquer maneira, nesta vida ou na outra, faz sentido pedir "perdão para nossas dividas"?

Não.

Isso significaria que o perdão de Deus, na verdade, não existe, e que nenhuma dívida poderia ser perdoada: todas elas precisariam ser pagas, inexoravelmente, sem escapatória, sendo esta uma lei espiritual/universal imutável.

E se esta é uma lei inapelável, então as pessoas não são livres. Esta lei estaria, inclusive, muitas vezes usando uma pessoa para punir outra. Um exemplo bem simplificado, para não complicar o raciocínio: se alguém me dá uma surra porque eu dei uma surra numa outra pessoa, nesta ou numa outra vida, onde está o livre arbítrio da pessoa que surgiu para me dar uma surra, como reação pelo que eu fiz? Essa pessoa está me dando uma surra hoje como compensação pelo que eu fiz ontem, mas... Agora ela vai ter que receber a compensação também, por ter me surrado!?! Nesse exemplo hipotético, precisaria depois surgir um terceiro, para dar uma surra no segundo, e depois um quarto para surrar o terceiro e assim sucessivamente, sem fim... Ou então, ele me surra hoje, e amanhã eu volto a surrá-lo, depois ele me surra novamente, sendo um ato a reação do outro ato, ad infinitum... Claro que aqui estamos falando em surras como uma metáfora para todas a más ações que praticamos na vida.

Uma mulher foi vítima de um assaltante: ele a baleou, o tiro atingiu sua coluna vertebral e a condenou a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Se isso foi a consequência de algo que ela fez, então o assaltante está apenas cumprindo a Vontade de Deus, manifestada na lei de ação e reação espiritual, fazendo a mulher pagar sua dívida cármica. Mas não estaria ele próprio iniciando uma ação, usando seu livre arbítrio? E então, estaria ele também gerando carma ruim para si mesmo. Se for esse o caso, se ele está iniciando uma ação fazendo uso do seu livre arbítrio, então não podemos explicar o sofrimento com base em vidas passadas, porque para alguém iniciar uma ação é preciso que tenha o direito de fazer o que quiser, independente do que aconteceu numa outra vida. É um poço sem fundo, um círculo vicioso sem solução, sem razão de ser e completamente insano.

Se um homem resolve estuprar a primeira mulher que passar no beco à meia noite, usando seu livre arbítrio, essa mulher não tinha nada a ver com isso. Ele usou o seu livre arbítrio para fazer o mal a uma pessoa inocente. Dizer que a moça estuprada tinha algo para pagar ou aprender também não explica nada, porque sempre teria que existir uma equivalência proporcional entre os que decidem prejudicar alguém e os que devem ser prejudicados para pagar suas dívidas. Em outras palavras, as circunstâncias teriam que ser manipuladas o tempo todo, para levar os que estão a fim de punir alguém ao encontro dos que precisam ser punidos!

Esta noção não pode ser compatível, de modo algum, com o conceito de livre arbítrio. O tipo de controle que o carma teria que exercer sobre todas as pessoas e coisas seria algo injusto para todos. É muito mais coerente afirmar que as pessoas fazem o que querem e sofrem as consequências por isso nesta vida, de acordo com as circunstâncias específicas de cada caso, do que crer na atuação de uma força invisível que a tudo controla, numa sucessão de vidas sem fim. O estuprador terá um peso na consciência que vai carregar para o resto da vida. Suas noites de sono não serão as mesmas. Mas ele também pode ser um homem muito frio, que não se preocupa com dramas de consciência: ainda assim, viverá sob o risco de ser preso a qualquer momento, se a mulher voltar a vê-lo e chamar a polícia. Há também o risco de o marido ou algum parente da mulher decidir fazer justiça por conta própria... Enfim, sua má ação vai gerar N consequências na vida deste homem. Esta é a lei de ação e reação que a simples observação do mundo natural demonstra ser real. E assim é muito mais simples, prático e justo para todos.

O livre arbítrio exige acaso. Somente pode existir liberdade num sistema imprevisível. Nosso direito de decidir o que é certo e errado precisa da liberdade.


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Postagem adaptada de artigo do autor José Moreira da Silva, filósofo pela Universidade de Nova Iorque, professor e intérprete, dedicado ao estudo da natureza humana através da psicologia, filosofia e religião.



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Porque deixei de crer na reencarnação

Sim, eu já fui um defensor ferrenho da doutrina da reencarnação. - No transcorrer desta série de postagens, pretendo explicar em detalhes a respeito das razões que me fizeram mudar de ideia, algo que ocorreu já há algum tempo. Correria o risco de estar escrevendo em vão, se a maior parte dos reencarnacionistas (baseado nos muitos que eu conheço) não fosse constituída de pessoas abertas ao diálogo e a discutir ideias, desde que respeitosamente. É este o meu caso também, então aí vamos nós... Antes de entrar nas particularidades do assunto, convém publicar uma breve história da ideia da reencarnação no mundo.


A reencarnação na Antiguidade




A primeira referência à idéia de reencarnação na História tem cerca de 2.600 anos de existência. Aparece nas Upanishads, as escrituras sagradas do hinduísmo, religião que continua até hoje como a maior da Índia (professada por cerca de 80% da população), embora nas últimas décadas venha perdendo terreno para o islamismo e, em menor grau, ao cristianismo. A crença na reencarnação surgiu no norte da Índia, entre 1.000 e 600 aC, na mesma época em que Davi e seus descendentes governaram Israel, até a queda de Jerusalém. - Pelo fato de ser o hinduísmo a grande fonte e origem de todas as chamadas religiões da Tradição Oriental, e também de algumas seitas nascidas no Ocidente, a maior parte dessas doutrinas se encarregou de repassar, por todo o mundo, a teoria de que a alma habita diversos e diferentes corpos através das gerações e do transcorrer da História.

No século VI antes de Cristo, duas novas religiões foram organizadas na Índia, ambas egressas ou dissidentes do hinduísmo: uma é o jainismo, fundado pelo príncipe indiano Nataputa Vardamana (cerca de 599 a 537 a.C.). A outra é o budismo, fundado por Siddharta Gautama, conhecido como o Buda Sakiamuni (563-483 a.C.). A maior preocupação de Vardamana e de Gautama, mais ou menos contemporâneos dos profetas bíblicos Ageu, Zacarias e Malaquias, era encontrar a maneira de “atravessar o rio” que separa a vida terrena e ilusória, experienciada nos domínios de maya (ilusão dos sentidos que contém samsara, o ciclo interminável de renascimentos proposto pelo hinduísmo) ao moksha (a liberação ou libertação final). Mas é explícito, na tradição e nos escritos dessas duas doutrinas, que a crença na reencarnação entrou quase que exclusivamente por uma questão cultural, por um hábito e costume do lugar e da época em que surgiram, muito mais do que como afirmação doutrinária. Buda preferia não falar sobre o assunto, e em diversas ocasiões escolheu o silêncio em lugar de partir para explicações detalhadas a respeito do que acontece depois da morte física. Era esta a sua postura quanto a tudo que não pudesse ser “experimentado”, através do estudo, da vivência pessoal e da meditação profunda.

"Não creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém, que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas; a isso aceitai como verdade. Por isso, pautai vossa conduta!"

Sakiamuni (Bhuda)


Além disso, a noção de reencarnação, como a concebemos hoje, e a ideia aceita por algumas linhas do budismo (ao contrário do que muita gente pensa, reencarnação não é unanimidade entre os budistas) são muito diferentes. Dúvidas podem ser tiradas aqui, aqui e aqui, por exemplo, mas uma breve pesquisa no Google com os termos reencarnação – budismo, vai facilmente demonstrar essa diferença de conceitos.


“Em primeiro lugar, a reencarnação não é um conceito budista. É um conceito ocidental moderno inventado pelos socialistas utópicos do século XIX que foi adotado pelos espíritas e que as pessoas projetam equivocadamente no Budismo. Em segundo lugar, não existe no Budismo o conceito de espírito. Sendo o homem um ser impermanente e interdependente, não pode haver algo como um espírito autônomo e perene. O homem é um ser composto de agregados físicos e psíquicos impermanentes e interdependentes, sujeitos a contínuas transformações, como o é o próprio ser humano.

Textos budistas falam em vidas sucessivas condicionadas pelos atos das vidas anteriores. Mas nem todos os budistas acreditam nisso ao pé da letra, e os que o fazem falam em transmigração ou renascimento, nunca em reencarnação.”


Rev. Ricardo Mário Gonçalves - Instituto Budista de Estudos Missionários (Templo Higashi Honganji)


Continuando a nossa análise histórica, no mesmo século do surgimento do jainismo e do budismo, o filósofo e matemático grego Pitágoras, nascido por volta do ano 580 aC, disse que a alma era imortal e, depois da morte do corpo, poderia ocupar outro corpo, humano ou animal. Daí vem a palavra metempsicose, de origem grega, que significa transmigração.

A fala de Pitágoras representa a primeira vez que a teoria da reencarnação foi mencionada no Ocidente. - Isto veio a influenciar outro famoso filósofo grego, Platão (427 – 347 aC), a dizer que a alma nascia muitas vezes, até durante 10 mil anos, antes de partir para a bem-aventurança celestial.

Eis a breve história da teoria da reencarnação, antes de Cristo. Muitas publicações espíritas afirmam ou levam a crer que a reencarnação seria uma espécie de unanimidade ou consenso no pensamento religioso universal, desde a Antiguidade. Esta é uma via de pensamento absolutamente incorreta. Se considerarmos apenas as 3 grandes religiões monoteístas do planeta (judaísmo, cristianismo e islamismo), - lembrando que só aí está concentrada algo próximo a 90% da população mundial - sendo que nenhuma delas prega a reencarnação, seremos obrigados a aceitar que a realidade é outra. E mesmo dentro do hinduísmo sempre existiram as linhas dvaita, que também não aceitam a reencarnação. - A síntese de tudo o que foi dito até aqui se traduz na constatação de um Fato incontestável: a reencarnação é uma crença oriental surgida na Índia e difundida pela maioria das linhas do hinduísmo. Ponto.

Dito isto, particularmente considero bastante curioso o fato de uma das contestações à reencarnação mais bem elaboradas que eu já li na internet ter sido escrita por um cara que acredita piamente na reencarnação. Ou acreditava.

Na próxima...


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Fontes e bibliografia consultada:
Profº Roberto de Albuquerque Cezar;
BOWKER, John. Para Entender as Religiões, São Paulo: Ed. Ática, 1997;
NICHOLS, Larry A. Nichols. Dicionário das Religiões, São Paulo: Vida, 2000.




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